D. Pedro IV (Queluz, 12 de outubro de 1798 – Queluz, 24 de setembro de 1834)

A 12 de outubro de 1798 nasce D. Pedro IV, rei de Portugal e primeiro Imperador do Brasil.

Filho varão de D. João VI e de D. Carlota Joaquina, nasceu no palácio de Queluz, em 12 de outubro de 1798 e completaria hoje, dia 12 de outubro de 2020, 222 anos.

Após a invasão das tropas francesas a Portugal em 1807,  o infante D. Pedro embarcou com a família real para o Brasil.

Com a morte de seu pai D. João VI, em 1826, D. Pedro é designado rei de Portugal pela regente, sua irmã, D. Isabel Maria e outorga aos portugueses a Carta Constitucional de 1826.

Rei de Portugal e Algarves como Pedro IV entre março e maio de 1826, abdica em sua filha D. Maria da Glória mediante duas condições: o casamento da rainha com o seu tio D. Miguel e o juramento da Carta Constitucional.

Foi o primeiro Imperador do Brasil, como Pedro I de 7 de setembro de 1822 até sua abdicação em 1831, em benefício do seu filho, futuro Pedro II.

Incapaz de lidar com os problemas do Brasil e de Portugal ao mesmo tempo, no dia 7 de abril de 1831 foi forçado a abdicar da coroa brasileira em favor do seu filho.  Viaja para a Europa para defender o direito ao trono português por parte de sua filha, a Infanta D. Maria da Glória, lutando contra seu irmão D. Miguel. D. Pedro parte do Rio de Janeiro para a Europa no dia 13 de abril, acompanhado de sua filha, chegando no dia 12 de junho a Clermont, na França.

Após conseguir os apoios financeiros necessários e organizar os liberais imigrados, chega aos Açores em 1832, onde assume a regência na qualidade de duque de Bragança, e aí  prepara a expedição militar que colocará a sua filha no trono de Portugal.

No dia 7 de julho de 1832 avista-se na costa portuguesa a esquadra liberal, desembarcando D. Pedro com o seu exército no Mindelo no dia 8 e entrando no Porto no dia seguinte, dando início ao Cerco do Porto.

O cerco do Porto durou um ano – de julho de 1832 a agosto de 1833 – no qual as tropas liberais de D. Pedro estiveram sitiadas pelas forças realistas fiéis a D. Miguel.

Após brilhante vitória em Cacilhas, Lisboa foi entregue ao comandante-chefe liberal, marechal Duque da Terceira, sem combate nem resistência, pelo Duque de Cadaval, em 24 de julho de 1833.

D. Pedro, após um violento ataque absolutista ao Porto, embarca para a capital, fazendo a sua entrada no Tejo a bordo do vapor William the Fourth no dia 28 de julho .

As Cortes de agosto de 1834 confirmam a regência de D. Pedro, que morre no mês seguinte, a 24 de setembro, no mesmo local onde nasceu,  quatro dias após o início do reinado de D. Maria II (com apenas quinze anos de idade).

Quarto onde nasceu e morreu o rei D. Pedro IV  (I Imperador do Brasil)
Palácio de Queluz
Quarto onde nasceu e morreu o rei D. Pedro IV  (I Imperador do Brasil)
Palácio de Queluz
Ferdinand Le Feubure (Munique, 1815- Munique, 1898)
1850
Infante D. Pedro de Alcântara
Parte de um Estudo para retrato da Família Real
Portugal, c. 1798-99
MNAA
Estudo para retrato da Família Real
Domingos António de Sequeira
Portugal, c. 1798-99
Desenho a lápis sobre papel
13,7*17cm
Assinado: “Sequeira fez”
MNAA

Neste estudo estão identificados seis membros da Família Real: o Príncipe regente D. João, a sua mulher D. Carlota Joaquina,  as Infantas Maria Teresa e Maria Isabel, o Príncipe herdeiro D. António Pio e o infante D. Pedro de Alcântara.

Revolução de 1820

Conspiração de outubro de 1817 e Sinédrio

No início do século XIX, em Portugal, tal como em Espanha, vivia-se um período politicamente revoltoso. O reino português encontrava-se empobrecido e esgotado depois de se ter envolvido numa crise motivada, entre outras razões, pelo refúgio forçado da família real no Brasil (29 de novembro de 1807), pelo alcance destruidor das três invasões napoleónicas (1ª invasão – 1807-1808; 2ª invasão – 1809; 3ª invasão – 1810-1811) e pela abertura dos portos do Brasil ao comércio mundial (decreto de 28 de janeiro de 1808), provocando a ruína económica portuguesa e consequente domínio dos ingleses sobre Portugal até à Revolução de 1820.

