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Autor: Francisca Branco Veiga
Francisca Branco Veigahttps://franciscabrancoveiga.wordpress.com/Doutorada em História Contemporânea pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com a tese "A Restauração da Companhia de Jesus em Portugal, 1828–1834: O breve regresso no reinado de D. Miguel". É mestre em Património Cultural de Matriz Cristã pela Universidade Católica Portuguesa, com especialização em Museologia, tendo desenvolvido a dissertação "Noviciado da Cotovia – O passado dos Museus da Politécnica, 1619–1759".
Foi distinguida com uma Menção Honrosa no Prémio de Investigação Internacional “Pina Manique – Do Iluminismo à Revolução Liberal” (2020), com a sua dissertação de doutoramento.
É autora das obras "Companhia de Jesus: O breve regresso no reinado de D. Miguel" (2023) e "Noviciado da Cotovia, 1619–1759" (2025).
Os seus interesses de investigação incidem sobre a história política e religiosa da época Moderna e Contemporânea em Portugal, com particular enfoque na relação entre Igreja e Estado, ordens religiosas e património cultural.
Noviciado da Cotovia 1619-1759 – O Primeiro Noviciado da Companhia de Jesus na Província Portuguesa
Uma pesquisa apaixonada que convida a entrar no mundo do primeiro noviciado da Companhia de Jesus em Portugal.
Situado no local onde hoje se encontra o Museu Nacional de História Natural e da Ciência, este noviciado teve um papel decisivo na formação religiosa e académica jesuíta entre os séculos XVII e XVIII. Através do estudo do espólio preservado e das fontes históricas associadas, procurei reconstruir o passado deste edifício e da sua comunidade, explorando também o papel da Arte Sacra, tão presente na sua igreja e nos seus espaços.
Este trabalho oferece uma visão integrada da história, arquitetura, ensino e arte no Noviciado da Cotovia, inserindo as suas peças no contexto artístico da época e valorizando a memória cultural deste património muitas vezes esquecido.
Depois de anos de investigação apaixonada, sinto-me honrada por poder partilhar esta obra, na esperança de que proporcione uma leitura rica e envolvente a todos os que se interessam pela história de Portugal, pela arte religiosa e pelo património jesuíta.
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Como referir este texto:
Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!
VEIGA, Francisca Branco, Noviciado da Cotovia 1619-1759 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [24 de Março de 2025].
O livro está disponível para aquisição em formato físico na Amazon, e convido todos a conhecerem esta parte fascinante da nossa história.
Cenas alegóricas alusivas às disciplinas que eram ensinadas no Colégio de Santo Antão. Sala «das Esferas». Atual Salão Nobre do Hospital de São José. Fotografias: @franciscabrancoveiga
No Colégio de Santo Antão, em Lisboa, funcionou desde finais do século XVI até ao século XVIII uma Aula de Esfera pública, uma das mais relevantes instituições de ensino científico da época em Portugal.
Esta designação derivava dos tratados sobre “a esfera”, que tratavam dos princípios da cosmografia, fundamentais para a formação dos navegadores e estudiosos da época. A Aula de Esfera fazia parte do currículo jesuíta, que desempenhava um papel central na educação científica e na formação de elites portuguesas, em especial nos domínios da matemática aplicada à navegação, cartografia e astronomia.
Disciplinas ensinadas na Aula de Esfera:
Arte de Navegar – estudo dos métodos de navegação, incluindo o uso de instrumentos náuticos como o astrolábio, o quadrante e a balestilha.
Geografia e Hidrografia – exploração e descrição dos continentes, oceanos e rotas marítimas, com especial enfoque nas possessões ultramarinas portuguesas.
Cosmografia, construção e uso de globos – conhecimentos sobre a forma da Terra e a representação cartográfica do mundo conhecido.
Astrologia Judiciária / Astrologia Prática – estudo da influência dos astros sobre os acontecimentos terrestres e a sua aplicação à navegação e ao planeamento de expedições.
Geometria – fundamental para a formação dos alunos que ingressavam na carreira militar, permitindo o domínio da engenharia e da balística.
Astronomia – estudo do movimento dos astros e da sua aplicação à navegação astronómica.
Matemática aplicada à cartografia e navegação – cálculo de latitudes, longitudes e projeções cartográficas.
Física e mecânica – princípios fundamentais para a compreensão da balística e do funcionamento de máquinas e instrumentos científicos.
Os alunos da Aula de Esfera pertenciam a três grandes grupos:
Futuros especialistas em navegação e cartografia, que serviriam a Coroa portuguesa na exploração e administração das possessões ultramarinas.
Jovens nobres aspirantes à carreira militar e às conquistas coloniais, que necessitavam de conhecimentos em geometria, balística e estratégia militar.
Missionários, que partiam para territórios ultramarinos e necessitavam de formação científica para desempenharem o seu papel na evangelização e no contacto com civilizações estrangeiras.
A Aula de Esfera do Colégio de Santo Antão desempenhou um papel central na cultura científica portuguesa do século XVII. Era a única instituição em Portugal onde se ensinavam ciências ligadas à Matemática com um caráter tão prático e aplicado. O seu ensino estava diretamente relacionado com os interesses expansionistas da Coroa e com a necessidade de manter a liderança portuguesa na navegação e na exploração marítima.
Muitos dos homens que se distinguiram na cartografia, na astronomia e na administração dos territórios ultramarinos passaram por esta instituição. Lisboa era, à época, um ponto de encontro para intelectuais e cientistas europeus a caminho da Ásia e das Américas, e os mais preparados entre eles contribuíam para o ensino na Aula de Esfera, introduzindo os mais recentes avanços científicos.
Professores notáveis da Aula de Esfera:
Giovanni Paolo Lembo (G.P. Lembo) – astrónomo jesuíta italiano, colaborador na construção de instrumentos de observação astronómica.
Cristóvão Galo – matemático e estudioso da cartografia e navegação.
Simão Fallónio – especialista em astronomia e geografia.
Valentim Estancel – professor de matemática e cosmografia.
Inácio Vieira – destacado estudioso da astronomia e seus usos na navegação.
Francisco da Costa – mestre em astrologia e cosmografia.
João Delgado – professor de geometria e balística.
Cristóvão Griemberger – astrónomo e matemático.
Francisco Machado – cartógrafo e especialista em construção de globos.
Sebastião Dias Cristóvão Galo – matemático e estudioso da arte de navegar.
Inácio Stafford – especialista em astrologia prática e judiciária.
Luís Gonzaga – professor de física e mecânica aplicada à navegação.
Devido à falta de espaço e ao crescimento do ensino jesuíta em Lisboa, o Colégio de Santo Antão na Mouraria foi substituído, a 8 de novembro de 1593, por um novo espaço, denominado Colégio de Santo Antão-o-Novo, situado no local onde atualmente se encontra o Hospital de São José.
O atual Salão Nobre do Hospital de São José, também conhecido como Sala das Esferas, era a antiga aula magna do colégio jesuíta de Santo Antão-o-Novo. Esta sala mantém uma rica decoração, incluindo oito painéis de azulejos representando cenas alegóricas das disciplinas ensinadas no Colégio de Santo Antão. Entre as disciplinas representadas destacam-se:
Óptica
Geografia
Geometria
Balística
Astronomia
Mecânica
Navegação
Cartografia
A Aula de Esfera foi um pilar fundamental da ciência náutica e matemática em Portugal, contribuindo para o prestígio dos navegadores portugueses e para o avanço do conhecimento geográfico e astronómico durante a Época dos Descobrimentos.
Colégio de Santo Antão-o-Velho (Coleginho), Mouraria, LisboaColégio de Santo Antão-o-Novo em 1836, em desenho de Luís Gonzaga Pereira
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VEIGA, Francisca Branco, Sala «das esferas» do Colégio de Santo Antão-o-Novo (atual Hospital de S. José) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [17 de Fevereiro de 2025].
No dia 7 de março de 1830 aconteceu o primeiro sermão dos novos missionários realizado na igreja do Loreto com a presença do rei D. Miguel e das suas irmãs, do Patriarca de Lisboa e do Arcebispo de Petra, com grande assistência. Este momento foi reproduzido na Gazeta de Lisboa do dia seguinte:
“…Igreja de Nossa Senhora do Loureto desta Corte, ouvir o Sermão de Missão, que pela primeira vez alli pregou hum dos Padres Jesuítas, que se achão nesta Capital, (e cuja Missão continuão estes Padres na mesma Igreja). […] e pouco depois começou o Míssionario o seu discurso expressando-se já em Portuguez claro, e com unção e energia próprias do Apostólico zelo, que anima estes venerandos Padres, por espaço de huma hora, em hum púlpito maior que os usuaes para esse fim alli disposto”[1].
@franciscabrancoveiga Entre as personagens célebres que estiveram nesta Igreja contam-se o Padre António Vieira (1676); o Rei D. João VI, a Rainha e sua corte; o seu filho, D. Miguel e as suas irmãs; ou o Núncio Apostólico Alexandre Justiniani.
O apoio dado pelos Duques de Lafões e Cadaval e pelo Núncio apostólico a esta missão foi um passo muito importante para que a empresa, levada a cabo pela missão jesuíta, se confirmasse aos olhos de todos. No dia 25 de março o P. Delvaux escrevia ao P. Druilhet, que se encontrava no Collége du Passage (no norte de Espanha), descrevendo todos os momentos inerentes a este momento, os apoios, os medos, a força e receios dos amigos.
