Um repórter de natureza no século XVI: José de Anchieta e o primeiro retrato da Mata Atlântica

Evangelho nas selvas
Benedito Calixto (1853–1927)
São Paulo Museum of Sacred Art

José de Anchieta foi muito mais do que o “apóstolo do Brasil”: foi missionário jesuíta, poeta, gramático, cronista da natureza e uma das primeiras vozes a maravilhar‑se, por escrito, com a Mata Atlântica. Ainda jovem, vindo das Canárias e formado em Coimbra, embarcou para aquilo que muitos europeus viam como o “fim do mundo” e acabou por se tornar fundador de cidades como São Paulo e observador privilegiado de um território em processo de descoberta. Frágil de saúde, encontrou no clima tropical e no contacto com novas gentes e paisagens não apenas cura, mas um horizonte intelectual e espiritual inteiramente novo, que procurou fixar em cartas, poemas e relatos.

José Anchieta
Apóstolo do Brasil

Nas cartas trimestrais que enviava aos superiores na Europa, Anchieta surgia como um verdadeiro “repórter de natureza” avant la lettre, descrevendo plantas, bichos e paisagens que os leitores do outro lado do Atlântico não conseguiam sequer imaginar. Numa delas, de 1585, vê o Brasil como “um jardim em frescura e bosque”, onde não há árvore seca e os arvoredos se elevam “às nuvens”, cheios de frutos e de pássaros cuja música não fica atrás dos rouxinóis, pintassilgos ou canários de Portugal. Esta capacidade de traduzir o espanto em palavras dá aos seus textos um tom simultaneamente devocional e sensorial: cada caminho na floresta é ocasião para louvar a Deus, mas também para registar cores, cheiros, sons, texturas, como se quisesse levar os leitores pela mão por dentro daquele mundo novo.

A célebre carta escrita em maio de 1560, em São Vicente, é hoje reconhecida como o primeiro grande documento sobre a Mata Atlântica, um marco fundador na descrição do bioma. Nela, Anchieta regista a presença de grandes mamíferos, como as “panteras” de duas variedades – uma cor de veado, mais pequena e bravia (a onça‑parda), outra malhada e pintada de várias cores (a onça‑pintada) –, descrevendo‑as com o cuidado de quem sabe que fala de animais nunca vistos na Europa. Fala também de antas, veados, porcos‑do‑mato, de peixes que sobem os rios em tal abundância que garantem a subsistência das aldeias e de aves de plumagens exuberantes, papagaios, guarás vermelhos, beija‑flores, aves de rapina, numa espécie de inventário vivo do espanto. Não esquece os insetos, as doenças, os desconfortos; mas mesmo o incómodo dos mosquitos entra no quadro geral de um ambiente intenso, total.

A flora surge igualmente em primeiro plano: raízes comestíveis, como a mandioca, outras plantas de que aprende o nome indígena, frutos variados, ervas medicinais usadas para tratar febres e maleitas, árvores que fornecem madeira, sombra, alimentos e remédios. Anchieta não se limita a enumerar espécies; observa usos, técnicas, modos de cultivo, registando aquilo que vê fazer aos povos indígenas. O resultado é um retrato raro do modo como as comunidades locais se relacionavam com a floresta, retirando dela sustento e cura sem a esgotar, o que hoje dá a estas páginas valor histórico, antropológico e ecológico.

 Flora, fauna e paisagens de São Paulo no ano de 1500.
In https://www.researchgate.net/figure/Figura-02-Flora-fauna-e-paisagens-de-Sao-Paulo-no-ano-de-1500_fig1_355680775

Na “Carta de São Vicente” de 1560, o Padre José de Anchieta apresentou uma das primeiras e mais detalhadas descrições da fauna e flora brasileiras, combinando uma excecional capacidade de observação com a admiração pela biodiversidade da Mata Atlântica. Para Anchieta, o Brasil era como um “jardim em frescura”, onde as árvores atingiam alturas admiráveis e a variedade de espécies era tão vasta que a vista nunca se cansava. Principais elementos descritos por Anchieta:

Fauna (Animais)

Anchieta descreveu uma vasta gama de criaturas, por vezes integrando mitos culturais às suas observações:

Animais Aquáticos e Anfíbios: Destacou o “boi marinho” (peixe-boi), descrevendo o seu tamanho imenso, a pele dura semelhante à do elefante e a utilidade da sua gordura para temperar comida. Mencionou a sucuryúba (sucuri), relatando com espanto a sua capacidade de engolir veados inteiros, e o jacaré, cujas carnes notou terem cheiro de almíscar. Descreveu também a capivara e as lontras.

Mamíferos Terrestres: Relatou a extrema ferocidade das panteras (onças), a lentidão da preguiça e as características peculiares do tamanduá, especialmente a sua língua comprida usada para colher formigas. Mencionou ainda a anta (tapiíra), o gambá (sariquéa) com a sua bolsa abdominal para os filhos, diversas espécies de macacos, o tatu e os veados.

Répteis e Insetos: Listou serpentes venenosas como a jararaca, a cascavel (bóicininga) e a cobra-coral. Sobre os insetos, destacou a organização das formigas (Içâ), que os indígenas costumavam comer torradas, além de diversas espécies de abelhas e mosquitos.

Aves: Notou que os papagaios eram tão comuns como os corvos na Europa. Descreveu o guará e os beija-flores (guainumbî), mencionando a crença de que estes últimos se geravam a partir de borboletas e se alimentavam apenas de orvalho.