Com o rei D. João VI no Brasil, aumentava em Portugal a pobreza, a ruína agrícola e industrial. O colapso nas rendas públicas teve como consequência atrasos nos pagamentos aos funcionários públicos e militares, a miséria e o desemprego. Esta situação levou à Conspiração de Lisboa em 1817, liderada pelo General Gomes Freire de Andrade, Grão-mestre do Grande Oriente Lusitano (1815-1817), que teve como objetivo da conjura a substituição de D. João VI que se encontrava no Brasil pelo duque de Cadaval[1], “… reformar abusos, cohibir um governo injusto, dispotico, absurdo; salvar a Patria já quasi sepultada no abismo, &c…”[2], e à Revolução do Porto em 1820, que já teve o cunho liberal.

A Revolução de 1820, que já vinha imbuída deste conjunto de antecedentes[3], aos quais podemos adicionar outros eventos como a fundação do chamado Sinédrio, integrado por alguns maçons, e que tinha como finalidade a consolidação do Exército Português no país, e a Revolução de 1820 na Espanha que restaura, em março, a Constituição liberal de Cádis (1812), evidenciava uma viragem na mentalidade das elites portuguesas, só quebrada no período de 1829-1834, período do absolutismo miguelista.


[1] Opinião de PEREIRA, Ângelo – D. João VI Príncipe e rei: a retirada da família real para o Brasil, 1807. Lisboa: Imprensa Nacional de Publicidade, 1943, p. 144.  Apud VENTURA, António – Uma História da Maçonaria em Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, 2013, pp. 90-93.

[2] Pretendiam também a reunião das cortes, uma Constituição e a eleição de um rei constitucional. Veja-se FREITAS, Joaquim Ferreira de – Memoria sobre a conspiração de 1817: vulgarmente chamada a conspiração de Gomes Freire. Londres: Ricardo e Artur Taylor, 1822, p. 70.

[3] Teve como principais antecedentes: a invasão de Portugal pelas tropas napoleónicas, em 1807; a transferência da corte portuguesa para o Brasil (1808-1821); a assinatura do Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas, no dia 28 de janeiro de 1808 e o posterior Tratado de Comércio e Navegação assinado entre Portugal e a Grã-Bretanha em 19 de fevereiro de 1810; situação de miséria económica em Portugal, com fábricas em declínio, a agricultura em decadência, que levou a um colapso das rendas públicas e a miséria social.  Veja-se VARGUES, Isabel Nobre – “O processo de formação do primeiro movimento liberal: a Revolução de 1820”. In MATTOSO, José (dir.) – História de Portugal, 5º vol.: O Liberalismo. Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, pp. 45-63.

Alegoria ao juramento de obediência à Constituição
Gravura a buril de Constantino de Fontes, a partir da obra de António Maria de Fonseca
Década de 1820

GENERAL GOMES FREIRE DE ANDRADE E A CONSPIRAÇÃO DE OUTUBRO DE 1817

General Gomes Freire de Andrade foi um partidário das ideias liberais, condenado à morte em 18 de outubro de 1817, após uma revolta contra o domínio de William Beresford, que regia Portugal, após a saída da Família Real para o Brasil em 1807.

Gomes Freire de Andrade, era maçon, fazendo parte da loja militar portuguesa – Chevaliers de la Croix – (Cavaleiros da Cruz) da legião portuguesa – integrada na obediência do Grande Oriente Lusitano (GOL), da qual foi venerável mestre.

Quadro de Roque Gameiro (1917) dedicado à execução de Gomes Freire

SINÉDRIO

O Sinédrio foi composto por um grupo de personalidades, norteados pelo projeto liberal. Lutam contra os abusos dos ingleses, contra a miséria pública instalada, defendendo a necessidade de reformas urgentes. É organizado no Porto, no dia 22 de janeiro de 1818, por Manuel Fernandes Tomás, José Ferreira Borges, José da Silva Carvalho, todos juristas, e João Ferreira Viana, comerciante. Esta estrutura estará na origem da Revolução de 1820.

Manuel Fernandes Tomás, José da Silva Carvalho e José Ferreira Borges

O “modo nostro” Jesuíta

Il Gesú, de Roma (protótipo), S. Roque, de Lisboa e Colégio de Jesus, de Coimbra (Sé Nova)

Mantendo o respeito pelas normas da II Congregação Geral, a Companhia de Jesus segue a linha de que, todas as edificações deviam respeitar os critérios de utilidade, funcionalidade e adaptação aos Ministérios da Companhia, constituindo, deste modo, a essência do modo nostro jesuíta.