@franciscabrancoveiga O fresco do teto é do pintor Pedro Alexandrino (nasceu em 1729, em Lisboa, e faleceu em 1810, na mesma cidade)[A].
Conta o P. Delvaux: “Les deux familles qui nous sont le plus cordialement attachées sont celles de Lafoens et de Cadaval; c’ est de là surtout que nous venaient les avis pleins dû plus tendre intérêt”[2].
Foi o próprio duque de Cadaval que avisou o P. Barrelle para que no seu discurso, na Igreja do Loreto, agradecesse ao rei o restabelecimento da Companhia de Jesus, tornando, deste modo, o assunto como um ato consumado e aprovado pelo próprio monarca.
@franciscabrancoveiga No altar-mor encontra-se a imagem da padroeira Nossa Senhora do Loreto. A estátua tricentenária, é esculpida em madeira escura de cedro do Líbano, e é uma cópia da estátua de Nossa Senhora do Loreto que se venerava na Santa Casa do Loreto, em Itália.
A presença da família real (D. Miguel, a rainha-mãe D. Carlota Joaquina e as suas filhas) nesta igreja, e no dia do primeiro sermão dos missionários jesuítas, tornou claro o apoio dado pelo rei ao restabelecimento da Companhia de Jesus em Portugal.
[1]Gazeta de Lisboa, nº 58, de 9 de março de 1830.
[A] Conhecido como pintor dos frades, pelas suas obras de índole religiosa. Da sua vasta obra, destacam-se os quadros S. Cristóvão e O Salvador do Mundo, patentes na Sé Catedral de Lisboa e os notáveis trabalhos das pinturas dos tetos, em “trompe l’oeil”, da capela do Palácio da Bemposta. Em 1785, Pina Manique nomeou-o um dos diretores da Academia do Nu
[2] Carta do Padre Delvaux ao Padre Druilhet, em Collège du Passage. Lisboa, 25 de março de 1830. In CARAYON, Auguste – Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus, vol. XIX, pp. 220-233.
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VEIGA, Francisca Branco, Igreja do Loreto: primeiro sermão dos Jesuítas em Portugal (7 de março de 1830) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [20 de Janeiro de 2024].
In VEIGA, Francisca Branco, Companhia de Jesus. O breve regresso no reinado de D. Miguel. Ed. Autor, 2023.
As perseguições políticas promovidas pelos absolutistas em Portugal, no início do século XIX, marcaram um período de intensa repressão e instabilidade. Nesse contexto, verificou-se uma onda de emigração, envolvendo intelectuais e burgueses liberais. Estes, profundamente influenciados pelos ideais do Iluminismo europeu, que teve como figuras de destaque intelectuais como Montesquieu, Voltaire, Diderot, D’Alembert, Rousseau, Adam Smith ou John Locke, considerados promotores da revolução de 1820, viam a liberdade de imprensa como um elemento fundamental da liberdade e um meio essencial para proteger o sistema constitucional contra abusos e injustiças governamentais.
Entre os exilados, destacavam-se figuras notáveis como José Ferreira Borges (1786-1838) ou José da Silva Carvalho (1782-1856), que, já em posições de relevo nas suas carreiras, foram obrigadas a abandonar o país devido à perseguição política. Muitos destes indivíduos transformaram-se, a partir do estrangeiro, em verdadeiras sentinelas do liberalismo, utilizando a imprensa como uma arma política poderosa contra os inimigos desse ideário.
Dão-se alguns exemplos de uma imprensa combativa que se tornou uma ferramenta fundamental para dar voz à causa liberal:
O Pelourinho, publicado entre 1831 e 1832 a cargo de José Pinto Rebelo Carvalho de forma semiclandestina, e considerado o jornal mais violento da fação liberal (Vargues e Torgal, 1993-94, p. 83).
O Precursor, que contou com a publicação de apenas três números entre setembro e outubro de 1831, em Londres, e de caráter mais conciliatório e moderado, da responsabilidade de Almeida Garrett, e outras publicações dirigidas por exilados notáveis, que foram instrumentos de mobilização e propaganda política, visando desestabilizar o absolutismo e reforçar os valores liberais.
A Aurora, surgia em Londres entre 1831-1832 e que contou com 45 números impressos pelas mãos de Rodrigo da Fonseca Magalhães e Marcos Pinto Soares Vaz Preto, na qualidade de redatores principais, e de Cândido José Xavier, D. Luís do Rego Barreto e barão de Rendufe. Teve como objetivo principal a difusão das ideias liberais no território português.
Londres tornou-se, a partir de 1828, o principal centro de difusão da propaganda política liberal portuguesa. Sob a liderança de figuras como Palmela, Garret e Ferreira Borges, foram organizados esforços para enviar artigos e publicações que criticavam a política miguelista, promoviam os ideais liberais em Portugal e procuravam atrair o apoio dos principais governos europeus à causa de D. Pedro e de sua filha, D. Maria II. Estas iniciativas tinham objetivos claros: inspirar a resistência contra o absolutismo, divulgar os valores liberais e demonstrar a viabilidade de um triunfo liberal no país.
Em suma, a luta pela liberdade e pela restauração do sistema constitucional português foi intensamente marcada pela força e influência dos exilados liberais. Através da imprensa e da propaganda, conseguiram não apenas resistir à repressão, mas também manter viva a esperança de um futuro político mais justo e igualitário, contribuindo significativamente para as transformações que marcaram a história de Portugal no século XIX.
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Os pensadores iluministas destacaram-se pelas suas contribuições em diversas áreas do conhecimento e da política, promovendo ideias que influenciaram profundamente o mundo moderno. Entre os principais pensadores, encontram-se:
Voltaire, um dos maiores críticos da tirania, do fanatismo e do ateísmo. Defendia a liberdade e a razão, acreditando que a razão era o caminho para o progresso. Além disso, era um defensor da monarquia esclarecida, um modelo de governo onde o monarca aplicava os ideais iluministas em benefício do povo.
Montesquieu teve um impacto significativo no sistema de governo contemporâneo, sendo um defensor da divisão de poderes em legislativo, executivo e judicial. Foi crítico do autoritarismo político e da escravatura e destacou-se pela sua defesa das leis como garantes da liberdade política e de outros direitos individuais.
Adam Smith, conhecido como o “pai da economia moderna”, opunha-se ao monopólio e ao mercantilismo. Defendia que a riqueza das nações resultava do trabalho e era a favor de uma economia onde o Estado não interferisse. Além disso, defendia a propriedade privada e a liberdade económica como pilares fundamentais de uma sociedade próspera.
Jean-Jacques Rousseau foi um crítico dos contratualistas e via o estado de natureza como um estado amoral. Para ele, o homem era naturalmente bom, mas a sociedade, ao introduzir a propriedade privada, corrompia-o, originando desigualdades sociais e exploração. Propunha um novo contrato social baseado na vontade geral, defendendo o conceito de povo soberano como a base da autoridade legítima.
Denis Diderot destacou-se como enciclopedista do Iluminismo. Criticava o absolutismo e defendia a igualdade, a racionalidade e o acesso universal à educação. Era também um defensor do pensamento científico, sustentando que a matéria era a origem dos fenómenos existentes. Para além disso, promovia um pensamento ético que reconhecia a influência da materialidade na vida prática e fazia um elogio ao ceticismo como uma abordagem essencial para o conhecimento.
John Locke é reconhecido como o “pai do liberalismo”. Defendia o empirismo, acreditando que as ideias resultavam da experiência sensorial e da reflexão. Para Locke, o homem no estado de natureza era livre, igual e possuidor de direitos naturais como a liberdade, a vida e a propriedade. Propunha que a sociedade fosse organizada para proteger esses direitos e defendia a divisão de poderes em legislativo, executivo e federativo.
Estes pensadores foram fundamentais para lançar as bases de profundas transformações políticas, sociais e económicas, promovendo valores e ideias que continuam a influenciar as sociedades modernas e a sua organização.
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VEIGA, Francisca Branco, O jornalismo liberal na emigração como instrumento de luta política 1828-1832 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [10 de Janeiro de 2024].
In VEIGA, Francisca Branco, Companhia de Jesus. O breve regresso no reinado de D. Miguel. Ed. Autor, 2023, pp. 277-282.
Planta do Forte de São Julião da Barra Século XVI (A.)
O Forte de São Julião da Barra, localizado em Oeiras, é uma das mais emblemáticas fortificações costeiras de Portugal, com uma rica história que atravessa séculos e reflete momentos cruciais da política, religião e defesa do país. Inicialmente construído para proteger a entrada do rio Tejo e salvaguardar a cidade de Lisboa de ameaças marítimas, o forte tornou-se, ao longo do tempo, muito mais do que um bastião militar. Palco de episódios marcantes, como a prisão de jesuítas durante as reformas do Marquês de Pombal e a execução do general Gomes Freire de Andrade em 1817, a fortaleza também foi cenário de tensão e transformação política, testemunhando mudanças ideológicas e sociais que moldaram o destino da nação.
Além do seu papel estratégico, o Forte de São Julião da Barra está repleto de curiosidades e detalhes históricos, como a sua relação simbólica com a Torre do Bugio e os relatos de antigos prisioneiros que vivenciaram o isolamento nas suas muralhas. Cada elemento do forte, desde as suas imponentes torres até os subterrâneos que outrora serviram de cárcere, carrega histórias que ilustram a importância deste monumento como um verdadeiro guardião da memória coletiva portuguesa.
Em setembro de 1758, todas as casas da Companhia em Lisboa foram cercadas pela tropa. Eram sete: a casa professa de S. Roque, fundada durante o governo de S. Francisco de Borja, 3.° Geral da Companhia; o colégio de Santo Antão; o colégio de S. Francisco Xavier; a casa do Noviciado da Cotovia, assim chamada devido ao nome da colina em que se encontrava situada, que foi depois colégio dos Nobres; o seminário irlandês de S. Patrício; a residência de S. Francisco de Borja, Procuradoria das províncias ultramarinas; e o noviciado de vocações para as missões de Goa, Japão e China, vulgarmente chamado de Arroios.
A 3 de Setembro de 1759 foi promulgada a “Lei dada para a proscrição, desnaturalização e expulsão dos regulares da Companhia de Jesus, nestes reinos e seus domínios”. Simbolicamente decretada um ano após a tentativa de regicídio, a expulsão oficial dos jesuítas de Portugal culminou no embarque de cerca de 1100 membros da Companhia de Jesus na zona de Belém. Dali, partiram em direção aos Estados Pontifícios, encerrando um capítulo marcante de perseguição religiosa e política no país.
Alegoria à expulsão dos jesuítas Autor Desconhecido; c. 1759; Museu da Cidade A interpretação alegórica desta aguarela é evidenciada pelos elementos iconográficos que acompanham a figura central do padre jesuíta. A tocha acesa que inflama o globo terrestre, junto à mitra papal e à coroa real, simboliza a suposta afronta da Companhia de Jesus ao poder eclesiástico e ao poder monárquico. O livro fechado aos seus pés representa a interdição das atividades educativas da Ordem em Portugal, enquanto o saco de moedas de ouro alude aos bens da Companhia que foram confiscados pelo Estado. No fundo da composição, uma nau afastando-se ao largo simboliza a lei de 3 de setembro de 1759, que decretou a expulsão dos jesuítas do reino. Sobre a cena, um céu tormentoso lança um raio que atinge o rosto do clérigo, sublinhando a punição divina ou política atribuída à sua figura.
Em janeiro deu-se a prisão de dez dos principais membros da Companhia de Jesus. Entre eles estavam o Padre João Henriques, Provincial da Companhia de Jesus em Portugal; o Padre Gabriel Malagrida, missionário apostólico; o Padre José Moreira, confessor do Rei e da Rainha; o Padre Timóteo de Oliveira, confessor do Príncipe do Brasil e da Duquesa de Bragança; o Padre Jacinto da Costa, diretor espiritual do príncipe D. Pedro; o Padre Francisco Duarte, historiador da Província Portuguesa; o Padre Inácio Soares, professor de teologia no Colégio das Artes de Coimbra; o Padre João Alexandre, Procurador Geral da Província do Malabar; o Padre João de Matos, Procurador da Casa Professa; e o Padre José Perdigão, Procurador da Província Portuguesa. Estas prisões, feitas sob a acusação de graves crimes, perpetuaram-se na história como um dos momentos mais sombrios para a Companhia de Jesus em Portugal.
FORTE DE SÃO JULIÃO DA BARRA 1759
O nome do Forte de São Julião da Barra é frequentemente abreviado pelo povo para “São Gião”, uma forma mais popular e informal. A festividade em honra deste santo, que foi martirizado em Antioquia sob os imperadores Diocleciano e Maximiano, ocorre a 9 de janeiro. Nas correspondências dirigidas a esta fortaleza, é comum utilizar as designações “Torre” ou “Barra de São Gião”. A origem do nome remonta à imponente torre que integra o forte, onde, todas as noites, se acende um farol equipado com 25 luzes, servindo como guia para as naus que se aproximam da entrada do Tejo.
Planta dos cárceres de S. Julião da Barra, desenhada pelo P. Lourenço Kaulen. Aqui chegou o P. Eckart em 1762 e ficou até março de l777. Anselmo Eckart, Memórias de um Jesuíta Prisioneiro de Pombal. Braga: Livraria A. I., 1987, p. 176ª; Do original autografo do P. Kaulen Relação de algumas cousas que succederão aos religiosos da Companhia de Jesus…, p. 15 B.
O período de detenção do padre jesuíta Anselmo Eckart na Torre de São Julião da Barra, entre 1762 e março de 1777, fornece um valioso testemunho sobre a vida e as características das fortalezas que protegiam a entrada do Tejo no século XVIII. As suas Memórias de um Jesuíta Prisioneiro de Pombal não só relatam a experiência pessoal de um religioso em tempos de perseguição, mas também oferecem um olhar detalhado sobre a organização militar e simbólica destas estruturas, como a Torre de São Lourenço, mais conhecida como Torre do Bugio.
O padre jesuíta Anselmo Eckart chegou à Torre de S. Julião em 1762 e ficou até Março de l777. Refere este em Memórias de um Jesuíta Prisioneiro de Pombal:
«Esta torre enfrenta uma outra que sobressai no meio do mar, chamada vulgarmente Torre do Bugio, ou do macaco por ser uma imitação da fortaleza de S. Julião. Macaco de imitação também, porque quando o forte de S. Julião dispara uma peça de artilharia logo a Torre do Bugio responde com outro tiro. É esta Torre dedicada a S. Lourenço, e celebra-lhe o dia da comemoração como sua festa principal. Está munida de doze grandes canhões a que vulgarmente chamam os doze Apóstolos. A guarnição é feita por soldados de S. Julião, que se rendem todos os meses»[1] .
Forte de São Lourenço do Bugio, também conhecido como Forte de São Lourenço da Cabeça Seca ou simplesmente Torre do Bugio. Bugio visto do Forte de São Julião da Barra.
O relato de Eckart destaca a relação simbólica e operacional entre o Forte de São Julião e a Torre do Bugio, refletindo o rigor defensivo e o valor estratégico destas edificações. A descrição minuciosa das tradições associadas às fortalezas, como a celebração do dia de São Lourenço e o uso dos “Doze Apóstolos”, revela não apenas a dimensão militar, mas também a interseção entre devoção religiosa e vida quotidiana na guarnição. Este testemunho constitui uma fonte histórica rica, ilustrando a realidade das fortificações costeiras portuguesas numa época de desafios internos e externos.
Segundo Eckart os jesuítas «foram conduzidos para a Torre de S. Julião, onde os sepultaramvivos nos subterrâneos que Pombal mandara cavar»[1].
FORTE DE SÃO JULIÃO DA BARRA1817
Em maio de 1817, implicado e acusado de liderar uma conspiração, Gomes Freire de Andrade (Viena, 27 de janeiro de 1757 – Oeiras, Oeiras e São Julião da Barra, Forte de São Julião da Barra, 18 de outubro de 1817) foi detido, preso, tratado como um criminoso, condenado à morte e enforcado (embora tenha pedido para ser fuzilado), na manhã de 18 de outubro, no Forte de São Julião da Barra, em Oeiras, por crime de traição à Pátria. As suas cinzas foram lançadas ao mar.
Execução de Gomes Freire de Andrade
Com a expulsão dos franceses e a queda de Napoleão, a família real portuguesa permanecia no Brasil, enquanto os ingleses continuavam a exercer um domínio quase colonial sobre Portugal. Este controle humilhava os verdadeiros patriotas, que viam o país subordinado aos interesses britânicos. O descontentamento era generalizado: o povo revoltava-se porque grande parte dos rendimentos nacionais era enviada para o Rio de Janeiro, enquanto as classes mais instruídas ansiavam por mudanças, inspiradas pelas ideias liberais que já se espalhavam pela Europa. Um clima de impaciência e fervor revolucionário tomava conta dos corações patrióticos.
Neste cenário, Gomes Freire de Andrade, suspeito de conspirar contra o domínio britânico e o absolutismo monárquico, foi preso, junto a outros companheiros, em 25 de maio de 1817. Após um julgamento marcado por graves irregularidades e injustiças, o corajoso general foi condenado à morte. A sentença foi divulgada apenas dois dias após a sua execução, evidenciando o ódio de Beresford, que, numa última humilhação, negou a Gomes Freire um fuzilamento honrado, digno de um soldado, e ordenou que ele fosse enforcado, como se fosse um criminoso vulgar.
A execução ocorreu às 9 horas da manhã de 18 de outubro de 1817. O cenário era tanto trágico quanto emblemático: Gomes Freire, sereno e altivo, vestia uma alva, mantendo a compostura apesar do frio e das pedras que feriam os seus pés. A expressão cruel do carrasco contrastava com a dignidade do general. Após o enforcamento, o corpo de Gomes Freire foi incinerado numa pira de lenha, e os seus restos mortais, em um ato de desrespeito final, foram lançados ao mar. Este episódio ficou gravado na história como um dos mais sombrios atos de repressão contra os ideais de liberdade e justiça em Portugal.
Roque Gameiro, de parceria com Alberto de Sousa, participou na ilustração dos Quadros da História de Portugal, editada em 1917.