A linha arquitetónica definida pela Companhia irá também ser seguida em Portugal. Vão surgir igrejas amplas com ou sem capelas laterais, onde o transepto é curto. Igrejas com uma só nave, compacta, que se desenvolve em andares com tribunas e galerias sobre as capelas ou sobre os altares. O seu espaço interno apoia-se em esquemas rítmicos simples e de grande largueza de conceção. Esta vasta área adapta-se perfeitamente à função missionária da Companhia, mais dedicada à pregação, às confissões, ao estudo, ao ensino, sempre em missão.

Com este tipo de planta aumenta o número de cristãos no seu interior, tal como a celebração de várias missas em simultâneo nas várias capelas, pois as naves laterais transformaram-se em capelas para Santos, para servirem de intercetoras entre o homem e Deus. Trata-se de recuperar, a partir desta planta, os fiéis perdidos com a reforma protestante e voltar à clara tradição cristã. Para os jesuítas, a igreja é agora símbolo do todo um processo que leva a humanidade à salvação, instrumento espiritual de mediação entre a terra (matéria) e o céu (espírito). Segundo o padre jesuíta Francisco Rodrigues, as igrejas jesuíticas lusas da segunda metade do séc. XVI e primeiro quartel do séc. XVII seguem o modelo da igreja de Gesú.

Deste modo, o protótipo de igreja jesuítica é a igreja do Gesú, de Roma, a primeira igreja construída para a Companhia de Jesus e aquela em que transparece os objectivos da Contra-Reforma, que mais tarde vão ser utilizados em toda a arquitectura religiosa barroca. Em 1568, foi iniciado o templo pelo arquiteto Giacomo Barozzi (Vignola). Igreja onde o altar se encontra no local de acordo com objetivos litúrgicos assumidos no Concílio – a disposição interior reúne as vantagens do plano alongado, em cruz latina, onde todas as vistas convergem para o alvo principal, disposto em situação predominante, o altar.

Fachada e Planta da Igreja de Il Gesú (Roma, Itália)

Uma só nave, larga e desafogada, seis capelas laterais intercomunicantes, de um lado e de outro da nave, erigidas em honra dos Santos e Mártires, permitindo-se a passagem destas ao transepto através de duas câmaras circulares; o transepto é ligeiramente saliente com capelas nos topos, a cúpula sobre o cruzeiro é grande, permitindo iluminar toda a abside; o altar principal fica, geralmente, numa posição bem visível, no topo da capela-mor e o púlpito[1] alto e bem posicionado para dominar sem dificuldade todo o templo e ao mesmo tempo tornar-se o ponto focal, para onde tudo converge. A necessidade de mostrar a grandeza de Deus num espaço amplo, com muita luz incentivando o povo cristão ao culto e mostrando de uma só vez todo o recinto sagrado e o orador a pregar. Esta igreja corresponde a dois tempos vividos pela Reforma, a sobriedade dos primeiros tempos e a riqueza e ostentação do segundo, onde o maneirismo da estrutura arquitetónica se mistura com barroco da decoração. [2]


[1] Tribuna, nas igrejas, de onde os oradores sagrados pregam;

[2] CHIESA DEL GESÚ DI ROMA Disponível na Internet em: <http://www.chiesadelgesu.org/>. [Referência de: 25 agosto de 2020]; Paulo F. Santos., O Barroco e o jesuítico na arquitectura do Brasil, Rio de Janeiro: Kosmos, 1951, pp. 92 e ss.

Fachada e Planta da Igreja de S. Roque (Lisboa, Portugal)

No âmbito do Padroado Português, o modelo mais próximo terá sido a igreja de S. Roque, em Lisboa. Entre 1566 e 1575 a construção de S. Roque irá subir até a cornija interior com a intervenção de Afonso Álvares. Com a morte deste, surge um segundo arquiteto, Baltasar Álvares, seu sobrinho e colaborador.

O projeto da igreja de S. Roque embora inspirado no da igreja de Gesú, apresenta em relação a esta várias diferenças como: a diminuição da largura do transepto que, na igreja de Lisboa, quase se confunde, em planta, com as capelas laterais; enquanto na arquitetura da Gesù há uma cúpula central que depende dos arcos gerados pela abóbada de berço, no padrão português a adoção das traves promove um espaço mais livre e a inexistência de abóbadas recortando o forro da nave central possibilita o uso de padrões decorativos cada vez mais sofisticados nos forros (como a pintura ilusionista); oito capelas laterais intercomunicantes; cabeceira retangular com capela-mor plana e pouco profunda; a substituição da abside[1] por uma capela-mor muito pequena e inclusão de uma teia com balaústres que delimita o avanço do santuário em relação ao corpo da igreja[2].