Em memória de Gomes Freire de Andrade, executado em 1817, uma lápide e um silhar de azulejos com a sua efígie foram colocados sobre a porta da torre do Forte de S. Julião.
Pela Portaria de 24 de maio de 1834, dirigida ao Corregedor de Coimbra, quatro dias antes da publicação do Decreto da extinção das Ordens religiosas, determinava Joaquim António de Aguiar que «d’ella saiam [os Jesuítas] immediatamente, dando-lhes itinerário», e no prazo mais curto possível se apresentassem na secretaria de estado, onde se providenciaria os meios para o seu embarque com destino ao exílio[2]. Tinha a Companhia de Jesus honras de perseguição em decreto especial.
Os Padres Jesuítas, que se encontravam em Coimbra e seguiam em direção a Lisboa, foram encaminhados para a Torre de São Julião da Barra, onde chegaram no dia 6 de junho do ano corrente. A decisão visava mantê-los sob custódia, protegendo-os de possíveis ataques populares, já que o clima ainda era tenso devido às recentes vitórias obtidas contra o Exército Miguelista.
Carta em Francês, que a bordo do navio e no dia da partida (7 de julho de 1834) dirigiu por despedida ao governador do Foret de S. Julião da Barra o P. Mallet, Superior da Missão portuguesa da Companhia de Jesus.
«A bordo em 7 de julho de 1834
Senhor Governador Chegou o dia em que devemos deixar este país agradável, onde não existem nem as prisões que não tenham os seus atrativos! Dentro de algumas horas voltaremos a ver, provavelmente nunca mais as veremos, as muralhas do Forte de S. Julião, […] Em nome de todos os meus colegas tenho a honra de estar, com a maior estima e eterna gratidão»[3].
In summa, o Forte de São Julião da Barra simboliza um espaço de grande significado histórico e político, servindo como palco de eventos marcantes que refletem as tensões e transformações de Portugal ao longo dos séculos. Desde a expulsão dos Jesuítas em 1759, uma medida que consolidou a autoridade do Marquês de Pombal e reafirmou o poder do Estado sobre a Igreja, até a execução de Gomes Freire de Andrade em 1817, um marco trágico da luta entre absolutismo e liberalismo, este forte tem sido testemunha silenciosa de perseguições e mudanças ideológicas.
A sua função como prisão e fortaleza militar, associada ao controle e à repressão, também se entrelaça com um simbolismo de resistência e memória, perpetuado por documentos, relatos e até homenagens póstumas, como a lápide dedicada a Gomes Freire.
Assim, o Forte de São Julião da Barra permanece não apenas como uma estrutura defensiva à entrada do Tejo, mas como um marco da história portuguesa, carregando em suas paredes os ecos das disputas políticas, das perseguições religiosas e dos anseios por liberdade e justiça.
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(A.) – CARITA, Rui; Cardoso, António Homem, O Escudo do Reino: A Fortaleza de S. Julião da Barra, Ministério da Defesa Nacional, 2007.
[1] In Anselmo Eckart, Memórias de um Jesuíta Prisioneiro de Pombal. Braga: Livraria A. I., 1987, pp. 183; 104.
[2] Portaria de 24 de maio de 1834, dirigida ao Corregedor de Coimbra, para proceder à imediata expulsão dos Jesuítas. ARQUIVO UNIVERSIDADE DE COIMBRA (AUC), Colégio das Artes, Relações de Livros existentes em antigo Cartório – tombos de bens, privilégios e doações do Património antigo e novo (dos extintos colégios da Companhia de Jesus). Inventário de Bulas, Alvarás, sentenças e outros títulos com remissão para as gavetas do Cartório, [Manuscrito].V. cx.; SILVA, Antonio Delgado da – Collecção da legislação Portugueza desde a ultima compilação das ordenações: Legislação de 1833 a 1834, vol. VIII, anno de 1834. Lisboa: Typ. Maigrense, 1835, p. 438; Chronica Constitucional de Lisboa, nº 124, de 27 de maio de 1834.
[3]Produções dos Padres Jesuitas durante o tempo q estivérao na Torre de Saõ Julião da Barra, anno 1834.
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VEIGA, Francisca Branco, Marcos e Curiosidades do Forte de São Julião da Barra, em Oeiras (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [02 de Dezembro de 2024].
(Comemoração dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões)
Camões lendo os Lusíadas ao rei D. Sebastião na Penha Verde, em Sintra. Desenho de Manuel Macedo, executado por ocasião do III Centenário da morte de Luís de Camões (excerto). In Camões lendo os “Lusiadas” a D. Sebastião na Penha Verde, em Cintra [Material gráfico] / Manuel Macedo Pereira Coutinho. – Lisboa : Bertrand, Ldª, 1934. – 1 litogravura : papel, p & b ; 20 x 30 cm.
Um dos principais autores desta história foi Almeida Garrett, alguém com uma grande influência em Portugal. No seu poema Camões (1825), no canto VII, Garrett conta como Camões narrou ‘Os Lusíadas’ a D. Sebastião.
Aqui ficam os versos:
VII (IX)
“E el‑rei, como inquieto, ao aio antigo:
— «Dom Aleixo, entre tantos pretendentes
O vosso protegido não no vejo.»
— «Ei‑lo, senhor, o nobre cavaleiro
Que desejais ouvir.»
— «Sim, quero ouvi‑lo,
Quero e desejo: não ignoro o preço
Das boas letras, nem dum raro engenho
A estima desvalio: em prol da pátria
Uns obramos coa espada; cumpre a outros
Coa pena honrá‑la.»”
Almeida Garrett situou o momento da leitura na Penha Verde (hoje corresponde a uma propriedade privada):
Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões, obra publicada em Lisboa em 12 de março de 1572, no período literário do Classicismo, ou Renascimento tardio, três anos após o regresso do autor do Oriente.
Os Lusíadas na edição monumental da obra editada por D. José Maria de Sousa Botelho Mourão, Morgado de Mateus.
Os Lusíadas: Poema épico / de Luís de Camões Nova ed. correcta, e dada à luz / por Dom Joze Maria de Souza-Botelho, Morgado de Mateus, sócio da Academia Real das Sciencias de Lisboa. – Paris: Officina Typographica de Firmin Didot, 1817.- [8], CXXX, [2], 413p.;37cm.- Contém anotações ms. de José Maria de Souza-Botelho.-Lombada em pele. Literatura portuguesa-poesia épica.
O Morgado de Mateus confiou a François Gérard, pintor de Luís XVIII, a escolha e a direção dos desenhadores e dos abridores das 12 gravuras (Évariste Fragonard, Alexandre Desenne, Raphael-Urbain Massard, …).
A mais antiga edição de Os Lusíadas existente na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra. Edição em castelhano, de 1591.
XXXXXX
LUSÍADAS
(Canto X, estrofes 154–156)
Considerações finais do poeta
Camões apresenta-se a D. Sebastião como um poeta cujo patriotismo o motiva a servir o país através das armas e da escrita.
154
Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
De vós não conhecido nem sonhado?
Da boca dos pequenos sei, contudo,
Que o louvor sai às vezes acabado.
Nem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.
155
Pera servir-vos, braço às armas feito,
Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
Só me falece ser a vós aceito,
De quem virtude deve ser prezada.
Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
Dina empresa tomar de ser cantada,
Como a pres[s]aga mente vaticina
Olhando a vossa inclinação divina,
156
Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
A vista vossa tema o monte Atlante,
Ou rompendo nos campos de Ampelusa
Os muros de Marrocos e Trudante,
A minha já estimada e leda Musa
Fico que em todo o mundo de vós cante,
De sorte que Alexandro em vós se veja,
Sem à dita de Aquiles ter enveja.
As estrofes finais de Os Lusíadas retomam a Dedicatória do Canto I, estabelecendo um vínculo entre o início e o desfecho da epopeia, ao dirigir-se uma vez mais a D. Sebastião. Contudo, enquanto na abertura o propósito era oferecer-lhe a obra como expressão de lealdade e homenagem, neste momento final Camões relembra ao jovem monarca a responsabilidade que lhe cabe na condução do povo português e na regeneração moral e política do reino. Simultaneamente, exorta-o à realização de novos feitos heróicos, dignos de serem perpetuados em verso, apelando a um compromisso firme com a grandeza da pátria.
Na sua invocação final, o poeta caracteriza-se de modo humilde, enfatizando a sua condição modesta e a falta de reconhecimento: «humilde, baixo e rudo, / De vós não conhecido nem sonhado». Apesar disso, afirma reunir qualidades excecionais — o estudo honesto, a experiência e o engenho — que, como refere, «juntas se acham raramente».
Camões denuncia ainda a vileza da sociedade em que está inserido, ciente de que não será valorizado pelos seus contemporâneos. Reforça, por isso, o apelo a D. Sebastião, instando-o a contemplar os feitos passados como inspiração para restaurar a glória nacional. Neste contexto, coloca-se inteiramente ao serviço do rei, quer pelas armas — disposto a combater, se necessário — quer pelas letras, pronto a exaltar os futuros feitos de Portugal em nova e renovada epopeia.
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VEIGA, Francisca Branco, Luís Vaz de Camões, retalhos(blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [02 de Novembro de 2024].