[1] Hemiciclo ou meia abóbada que termina as basílicas cristãs, debaixo do qual se contém o altar-mor;

[2] Oceanos. António Mega Ferreira (dir.), nº 12 (nov. 1992), Lisboa: C.N.C.D.P., pp.105-106; Maria João Madeira Rodrigues, A igreja de S. Roque, Lisboa: Santa Casa da Misericórdia, 1980.

Fachada e Planta da Igreja do Colégio de Jesus (Sé Nova, Coimbra, Portugal)

A construção do Colégio de Jesus, foi iniciada em 1547 por Afonso Álvares, mas em1560 a planta original foi modificada para se adaptar ao elevado número de religiosos que o iriam habitar. Construído depois da Igreja de São Roque, a igreja do Colégio de Jesus iniciou-se em 1598 e Baltazar Álvares, “arquiteto oficial” da Companhia de Jesus em Portugal, será o seu autor, apresentando uma evolução ao modelo lisboeta.

A fachada está inserida no modelo maneirista de Il Gesú e é composta por dois corpos sobrepostos separados por uma cornija, tendo na parte inferior cinco tramos divididos por pilastras toscanas. O frontispício de volumes robustos e estrutura de grande verticalidade é decorado com janelas simétricas e nichos com imagens de santos jesuítas. No final do século XVII foram acrescentadas duas torres recuadas em relação ao alçado principal, marcando a diferenciação em relação ao protótipo jesuíta de Roma.[1]

A planta segue o esquema em cruz latina, de abóbada tal como Il Gesú de Roma, apresentando um espaço interior de nave única, com transepto e capelas laterais intercomunicantes, e cruzeiro coberto por cúpula semiesférica com lanternim[2].


[1] Rui Pedro Lobo, Os Colégios de Jesus, das Artes e de São Jerónimo: Evolução e transformação no espaço urbano, Coimbra: [Ed. do A.], 1994 pp.30-31.

[2] Fresta para dar ar e luz.

In VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.

Segundo o modo nostro: o edifício do noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus, 1619 – 1759

Mátria Digital, Ano X, Número X (Dezembro 2022 – Novembro 2023).

«… explica-lhes como o Templo está feito: o seu
traçado, as entradas e saídas, a forma, a disposição de tudo e
os regulamentos. Escreve tudo para que possam ler e vejam
como tudo está delineado …»


Livro de Ezequiel 43, 11-12

O artigo sobre o modo nostro no edifício do noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus, instituição criada no espaço onde atualmente existe o Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MNHNC), tem como objetivo dar a conhecer a história e edificação deste espaço de educação e religião, no período entre 1619 e 1759.
Pelo estudo do espólio arquitetónico e artístico que chegou aos nossos dias e de fontes de informação com ele relacionado pretendeu-se demonstrar que combinando os fatores espirituais com os factores físicos, este espaço assumiu a sua forma exaltando-se o espírito do lugar de acordo com o modo nostro.
Assim, concebido para responder ao programa arquitetónico específico desta Ordem, o noviciado da Cotovia tornou-se uma
referência como primeiro noviciado da Companhia de Jesus na Província Portuguesa.

Palavras-chave: Companhia de Jesus – Noviciado – Arquitetura –História

VEIGA, Francisca Branco. “Segundo o modo nostro: o edifício do noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus, 1619 – 1759”. In Mátria Digital, Ano X, Número X (Dezembro 2022 – Novembro 2023).

Revista cientifica MÁTRIA DIGITAL, DO Centro de Investigação Professor Joaquim Veríssimo Serrão (CIJVS)

Ano X, Número X matriadigital.cm-santarem.pt/index.php/ensaio/111-ensaio-10

Ciclo iconográfico da vida de Santo Inácio de Loyola: Um programa cultual e de doutrinação (1609)

Em 1609, no ano de beatificação de Santo Inácio de Loiola, fundador da Companhia de Jesus, publicou-se em Roma a sua vida «figurada», baseada na biografia do Padre Pedro Ribadeneyra, Vita beati patris Ignatii Loyolae religionis Societatis Iesu fundatoris ad viuum expressa ex ea quam..