Isabel de Aragão ( 4 de janeiro de 1271– Estremoz, 4 de julho de 1336)
DESCRIÇÃO ARTÍSTICA
O acesso a esta capela barroca faz-se por um portão em ferro e de seguida por uma porta em mármore da região, onde se destaca o brasão real. A escadaria em mármore, é decorada com azulejos seiscentistas. À entrada, duas pias em brecha da Arrábida. A capela é de nave única, com planta retangular e abóbada de berço.
Por cima da porta, um coro em mármore branco de Estremoz, no qual se lê um agradecimento à Rainha Santa Isabel pela intervenção divina que em 1808 protegeu Estremoz das pilhagens e massacres das tropas francesas. A rematar, as armas reais das Casas de Portugal e de Aragão. Lateralmente, azulejos setecentistas representando dois anjos custódios.
No altar-mor, três imagens do século XX: ao centro a Rainha Santa, à direita São Filipe Néri e à esquerda São Lázaro.
Nas paredes, pinturas atribuídas a André Gonçalves (Lisboa, 1685 – Lisboa, 1762) e painéis de azulejo da oficina de Teotónio dos Santos (batizado em 24 de fe-vereiro de 1688, na Igreja de S. João de Santa Cruz da cidade de Coimbra – morreu em 10 de outubro de 1762, em Lisboa).
AZULEJOS
O Milagre da criança salva pela Rainha de morrer afogada no rio Tejo;
O Milagre das águas do Tejo que se apartam, recorda a lenda de Santa Iria cujo o túmulo foi encontrado no fundo do rio.
D. Isabel avança pelo rio para prestar homenagem à Santa quando por milagre as águas se apartam.
A Lenda da mulinha ou a Paz de Alvalade, relata o episódio histórico da batalha de Alvalade que opôs D. Dinis ao filho o Infante D. Afonso. Estando os exércitos a postos, a rainha surge montada na sua mula apelando à paz.
PINTURAS
O Milagre das Rosas testemunha a sua bondade para com os pobres a quem às escondidas do rei ia levar pão e dinhei-ro. Um dia, o esposo desconfiado pergunta-lhe o que leva no regaço. D. Isabel abrindo o avental responde – “São Rosas, Senhor”. O pão havia-se transformado em rosas!
O Milagre da transformação do vinho em água relata um episódio da vida da Rainha quando esta adoece e o médico a aconselha a tomar um copo de vinho tinto. Por milagre, o vinho trazido dentro de uma pequena garrafa, transforma-se no copo, em água.
A Tomada de hábito da Rainha Santa Isabel.
O Milagre de Arrifana. Em 1325, indo D. Isabel a caminho de Santiago de Compostela, cura uma criança cega, na vila de Arrifana, Santa Maria da Feira.
As Rainhas servem as freiras no Convento de Santa Clara-a -Velha, ao centro a sua nora, a Rainha D. Beatriz e à esquerda, Santa Isabel envergando o hábito de Clarissa mas com a coroa real.
O Milagre da Aparição da Virgem a Santa Isabel. No leito da morte tem uma visão da Virgem Maria. D. Isabel pede à nora que se afaste para dar lugar à “Senhora de vestes bran-cas” que ninguém, senão ela, viu.
No teto, pintura do final do século XVIII com a subida de Santa Isabel ao céu.
O púlpito é da segunda metade do século XIX, ao qual outrora se acedia por uma escada em madeira.
À direita do altar-mor, uma estreita porta dá acesso a um pequeno compartimento que diz a tradição ter feito parte dos aposentos da rainha Santa Isabel e local onde morreu.
A 11 de fevereiro de 1282, com aproximadamente 11 anos, Isabel de Aragão casou-se então por procuração com o soberano português D. Dinis na capela de Santa Ágata no Palácio real de Barcelona. Do seu casamento com o rei D. Dinis teve dois filhos: D. Afonso IV (8 de fevereiro de 1291 – 28 de maio de 1357), sucessor do pai no trono de Portugal; Constança (3 de janeiro de 1290 – 18 de novembro de 1313), que casou em 1302 com o rei Fernando IV de Castela.
Isabel faleceu, tocada pela peste, em Estremoz, a 4 de julho de 1336, com 65 anos, tendo deixado expresso em seu testamento o desejo de ser sepultada no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha.
No século XVII, a rainha D. Luísa de Gusmão, regente em nome de seu filho D. Afonso VI, transformou em capela o quarto em que a Rainha Santa Isabel havia falecido.
Atribuições
Representada como rainha de Portugal, com rosas no regaço do vestido ou vestida com o hábito da Ordem Terceira de São Francisco, com o bordão de peregrina a Santiago de Compostela.
O acesso a esta capela barroca faz-se por um portão em ferro e de seguida por uma porta em mármore da região, onde se destaca o brasão real.
ESCADARIA QUE DÁ ACESSO À CAPELA.
Escadaria de quatro lances, em mármore, é decorada com azulejos seiscentistas.
CAPELA
A capela é de nave única, com planta retangular e abóbada de berço.
Por cima da porta, um coro em mármore branco de Estremoz, no qual se lê um agradecimento à Rainha Santa Isabel pela intervenção divina que em 1808 protegeu Estremoz das pilhagens e massacres das tropas francesas. A rematar, as armas reais das Casas de Portugal e de Aragão. Lateralmente, azulejos setecentistas representando dois anjos custódios.
TETO DA CAPELA
Nas paredes, pinturas atribuídas a André Gonçalves (Lisboa, 1685 – Lisboa, 1762) e painéis de azulejo da oficina de Teotónio dos Santos (batizado em 24 de fe-vereiro de 1688, na Igreja de S. João de Santa Cruz da cidade de Coimbra – morreu em 10 de outubro de 1762, em Lisboa).
ACESSO À SACRISTIA
À direita do altar-mor, uma estreita porta dá acesso a um pequeno compartimento que diz a tradição ter feito parte dos aposentos da rainha Santa Isabel e local onde morreu.
ACESSO AO QUARTO ONDE MORREU A RAINHA SANTA ISABEL.
À direita do altar-mor, uma estreita porta dá acesso a um pequeno compartimento que diz a tradição ter feito parte dos aposentos da rainha Santa Isabel e local onde morreu.
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Como referir este texto:
Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!
VEIGA, Francisca Branco (2024), Capela da Rainha Santa Isabel, Castelo de Estremoz (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [28 de Setembro de 2024].
N. 1510, Vouzela (Viseu), Portugal; M. 15 julho 1579, Lisboa, Portugal.
Cofundador da Companhia de Jesus, estando ao lado de Inácio de Loyola na criação desta Ordem, fundada em Paris em 1534.
P. Simão Rodrigues SJInácio de Loyola e os primeiros companheiros
De família nobre, foi para a Universidade de Paris (1527) como bolseiro do rei D. João III. Em Paris ficou no colégio de Santa Bárbara, dirigida pelo português Diogo de Gouveia, o Velho. Estudou letras e entrou em 1532, no círculo de amigos de Inigo de Loyola, formando assim parte do núcleo inicial da Companhia de Jesus. Formado como Mestre em Artes (1536), e, em seguida, estudou Teologia.
Collège Sainte-Barbe, 4 rue Valette, Paris
Foi ordenado sacerdote em 24 de Junho de 1537, em Veneza.
Diogo de Gouveia, ciente dos projetos e frutos apostólicos de Inácio e dos seus companheiros, propôs (1538) a D. João III de Portugal que os convidasse para irem à Índia.
Diogo de Gouveia (c. 1471, Beja – 8 de dezembro de 1557, Lisboa), conhecido como Diogo de Gouveia, o Velho para o distinguir do seu sobrinho Diogo Gouveia, o moço, que foi embaixador de D. João III junto do Concílio de Trento.
D. João III confiou este assunto ao seu embaixador em Roma, D. Pedro de Mascarenhas, e Inácio de Loyola designou Francisco Javier e Simão Rodrigues para esta missão. Vendo os frutos que produziam em Lisboa, o Rei decidiu que Francisco de Javier seguiria para a Índia e que Simão Rodrigues ficaria em Portugal com a tarefa de recrutar missionários para irem para o exterior.
Em janeiro de 1542, o rei doou o mosteiro de Santo Antão-o-Velho (Mouraria, Lisboa), que foi a primeira casa que a Companhia de Jesus teve no mundo e também o seu primeiro colégio em Portugal.
Em julho de 1542, Simão Rodrigues fundou o Colégio de Jesus, em Coimbra (mais tarde daria origem ao imponente Real Colégio das Artes e Humanidades), e preparou a fundação do colégio do Espírito Santo, em Évora. Os três colégios já contavam com 240 a 250 jesuítas em 1551.
Primeira pedra do Colégio de Jesus (Coutinho, J.E.R. 2003. Sé Nova de Coimbra. Colégio das Onze Mil Virgens.Igreja de Jesuítas. Coimbra, Paróquia da Sé Nova, pg. 34)Complexo jesuítico: à esquerda o Colégio de Jesus, à direita o Colégio das Artes e, atrás deste, o refeitório com ligação direta aos dois colégios In Imago Collegii, in Societate Iesu omnium primi, á Ioanne III Lusitaniae Rege Conimbricae fundati / Carolus Grandi scul Romae 1732. Lisboa, Bibliioteca Nacional.