Composta de setenta e nove gravuras mais um frontispício, obras de Rubens e de Jean Baptiste Barbé. É considerada a primeira grande sistematização iconográfica da vida do santo fundador, após as Vitae em folhas avulsas de Thomas de Leu (Paris, 1590) e de Francisco Villamena (Roma, 1600) e depois da série de doze gravuras de Hieronymos Wiex (Antuérpia, cerca de 1609).

Esta obra foi muito importante para a arte jesuíta, pois veio a servir de modelo para outras representações feitas um pouco por todo o mundo católico.

O gosto dos jesuítas pela Gesamtkunstwerk ou obra de arte total, mostra que, associando-se a artistas nacionais e estrangeiros, estes “homens de Deus” conseguiram interpretar os princípios estéticos vigentes no mundo católico pós reforma católica.

Um programa cultual e de doutrinação teve como consequência a criação de uma arte religiosa muito própria desta Ordem nos diversos níveis artístico, como, a arquitetura, a pintura, a escultura ou a ourivesaria.

VEIGA, Francisca Branco – Noviciado da Cotovia: O passado dos Museus da Politécnica 1619-1759 [texto policopiado]. Dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Património Cultural. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2009.

Convalescença e conversão de Inácio, no Solar de Loyola
Sacristia da Igreja de S. Roque, Lisboa
autor desconhecido
Cerca de 1619
Com legenda coeva, subdividida em três:

“A – ESTANDO IGNACIO GRAVEMENTE HERIDO EL APARECE PEDRO Y EL DA SALUD /
B- VENCIDAS LAS TENTACIONES SE OFERECE POR SOLDADO AL SENOR /
 C- ORANDO DE NOCHE SE EL APARECE NUESTRA SENORA Y DALE EL DON DE LA CASTIDAD”
Vita Beati P. Ignatii Loiolae Societatis Iesu Fundatoris, 1609,
Incisões da autoria de Peter Paul Rubens
As temáticas, Convalescença e conversão de Inácio, no Solar de Loyola,
são tratadas em duas imagens distintas

Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, Ciclo iconográfico da vida de Santo Inácio de Loyola: Um programa cultual e de doutrinação (1609) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [28 de Setembro de 2020].

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D. MARIA II: 1841 – 1842 – 1848, «non   perdere   questa nazione cattolica»

D. MARIA II
PACIFICAÇÃO RELIGIOSA

Pelo breve Ad   catholicae  gubernacula, de  18  de novembro  de  1841, Gregório XVI nomeia mons. Capaccini como Internúncio  e delegado apostólico em Portugal para,

   «non   perdere   questa   nazione   cattolica»

Retrato de D. Maria II
Representada em frente ao busto de D. Pedro IV, e apoiando a mão esquerda sobre a Carta Constitucional.
Autor Desconhecido

Em março de 1842, Gregório XVI enviou a D. Maria II a Rosa de Ouro, como símbolo de estima e afeição paterna, ou como refere Gomes Freire num artigo do jornal Diário Ilustrado, de 4 de julho de 1892,

Diário Ilustrado, nº 6:921, 4 de julho de 1892, p.2

1848 – Concordata de Braga entre representantes de D. Maria II e de Pio IX, tentou-se amenizar as consequências do “Cisma” sobre as questões do padroado português no Oriente.

Como fazer a referência bibliográfica deste artigo científico

VEIGA, Francisca Branco (2019, nov.). 1832-1834 Regência de D. Pedro em nome de sua filha D. Maria da Glória: fim do governo temporal da Igreja Católica e das Ordens Religiosas em Portugal. In SOARES, Clara Moura; MALTA, Marize (eds.), D. Maria II, princesa do Brasil, rainha de Portugal Arte, Património e Identidade, Lisboa: Palácio Nacional da Ajuda, 12 nov. (pp. 113-120). ARTIS – Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Artigo completo em

https://www.academia.edu/40918078/1832_1834_Reg%C3%AAncia_de_D_Pedro_em_nome_de_sua_filha_D_Maria_da_Gl%C3%B3ria_fim_do_governo_temporal_da_Igreja_Cat%C3%B3lica_e_das_Ordens_Religiosas_em_Portugal

16 outubro 1829, chega ao Rio de Janeiro a nova Imperatriz do Brasil, D. Amélia de Leuchtenberg

D. Amélia de Leuchtenberg, Imperatriz Consorte do Brasil de 1829 a 1834. Era filha de Eugénio de Beauharnais, Duque de Leuchtenberg e de sua esposa a princesa Augusta da Baviera.