Simão Rodrigues promoveu uma expansão notável das missões no exterior.
A partir de 1545 enviou sucessivas expedições ao Oriente, com um total de 35 missionários. Juntamente com D. João III e Inácio de Loyola, participou nas primeiras negociações sobre a missão etíope; enviou quatro companheiros ao Congo para ali fundar a missão em 1547; três para Ceuta e Tetuão para serem dedicados aos cativos em 1548; Manuel da Nóbrega e cinco companheiros, para fundar a missão brasileira em 1549, e uma segunda expedição de quatro missionários em 1553. Promoveu também missões populares nas diferentes regiões de Portugal.
O Rei tinha tanta estima por Rodrigues que o nomeou preceptor do filho em 1545 (conseguiu afastar Damião de Góis da função de mestre de letras do mesmo príncipe). E em 25 de outubro de 1546, foi nomeado Provincial da Companhia de Jesus em Portugal.
Durante os doze anos do seu governo, a Companhia de Jesus cresceu muito rapidamente em Portugal.
Simão Rodrigues foi acusado de ser muito tendencioso no seu governo, sendo, entre outras acusações, acusado de falhas de obediência. Em 1552, foi deposto do cargo de Provincial, o que agravou ainda mais a situação.
Embora resistisse em partir para Espanha, como Provincial de Aragão, tendo o rei o advertido a obedecer. Visitou as casas de Saragoça, Barcelona, Valência e Gandía. Com o agravamento da sua saúde, regressou sem autorização a Portugal em 1553. Considerando a sua presença prejudicial, o Provincial Diego Mirón ordenou-lhe que abandonasse o reino e fosse para Roma. Pouco depois da sua chegada, Rodrigues começou a queixar-se de alguns jesuítas em Portugal, que lhe tinham feito acusações contra ele e ao seu governo.
Rodrigues propôs a Ignacio de Loyola que submetesse o seu caso a julgamento, pois em sua consciência se considerava inocente daquilo de que era acusado. O julgamento durou pouco mais de dois meses e a sentença foi pronunciada (7 de fevereiro de 1554).
Os juízes enumerando os seus erros, impuseram-lhe duras penas, que Rodrigues aceitou humildemente. Ignacio de Loyola retirou-lhe as penas e apenas permitiu que ele não voltasse a Portugal. No entanto, Rodrigues procurou mais tarde que o Papa, como Superior supremo da Companhia de Jesus, confiasse a sua causa ao cardeal protetor para regressar com honra a Portugal. Rodrigues passou durante algum tempo triste no norte da Itália, com a memória da sua reputação perdida.
O Geral Diego Laínez mostrou-se inclinado a satisfazer o desejo de Rodrigues de regressar a Portugal, para o qual escreveu (1564) aos Padres Portugueses solicitando a sua opinião, mas ainda não foi considerado adequado. Simão Rodrigues foi para a Espanha e fixou residência em Andaluzia a partir de 1564 e em Toledo a partir de 1570, já muito melhor espiritualmente.
Por sua vez, o Padre Geral Borja, como prova de confiança (1 de janeiro de 1572) tomou medidas para preparar o regresso de Rodrigues à sua terra natal, mas Borja morreu (3 de setembro , 1572) sem tê-lo concluído. O seu sucessor Everardo Mercúriano executou o projeto de Borja e permitiu-lhe (29 de julho de 1573) o seu regresso a Portugal. Após vinte anos de ausência, Rodrigues chegou ao Colégio de Coimbra, em 24 de setembro de 1573. Informou o Geral sobre a situação da Província e sugeriu os meios para resolver a crise. Rodrigues continuou interessado no bem da província. Apesar de ter recusado o cargo de Superior, continuou a contribuir com os seus conselhos para o bom andamento das comunidades.
Viveu os seus últimos anos na Casa Professa de São Roque, de Lisboa, onde morreu a 15 de junho de 1579, tendo ficado sepultado na igreja de S. Roque.
Uma inscrição junto à entrada da Sacristia da Igreja de S. Roque assinala, ainda hoje, o local onde repousam os seus restos mortais.
Sepultura do P. Simão Rodrigues, fundador da Companhia de Jesus em Portugal. Na parede do cruzeiro da Igreja de S. Roque de Lisboa, do lado do Evangelho e à esquerda da porta de comunicação com o corredor da Sacristia, está um painel cuja moldura é de mármore negro, a faixa de mármore amarelo e a tabela de mármore de Carrara. @franciscabrancoveiga
O epitáfio do padre Simão Rodrigues foi mandado gravar na tabela do painel, sendo as letras douradas e o seu teor o seguinte:
OSSA P. M. SIMONIS RODERICI PIAE RECORDA- TIONIS, QUI PROVINCI- AM HANC LUSITA- NAM FUNDAVIT, PRIMUS IN EA PROVINCIALIS, UNUS E NOVEM B. P. N. IGNATII SOCIIS. OBIIT IN HAC DOMO XV. JULII MDLXXIX
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VEIGA, Francisca Branco, SIMÃO RODRIGUES (primeiro Provincial da Companhia de Jesus em Portugal)(blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [15 de Setembro de 2024].
Pela primeira e única vez na história uma colónia passava a ser a sede de uma corte europeia – acontecimento que alguns historiadores denominaram de “inversão metropolitana”.
A família real embarca para o Brasil. (Aguarela de Alfredo Roque Gameiro (1864-1935). FRANCO, Chagas; SOARES, João – Quadros da História de Portugal. Lisboa: Pap. Guedes, 1917, 7º Ciclo – O tempo dos franceses até ao constitucionalismo – Ilustrações de Roque gameiro, Cap. 33 – A Primeira Invasão Francesa.
– – –
26º Rei de Portugal – D. Maria I – A Piedosa Filha de D. José I e de D. Mariana Vitória de Bourbon. Nasceu em Lisboa em 1734. Casou com o seu tio D. Pedro, que, por isso, tomou o título de D. Pedro III. Aclamada Rainha em 1777. Reinou 39 anos.
27º Rei de Portugal – D. João VI – O Clemente Filho de D. Maria I e de D. Pedro III. Nasceu em Lisboa 1767. Casou com D. Carlota Joaquina de Bourbon. Aclamado Rei em 1816. Reinou 10 anos.
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No início do século XIX, em Portugal, tal como em Espanha, vivia-se um período politicamente revoltoso. O reino português encontrava-se empobrecido e esgotado depois de se ter envolvido numa crise motivada, entre outras razões, pelo refúgio forçado da família real no Brasil (29 de novembro de 1807), pelo alcance destruidor das três invasões napoleónicas (1ª invasão – 1807-1808; 2ª invasão – 1809; 3ª invasão – 1810-1811) e pela abertura dos portos do Brasil ao comércio mundial (decreto de 28 de janeiro de 1808), provocando a ruína económica portuguesa e consequente domínio dos ingleses sobre Portugal até à Revolução de 1820.
Como refere José Miguel Sardica, “A partir do momento em que a Revolução Francesa assumiu, por razões geoestratégicas, políticas, económicas e até ideológicas, uma essencial dinâmica de confronto entre o continente e os mares, Portugal e Espanha foram aspirados para o centro do turbilhão europeu”[1].
Portugal, na defesa dos seus interesses na metrópole e nas colónias, vai valorizar a sua aliança tradicional com a Inglaterra motivando uma tomada de posição inflexível contra a França. Por sua vez, a Espanha aceita sem protestar o Bloqueio Continental do imperador Napoleão Bonaparte aos navios do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda e, não colocando objeções à França, deixa, em 1807, o exército francês abastecer-se e atravessar o seu território, em troca de uma parte de Portugal como referido no Tratado franco-espanhol de Fontainebleau, dando origem à primeira invasão francesa de Portugal e à retirada da Corte e da família real para o Brasil[2].
No dia 29 de novembro de 1807, o Príncipe Regente ordenou a partida para o Brasil. A esquadra portuguesa, que saiu do porto de Lisboa, ia comandada pelo vice-almirante Manuel da Cunha Souto Maior. Quatro naus da Marinha Real Britânica, sob o comando do capitão Graham Moore, reforçaram a esquadra portuguesa.
O general Andoche Junot entrou em Lisboa às 9 horas da manhã do dia 30 de novembro, à frente de um exército francês com cerca 26 mil homens.
No dia 30 de novembro de 1807, as tropas francesas comandadas pelo general Junot chegam a Lisboa.
Junot Protegendo a Cidade de Lisboa Domingos Sequeira, 1808
Pela ação destrutiva que tiveram as invasões napoleónicas e pela permanência da corte portuguesa no Brasil instalou-se em Portugal uma profunda crise política, económica e social. O mal-estar aumentava ainda mais devido à condição sui generis das forças britânicas em Portugal. Como refere Ana Cristina Araújo,
“Com o objectivo de manter «a melhor inteligência» com Sua Majestade Britânica, o príncipe D. João impõe, a 6 de Julho de 1809, a redução da Regência para três membros, concedendo a sir Arthur Wellesley, marechal-general do exército português, o direito de participar nas reuniões daquele órgão do Estado. Os ingleses continuaram por detrás da reforma do Governo, de Maio de 1810, que consagra, na esfera do executivo, o conde de Castro Marim, o conde de Redondo, o principal Sousa, o lente Ricardo Raimundo Nogueira e o então patriarca de Lisboa, para além do ministro plenipotenciário Charles Stuart, que pouco depois abdica do direito de voto sobre questões militares e financeiras em favor de Beresford, prerrogativa usada pelo comandante-chefe dos exércitos de forma progressivamente discricionária e despótica”[3]
Arrival of the Prince, the Royal Family and the Court at the Church of Our Lady of the Rosary for a mass held in honour of their safe arrival from Rio de Janeiro. Oil on canvas. Armando Martins Viana. 19th century. Museu da Cidade, Rio de Janeiro
Instalada a corte e todo o aparelho de Estado no Rio de Janeiro, esta torna-se “a nova capital” do Império e é daí que saí, em 1808, o Decreto de Abertura dos Portos «às Nações Amigas», perdendo o direito ao monopólio da exploração da colónia, que obrigava todos os produtos das colónias a passarem antes pelas alfândegas da metrópole. Este decreto favorecia os interesses da Inglaterra, sendo que alguns pontos desse decreto já constavam do Tratado de Westminster, de 1654, como as referentes à liberdade religiosa nos domínios portugueses (14º) e a concessão de direitos judiciais, fiscais e económicos para britânicos residentes no reino português (5º, 8, 9º e 13º);[4]. Em 1810, assina-se com este país os Tratados de Comércio e Navegação e o de Aliança e Amizade que permitiram a hegemonia britânica nas relações comerciais entre ambos os países, assegurando aos Britânicos o acesso preferencial dos seus produtos a todos os territórios portugueses, com a concessão de privilégios especiais, mesmo em relação aos produtos portugueses, abrindo as portas de um mercado em três continentes, com tarifas alfandegárias privilegiadas. O fim do pacto colonial e abertura do Brasil ao comércio mundial provocou, na opinião de Rui Carlos A. Lopes, uma quebra de 75% do comércio externo e a ruína de muitos comerciantes que até então beneficiavam do monopólio da navegação transatlântica[5]. Deve-se realçar que o monopólio e o exclusivo do comércio eram a principal razão de ser da condição colonial, orientada em proveito da metrópole, e ao mesmo tempo motivo de oposição por parte da colónia, pois era um handicap no seu desenvolvimento[6].
Chegada da frota portuguesa no Rio de Janeiro, com destaque a nau Príncipe Real ao centro, e o Pão de Açúcar ao lado direito. Ilustração de Geoff Hunt.
A partir de 1808 aumenta a situação de miséria económica em Portugal com fábricas em declínio e a agricultura abandonada. Desde 1809 que o comandante do exército português é o general Beresford, nomeado com plenos poderes, impunha medidas repressivas, não poupando os quadros superiores do exército nacional[7]. As relações entre exército, isto é, os elementos ingleses, e junta governativa tornam-se tensas e difíceis.
No dia 2 de janeiro de 1815 a Gazeta de Lisboa expressava o sentimento geral de satisfação que existia na Europa face à queda do império napoleónico e às expetativas que trazia o Congresso de Viena:
“Começa finalmente hum ano de paz, depois de tantas e sanguinozas guerras; respira a humanidade, tanto tempo opressa pela tyrannia; e se o anno passado há de ser eternamente memorável pelo estrondo das victorias que conquistarão a paz da Europa, desthronárão o Despota, e restituírão os thronos aos legítimos Soberanos, não o ficará sendo menos o presente pelo complemento que a esta grande obra hão de pôr os Monarcas por meio do Congresso de Vienna, cujas decisões acertadas esperamos satisfarão a toda a família Européa”[8].
No Congresso, os representantes portugueses promoveram a anulação do Tratado de comércio, o que tendo em consideração os interesses ingleses em jogo, foi prontamente recusado pelo Visconde de Castlereagh (1769-1822), representante britânico no Congresso[9].
Os representantes portugueses argumentaram que o tratado de comércio e de navegação de 1810 só tinha sido posto em vigor por Portugal e que a Inglaterra sempre evitara o seu cumprimento quando se tratava dos seus interesses. Também pretendiam a anulação das cláusulas de aliança e amizade, que impunham a Portugal a cedência ao governo britânico por cinquenta anos das colónias de Bissau e Cacheu, e restringiam o comércio de africanos às possessões portuguesas na costa de África (chamada pelos portugueses Costa da Mina), e nos territórios de Cabinda e Molembo (art. X).
Príncipe regente Dom João VI, Conde da Ponte – Arquivo Nacional do Brasil – Biblioteca Nacional do Brasil Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas.
A hegemonia marítima inglesa tentou impor-se no tráfico de escravos. As propostas de abolição da escravatura feitas pelos ingleses tinham um verdadeiro objetivo material, isto é, satisfazer as exigências postas pela sua crescente produção industrial. Nesse sentido, é assinado no dia 22 de janeiro de 1815 um tratado com a Inglaterra onde ficou decidido que ficava proibido traficar escravos (sem se abolir a escravatura) em qualquer parte da costa de África até ao norte do Equador.
Pretendiam os ingleses ficar com o direito de vigilância e consequente direito de visita dos navios em alto mar a fim de fiscalizar o cumprimento da proibição decretada. A Inglaterra aconselhava a abolição completa, o que para os portugueses iria prejudica muito a economia no Brasil, pois a mão-de-obra escrava era considerada muito necessária à economia brasileira. Em relação ao tratado de comércio e navegação, este vai ficar em vigor até 1835.
Segundo os princípios adotados pelo Congresso de Viena, a questão da Casa de Bragança não se encontrar na Europa teria de ser tratada. Assim, a solução proposta pelo representante francês no congresso, o príncipe Charles-Maurice de Talleyrand, que foi a que D. João VI acabou por adotar, foi a elevação da colónia brasileira à condição de Reino Unido, igualando o seu estatuto ao da metrópole (D. João passou a ostentar o título de Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, e mais tarde rei das três coroas unidas, entre as quais, aquela onde residia como Rei do Brasil).
O representante inglês também concordou com a ideia, que resultou na efetiva criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em 16 de dezembro de 1815, instituição jurídica rapidamente reconhecida pelas outras nações. Esta medida, além de defender a presença da Europa e da realeza na América, também agradou à colónia brasileira que se viu elevada a Reino do Brasil, ajudando, deste modo, a afastar a ideia da sua independência[10].
Com a Corte sediada no Brasil, o rei D. João VI criou a Real Biblioteca (hoje conhecida como Biblioteca Nacional) para abrigar os 60 mil livros levados de Portugal. Também foram construídos o Museu Real, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, a primeira escola de Medicina do Brasil, o Banco do Brasil e a Escola de Belas Artes, entre outros.
Em 1820, após a derrota de Napoleão, a transferência da Corte para o Brasil veio também a ter como consequência a Revolução de 1820. Portugal continental encontrava-se em situação de crise, decadência e ruína, e exigia-se o retorno da família real portuguesa e da Corte a Lisboa.
A família real fez a viagem de regresso a Lisboa entre 26 de abril e 3 de julho de 1821, depois de mais de 13 anos de ausência.
Constantino de Fontes. Desembarque d’el rei dom João acompanhado por uma deputação das Cortes: … em 4 de julho d’1821 regressando do Brazil. [S.l.: s.n., 18–?]. Gravura: buril e pontilhado.
[1] SARDICA, José Miguel – A Europa Napoleónica e Portugal. Lisboa: ed. Tribuna, 2011, p. 128.
[2] Sobre este assunto veja-se, VENTURA, António – A Guerra das Laranjas, 1801. In Academia Portuguesa de História, Guerras e Campanhas Militares. Lisboa, julho de 2008; Idem – “Portugal e a Espanha em Vésperas da Guerra das Laranjas. As Questões Militares”. Atas do XI Colóquio de História Militar, Comissão Portuguesa de História Militar. Palácio da Independência, Lisboa, 2001; ARAÚJO, Ana Cristina – “As invasões francesas e a afirmação das ideias liberais”. In MATTOSO, José (dir.) – História de Portugal, 5º vol.. Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, pp. 17-18; SARDICA, José Miguel – ibidem, p. 132; MACEDO, Jorge Borges de – História Diplomática Portuguesa. Constantes e Linhas de Força, 2ª ed.. Lisboa: Instituto da Defesa Nacional/Tribuna da História, 2006, p. 394.
[4] O comércio com o Brasil era especialmente realçado neste Tratado, tendo os mercadores britânicos livre participação no comércio no território brasileiro com a metrópole portuguesa, com exceção de cinco produtos (farinha, peixe, vinho, azeite e pau-brasil), permanecendo estes como exclusivo da Companhia do Brasil (art. 11º).
[5] LOPES, Rui Carlos Antunes Almeida – Un Bibliotecario ilustrado en el Ejército Portugués: el P. Ernesto Augusto Pereira de Sales, (1864-1946). Dissertação de Doutoramento apresentada à Universidad Complutense de Madrid, Facultad de Ciencias de la Información, 2015, p. 31.
[6] LUCAS, Maria Manuela – “Organização do Império”. In MATTOSO, José (dir.) – História de Portugal, 5º vol.. Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, pp. 285-287; PEREIRA, Miriam Halpern – Revolução, Finanças, Dependência Externa: (De 1820 à Convenção de Gramido). Lisboa: Sá da Costa Editora, 1979, pp. 36 – 37.