No dia 16 de outubro de 1829, chega ao Rio de Janeiro a nova Imperatriz do Brasil, D. Amélia, juntamente com seu irmão Augusto, Duque de Leuchtenberg, e a futura rainha D. Maria II, de Portugal (filha do Imperador D. Pedro I).

Segundas núpcias do imperador D. Pedro I, por Jean-Baptiste Debret
Princesa D. Maria Amélia do Brasil, Duquesa de Bragança
1839
Autor não identificado
A partir de,
Friedrich Dürck
Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil.

Paiaçu de Portugal: António Vieira, Missionário, Orador, Defensor

(Lisboa, 6 de fevereiro de 1608 — Salvador, 18 de julho de 1697)

Padre António Vieira. Sala dos Passos Perdidos da Assembleia da República (pormenor pintado a óleo sobre tela por Columbano Bordalo Pinheiro).


Ao colocar Vieira nos Passos Perdidos do parlamento, o programa decorativo faz dele uma referência moral e retórica para a cultura política contemporânea: o grande pregador barroco transforma‑se em símbolo de palavra pública, consciência crítica e intervenção na res publica. A presença de Vieira num espaço laico como a Assembleia da República sublinha justamente essa dimensão de diálogo entre tradição religiosa, pensamento político e debate parlamentar atual.


Padre António Vieira, notável prosador e uma das mais eminentes figuras da oratória religiosa portuguesa, passou pelo noviciado da Cotovia — atual espaço do Museu Nacional de História Natural e da Ciência — em consequência das suas atitudes e afirmações em defesa de ideais que marcaram profundamente o seu tempo.

Nascido em Lisboa, em 1608, e falecido em 1697, na Baía, Brasil, destacou-se como missionário em terras brasileiras, onde se tornou uma voz incansável na defesa dos direitos humanos dos povos indígenas, combatendo a sua exploração e escravização. A sua ação estendeu-se igualmente à defesa dos judeus e à condenação da discriminação entre cristãos-novos — judeus convertidos e perseguidos pela Inquisição — e cristãos-velhos, bem como à denúncia da escravatura e das injustiças sociais e religiosas do seu tempo.

Profundamente crítico dos costumes e práticas de muitos sacerdotes contemporâneos, Vieira não hesitou em afrontar a própria Inquisição. Em 1664, debilitado pela doença, foi chamado a comparecer perante o Tribunal do Santo Ofício para responder pelo seu escrito Quinto Império. No ano seguinte recebeu ordem de prisão, apresentando a sua defesa em 1666 aos examinadores inquisitoriais.

Em 1667 o Tribunal da Inquisição de Coimbra pronunciou a sentença final: proibido de pregar e confinado, por tempo indeterminado, a uma casa da Companhia de Jesus. A leitura solene da sentença ocorreu no refeitório do Colégio da Companhia de Jesus de Coimbra, perante toda a comunidade religiosa.

Em janeiro de 1668 determinou-se que o seu local de reclusão seria um colégio da Companhia; contudo, em fevereiro, o mesmo tribunal autorizou a sua transferência para o noviciado da Cotovia, em Lisboa. É desse período uma carta endereçada ao Duque do Cadaval, na qual Vieira comenta ironicamente: “O passar de Coimbra para a Cotovia e da profissão para o noviciado, não sei se é ir adiante, se tornar atrás.”

Em abril do mesmo ano, teólogos de Coimbra manifestaram a convicção de que o processo de Vieira deveria ser submetido ao Tribunal Pontifício, por se ter desenvolvido, segundo afirmavam, não por zelo da verdade, mas por ódio pessoal ao jesuíta e aversão à Companhia de Jesus. Em junho, a Inquisição de Lisboa revogou as penas aplicadas em Coimbra, embora o obrigasse a abster-se de tratar dos assuntos que motivaram a sua acusação.

Já em 1669, o padre provincial do Brasil comunicou ao Superior Geral da Companhia, padre Giovanni Paolo Oliva, a intenção de enviar António Vieira a Roma, oficialmente para promover o processo de beatificação dos padres José de Anchieta e Inácio de Azevedo e dos seus trinta e nove companheiros martirizados a caminho do Brasil. Contudo, o verdadeiro propósito da viagem era solicitar ao Santo Ofício romano a revisão do processo inquisitorial de Coimbra.

Vieira partiu de Lisboa para Roma, onde permaneceu até 1675. Nesse ano, o Papa Clemente X, através de um Breve Pontifício, aprovou a ortodoxia da sua doutrina e o isentou da jurisdição da Inquisição portuguesa.

Já velho e doente, regressou ao Brasil, onde veio a falecer na Baía, a 18 de julho de 1697, com oitenta e nove anos. Entre os povos indígenas era conhecido como Paiaçu, palavra tupi que significa “Grande Padre” ou “Grande Pai”.

(Cf. O Occidente, 20 de julho de 1897.)

Estátua de padre António Vieira, inaugurada no dia 22 de junho de 2017.
Marco Fidalgo, Escultor
Largo Trindade Coelho, Lisboa

INSCRIÇÃO:

PADRE
ANTÓNIO
VIEIRA S.J.

Lisboa 1608
S. salvador da baía
(Brasil) 1697

jesuíta
pregador
sacerdote
político
diplomata
defensor dos índos e
dos direitos humanos
lutador contra
a inquisição

Esta inscrição ganha sentido pleno quando a relacionamos com o lugar, a estátua e a intenção memorial e política que lhe estão subjacentes.

Enquadramento no espaço

Colocada junto à Igreja de São Roque, antiga Casa Professa da Companhia de Jesus, a inscrição ancora Vieira no coração simbólico do jesuitismo em Portugal, precisamente onde tantos missionários partiram para o Brasil e o império ultramarino. A presença no Largo Trindade Coelho, em frente à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, reforça a associação à caridade, à ação social e ao cuidado dos mais vulneráveis que marcam a leitura contemporânea da sua figura.

Ligação à estátua (2017)

A inscrição acompanha a estátua de bronze inaugurada a 22 de junho de 2017, da autoria do escultor Marco Telmo Areias Fidalgo, que representa Vieira em pé, com uma cruz na mão, rodeado de crianças indígenas, explicitando visualmente a dimensão missionária e a defesa dos povos ameríndios. Trata-se da primeira estátua erigida em Lisboa em sua homenagem, resultado de um protocolo entre a Câmara Municipal e a Santa Casa, num gesto assumido de reparação simbólica para com a memória do jesuíta.

Leitura da inscrição

A parte superior (“PADRE ANTÓNIO VIEIRA S.J. / Lisboa 1608 / S. Salvador da Baía (Brasil) 1697”) cumpre a função identificativa clássica: nome, pertença religiosa (Societas Jesu) e datas‑marco que ligam Lisboa ao espaço luso‑brasileiro. Logo de seguida, a enumeração “jesuíta / pregador / sacerdote / político / diplomata” condensa a multiplicidade de papéis de Vieira, sublinhando tanto a sua intervenção religiosa como a sua ação pública e diplomática ao serviço da monarquia portuguesa.

Ênfase ética e política

Os últimos versos — “defensor dos índios e / dos direitos humanos / lutador contra / a inquisição” — fazem uma leitura inequivocamente contemporânea de Vieira, aproximando a sua ação do vocabulário atual dos direitos humanos e da crítica às violências coloniais e inquisitoriais. Esta formulação funciona como tomada de posição: propõe ao público um Vieira apresentado como figura de resistência moral dentro de um contexto colonial e confessional marcado por escravatura, perseguições e discriminações.

Função memorial hoje

Num largo marcado pela memória jesuíta e pela história do império, a inscrição procura fixar uma narrativa de Vieira como “grande padre” que se ergue em defesa dos oprimidos, contraposta às lógicas de poder da sua época. Ao fazê‑lo, inscreve-se também nos debates atuais sobre colonialismo, memória pública e monumentos, o que explica as polémicas e atos de contestação de que a própria estátua já foi alvo.

Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco (2020), Paiaçu de Portugal: António Vieira, Missionário, Orador, Defensor (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [16 de setembro de 2020].

In VEIGA, Francisca Branco, Noviciado da Cotovia 1619-1759. Ed. Autor, 2025.

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15 dezembro 1815, O Príncipe Regente eleva o Brasil à categoria de Reino

CRIAÇÃO DO REINO UNIDO DE PORTUGAL, BRASIL E ALGARVES

A notícia só é publicada em Lisboa em 1816, no nº 299 da Gazeta de Lisboa, 17 de dezembro de 1816, edição de 3ª feira:

«S. M. ElRei, meu Amo, fica sciente da resolução de S. A. R. o Principe Regente de Portugal, que V. Ex. me comunica em sua nota de 13 do corrente, pela qual  S. A. R. Houve por bem elevar o Estado do Brasil á dignidade de Reino, e uni-lo aos de Portugal e Algarves, de forma que componhão hum só e hum mesmo Corpo político, tudo em conformidade da Carta Régia de 16 de Dezembro próximo passado, de que me remete V. Ex. hum exemplar.