[7] A título de exemplo, a execução, em 1817 do general Gomes Freire de Andrade sob a acusação de franco-maçonaria e tentativa de conspiração liberal.
[8]Gazeta de Lisboa, 2 de janeiro de 1815, p. 5. Os artigos mais importantes para Portugal no ato final do Tratado saído do Congresso de Viena são os artigos 105, 106 e 107 que podem ser lidos em, SILVA, Luiz Augusto Rebelo da – Quadro Elementar Das Relações politicas e Diplomaticas de Portugal, Tomo XVIII. Lisboa: Typ. da Academia Real das Sciencias, 1860, pp. 501-502. Vide Anexo 2.
[9]Declaração de anulação do tratado de comércio de 1810 entre Portugal e Inglaterra com base nas declarações dos plenipotenciários ddos dois países durante o Congresso de Viena. [Consultado 18 nov. 2015]. Disponível na internet em: <https://bdlb.bn.gov.br/acervo/handle/123456789/274726>
[10] D. João, interessado na manutenção da soberania portuguesa do espaço colonial, ameaçado pela ascendência norte-americana e inglesa fez publicar em 16 de dezembro de 1815 a Carta de Lei onde afirmava: “Que os meus Reinos de Portugal, Algarves, e Brasil formem dora em diante um só e único Reino debaixo do título de REINO UNIDO DE PORTUGAL, E DO BRASIL, E ALGARVES”. Esta lei saudada no Rio, não foi tão bem-recebida em Portugal. A elevação a Reino Unido colocava o Brasil em condições de igualdade ou até em situação superior a Portugal, dado que a Corte permanecia no Rio de Janeiro. A notícia só é publicada em Lisboa em 1816, no nº 299 da Gazeta de Lisboa, 17 de dezembro de 1816, edição de 3ª feira.
Veja-se CIRCULARES DO MINISTÉRIO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS – 1815-1870, Circular de 23 de dezembro de 1815. Índice: “Participando a elevação do Estado do Brasil à dignidade de Reino, e unido aos de Portugal e dos Algarves, por Carta de Lei de 16 de Dezembro de 1815, da qual se incluíram alguns exemplares.”. In AHI 317/03/06 (Arquivo Histórico do Itamaraty, Rio de Janeiro). Vide Anexo 3; BONAVIDES, Paulo; AMARAL, Roberto – Textos Políticos da História do Brasil, 3ª ed., vol.I. Brasília: Conselho Editorial do Senado Federal, 2002, nº 41 (Elevação do Brasil à categoria de Reino – Carta de Lei do Príncipe D. João (18 de dezembro de 1815)).
A defesa da ação colonialista na América levou a que os britânicos não quisessem fazer parte da Santa Aliança dado que esta incluía a hipótese de intervir nas independências da América. O afastamento inglês justifica-se pelo interesse da Coroa Britânica em alargar os seus negócios com as recém-independentes nações, das amarras impostas pelo pacto colonial. Em contrapartida, o governo francês, visando recuperar o seu prestígio diplomático, decidiu juntar-se às restantes monarquias em sinal de fidelidade. SARDICA, José Miguel – ibidem, pp. 347-349.
Também a ameaça dos Estados Unidos quanto a uma possível intervenção na América Latina era uma realidade exequível, uma vez que já eram o mais importante país das Américas, embora ainda lá existissem algumas possessões coloniais.
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VEIGA, Francisca Branco (2024), 1807-1821 Inversão Metropolitana (PT/BR) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [20 de Agosto de 2024].
In VEIGA, Francisca Branco. Companhia de Jesus. O breve regresso no reinado de D. Miguel. Ed. de Autor, 2023, pp. 437.
No dia 8 de outubro de 1910 foram novamente expulsos de Portugal os jesuítas.
Após a implementação da República em Portugal, a 5 de outubro de 1910, as ações laicistas do governo Republicano atingiram as ordens religiosas. Com os decretos do novo sistema político, os religiosos da Companhia de Jesus exilaram-se em diversos países, sobretudo na Espanha, Itália e no Brasil.
Litografia colorida, da autoria de Cândido da Silva (?) alusiva à revolução que deflagrou na noite de 3 de Outubro de 1910, em Lisboa, e que conduziu à proclamação da República Portuguesa (Nota A)
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O historiador jesuíta Francisco Rodrigues, recorda as diversas dificuldades porque passaram os seus irmãos no exercício das suas atividades:
«As leis pombalinas que ainda se mantinham de pé e a cada momento se ouviam citar para ameaço de extermínio, obrigavam-na a retrahir-se prudentemente, a viver como escondida, sem poder levantar o rosto com desassombro nem sequer declarar abertamente o seu nome. Por outro lado as antipathias nascidas de velhos preconceitos, enraizadas em tantos espíritos, que facilmente se assustavam com o espectro jesuitico, a falta de protecção oficial, antes não raro a má vontade dos governantes, de quando em quando a perseguição declarada e a continua vexação de uma imprensa adversa e desenfreada, eram obstáculos em demasia, que peava o desenvolvimento da nova Corporação e lhes atavam as mãos e tolhiam os movimentos necessários ao seu progresso. Contudo, não obstante as remoras que lhe impediam o passo, chegou pela força da sua vitalidade a dirigir uns dezoito estabelecimentos de formação, além dos multiplicadíssimos ministérios sacerdotaes que exercia no reino e missões em esfera cada dia mais vasta» (Rodrigues 1917, p. 556)[1]
Todas as atividades dos jesuítas foram interrompidas drasticamente, com a restauração das leis de Marquês do Pombal contra os Jesuítas e o decreto de 20 de maio de Joaquim António de Aguiar de 1834[2]. Estas tinham criado na sociedade portuguesa um ambiente de desconfiança e de hostilidade em relação à Igreja católica, e em particular aos jesuítas. Posteriormente, uma série de medidas deram força de lei à política de dessacralização da sociedade (Carvalho 2013).
Logo depois da proclamação da República, o Governo Provisório iniciava a publicação de uma série de decretos com força de lei, atentatória das liberdades e dos direitos da Igreja católica.
Medidas que deram força de lei à política de dessacralização da sociedade 1910-1911
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In summa, no outono de 1910 a Companhia de Jesus foi pela terceira vez expulsa e espoliada dos seus bens em Portugal.
Jesuítas Portugueses disfarçados, em Puerto de Santa Maria (Cádis, Andaluzia) (Azevedo 1914, p. VII)
Nota A – Descrição da litografia
Da esquerda para a direita: o bombardeamento do Palácio das Necessidades; a fuga da família real, na Ericeira; a prisão dos Jesuítas para o forte de Caxias; os combates nas ruas de Lisboa; a posição da Artilharia na Rotunda; os populares entrincheirados na Rotunda.
Ao centro, uma alegoria representando a República por entre os populares que testemunharam a proclamação na Praça do Município.
Ao centro e em primeiro plano, os elementos do Governo Provisório saúdam Machado Santos, líder militar vitorioso; sob estes, um dragão, símbolo da Casa de Bragança e do exército monárquico, jaz por terra, junto com a Coroa de Portugal.
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[1] RODRIGUES, Francisco, SJ. – A formação intellectual do jesuita : leis e factos. Porto: Livr. Magalhães e Moniz, 1917, p. 556.
[2] O diploma de 8 de outubro (cujo conteúdo se manteve no art.º 3.º da Constituição de 1911), anulava o decreto de 18 de abril de 1901 e repunha em vigor a legislação pombalina de 3 de setembro de 1759 e de 28 de agosto de 1767 sobre a expulsão dos jesuítas, e ainda a lei de 28 de maio de 1834, que extinguia as casas religiosas e todas as Ordens Regulares.
Para conhecimento geral transcreve-se pormenores do decreto referentes aos Jesuítas:
«DECRETO COM FORÇA DE LEI DE 8 DE OUTUBRO DE 1910
O Governo Provisório da República Portuguesa faz saber que em nome da República se decretou, para valer como lei, o seguinte:
Artigo 1º: Continua a vigorar como lei da República a de 3 de Setembro de 1759, promulgada sob o regime absoluto e pela qual os jesuítas foram havidos por desnaturalizados e proscritos, e se mandou que efectivamente fossem expulsos de todo o país e seus domínios «para nele mais não poderem entrar.
[…] Artigo 5º: Em consequência e de harmonia com o disposto nos artigos 1º a 3º e nos diplomas aí referidos serão expulsos do território da República todos os membros da chamada Companhia de Jesus, qualquer que seja a denominação sob que ela ou eles se disfarcem […]
Artigo 8º: Os bens das associações ou casas religiosas serão arrolados e avaliados, precedendo imposição de selos e os das casas ocupadas pelos jesuítas, tanto móveis como imóveis, serão desde logo declarados pertença do Estado. […]
Dado nos paços do Governo da República, aos 8 de Outubro de 1910. = Joaquim Teófilo Braga = António José de Almeida = Afonso Costa = António Xavier Correia Barreto = Amaro de Azevedo Gomes = Bernardino Machado.». In Diário do Governo, n.º 4/10, Série I, de 1910-10-10.
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VEIGA, Francisca Branco (2024), Outono de 1910 a Companhia de Jesus foi pela terceira vez expulsa de Portugal (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [6 de Agosto de 2024].