Renovo a V. Ex. com este motivo meus anteriores oferecimentos. Deos guarde a V. Ex. muitos anos. Palacio 19 de Março de 1816. B. A. M. – Pedro Cevallos. – Sr. Ministro de Portugal.»

D. João VI, Rei do Reino Unido de Portugal e do Brasil e Algarves.
Gravura de Charles Simon Pradier, a partir da pintura de Jean Baptiste Debret. 1817-1819.
Palácio Nacional de Queluz

7 SETEMBRO 1822, O BRASIL COMEMORA A SUA INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL

(NOTÍCIAS DE PORTUGAL)

Manuel Fernandes Tomás, considerado por muitos a figura mais importante do primeiro período liberal, em 22 de fevereiro declarava: “… se o Brasil com efeito não quer unir-se a Portugal, como tem estado sempre, acabemos de vez com isto; passe o senhor Brasil muito [bem], que cá cuidaremos da nossa vida”(1) .

Na opinião do miguelista António Ribeiro Saraiva, tinha sido o governo liberal britânico a levar os ideais liberais para as “Américas” estimulando, deste modo, a independência do Brasil:

“Seria pois necessário admitir que o Imperador do Brasil, ao tempo da morte de Seu Pai, não era um Soberano Estrangeiro, ou não era Soberano de um Estado Estrangeiro; isto seria dizer (o que eu sentiria muito) que o Brasil tinha sido tão nescio, que não havia respondido à voz de M. Canning, quando este, tendo agasalhado em suas entranhas o embrião ou feto informe do Liberalismo transatlântico, chamava à existência e dava à luz a América (parturiunt montes!) no meio do Parlamento Britânico, com grande admiração, de todos os néscios dos dois mundos!” (2)

 A separação do Brasil iria pôr em causa o texto do Titulo II da Constituição Da Nação Portuguesa, e seu Território, Religião, Governo, e Dinastia, Capitulo único, artigo 20:

“A Nação Portuguesa é a união de todos os Portugueses de ambos os hemisférios. O seu território forma o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, e compreende: I. Na Europa […]. II. Na América, o reino do Brasil, que se compõe das Províncias…”. (3)

 Na Constituição seria referida «a União Real com o Reino do Brasil», ora não se conservando esta união do território, nem tão pouco a dos portugueses de ambos os hemisférios seria de absoluta correção a alteração da Constituição.

No dia 25 de março de 1824, D. Pedro I, Imperador do Brasil, outorga a primeira Constituição brasileira. A Constituição Imperial vigorou 67 anos, de 1824 a 1891, quando foi promulgada a primeira Constituição Republicana, sendo, deste modo, a constituição brasileira que teve a vigência mais longa. A Carta outorgada em 1824 foi influenciada pelas Constituições francesa de 1791, espanhola de 1812 e a portuguesa de 1822.

Juramento de D. Pedro I, Imperador do Brasil, à Constituição de 1824

Dois anos mais tarde, no dia 29 de abril, após a morte de D. João VI, D. Pedro outorgava, em Portugal, a Carta Constitucional, inspirada no modelo brasileiro.

(1) ALEXANDRE, Valentim – “O processo de independência do Brasil”. In BETHENCOURT, Francisco; CHAUDHURI, Kirti (Org.) – História da expansão portuguesa, Vol. IV. Lisboa: Círculo dos Leitores, 1998, p. 619.

(2) SARAIVA, António Ribeiro – Eu não sou um Rebelde. Paris, 25 de fevereiro de 1828. Este texto de António Ribeiro Saraiva foi escrito na época em que os Legitimistas tentavam explicar as suas posições aos governos da Europa.

(3) Constituição de 23 de setembro de 1822. In PARLAMENTO/Documents/CRP-1822. [Consultado 15 setembro 2014]. Disponível na internet em: https://www.parlamento.pt/Parlamento/Documents/CRP-1822.pdf

In VEIGA, Francisca Branco – A Restauração da Companhia de Jesus em Portugal 1828-1834: O breve regresso no reinado de D. Miguel.  Tese elaborada para obtenção do grau de Doutor em História, na especialidade de História Contemporânea, 2019.

Independência ou Morte, por Pedro Américo
 Óleo sobre tela, 1888
Exposta no Museu Paulista
Constituição de 23 de setembro de 1822
PARLAMENTO/Documents/CRP-1822
Disponível na internet em: https://www.parlamento.pt/Parlamento/Documents/CRP-1822.pdf
Constituição Política do Império do Brasil, primeira página
Arquivo Nacional do Brasil (AN)