Flora (Plantas e Árvores)

A descrição da flora foca-se tanto na exuberância visual como nas utilidades práticas:

Mandioca: Explicou que as suas raízes são venenosas e nocivas por natureza se comidas cruas, mas tornam-se um alimento essencial após serem preparadas.

Árvores de Grande Porte: Descreveu pinheiros de altura estupenda e a sapucaia, cujo fruto comparou a uma panela com tampa trabalhada a torno, contendo no interior inúmeras castanhas.

Plantas Medicinais e Curiosas: Identificou o bálsamo (copaíba), cujo suco é excelente para curar feridas sem deixar cicatrizes, e a “erva-viva” (sensitiva), que fecha as folhas imediatamente ao ser tocada. Também mencionou diversas raízes medicinais usadas como purgantes.

Esta carta é considerada um documento fundamental por detalhar a biodiversidade e o exotismo da fauna e flora no início da colonização, servindo como um dos registos mais completos sobre a Mata Atlântica da época.

Curiosamente, o mesmo homem que entrava mata adentro, com risco de encontrar onças ou de adoecer, escrevia poesia em latim e português, compunha autos teatrais para catequese e redigia a primeira gramática da língua tupi.

Arte de grammática da lingoa mais usada na costa do Brasil 

A sua obra vive deste contraste: por um lado, o intelectual formado nas letras europeias; por outro, o missionário que aprende línguas indígenas, experimenta a carne dos animais que descreve e adapta o seu olhar às realidades da terra nova. Quando compara o canto dos pássaros do Brasil com o dos rouxinóis portugueses, ou quando afirma que certos bosques brasileiros deixam os jardins artificiais de Portugal “muito abaixo”, aproxima dois mundos e convida o leitor a rever a hierarquia tácita entre centro e periferia.

Séculos mais tarde, a Carta de São Vicente seria escolhida como referência para o Dia Nacional da Mata Atlântica, celebrado a 27 de maio, transformando um documento missionário do século XVI em bandeira contemporânea de educação ambiental e preservação.

Cadernos da Reserva da Biosfera da Mata Atlantica, 7

O texto de Anchieta funciona hoje como linha de base histórica para perceber o que se perdeu e o que ainda pode ser salvo: ao comparar a floresta abundante que ele descreve com os fragmentos que restam do bioma, ganha‑se consciência da escala da devastação, mas também da necessidade de conservar o que persiste. Ao mesmo tempo, o facto de a carta integrar campanhas, exposições e séries educativas mostra como a escrita de um jesuíta quinhentista continua a gerar imaginários, mobilizar afetos e sustentar argumentos em defesa da natureza.

Da esquerda para a direita: os animais da Terra Santa segundo as “Peregrinationes in Terram Sanctam” de Bernhard von Breydenbach (1486), o “sátiro” da “Historia Animalium” de Conrad Gesner (1551) e o “orang-outang” da “Historiae Naturalis & Medicae Indiae Orientalis” de Jacobus Bontius (in Piso, 1658).

Ler Anchieta, portanto, é muito mais do que revisitar a história da evangelização do Brasil: é entrar num laboratório vivo onde natureza e cultura, teologia e curiosidade científica, medo e fascínio se entrelaçam. O seu olhar, por vezes ingénuo, por vezes agudamente analítico, revela um Brasil em estado nascente e uma Mata Atlântica ainda quase intacta, mas já sujeita a usos intensivos e conflitos. Para quem se interessa por história ambiental, pela circulação de saberes entre Europa e América ou pela própria tradição jesuíta, as cartas de Anchieta constituem uma porta de entrada privilegiada – uma leitura que, quanto mais se explora, mais perguntas suscita sobre o passado e, talvez mais urgentemente, sobre o futuro deste “jardim em frescura e bosque” que ele nos ensinou a imaginar.

Imagem de José Anchieta da biografia de Simão Vasconcellos, Vida do veneravel padre Ioseph de Anchieta da companhia de jesvs, taumaturgo do novo mundo, na província do Brasil. Lisboa: Ioam da Costa, 1672. Acesso online através de http://www.archive.org

“Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque e não se vê em um dia do o ano árvore nem erva seca. Os arvoredos se vão às nuvens de admirável altura e grossura e variedade de espécies. Muitos dão bons frutos e o que lhes dá graça é que há neles muitos passarinhos de grande formosura e variedade e em seu canto não dão vantagem aos rouxinóis, pintassilgos, colorinos, e canários de Portugal e fazem uma harmonia quando um homem vai por este caminho, que é para louvar ao Senhor, e os bosques são tão frescos que os lindos e artificiais de Portugal ficam muito abaixo”

escreveu o Padre Jesuíta José Anchieta, em 1585.

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VEIGA, Francisca Branco, Um repórter de natureza no século XVI: José de Anchieta e o primeiro retrato da Mata Atlântica (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [23 de Fevereiro de 2026].

Veja, inclusive, sobre o Padre Anchieta
José Anchieta (1534-1597): curiosidades acerca do humanista

https://www.youtube.com/TertuliasPortugalBrasil (Ep. 87)

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18 de fevereiro de 1546: O Último Dia de Martinho Lutero 

Gravura: A vitória da morte, 18 de fevereiro de 1546 (gravura de Pardimel a partir de uma pintura de Labouchère).

Martinho Lutero (Eisleben, 10 de novembro de 1483 – Eisleben, 18 de fevereiro de 1546) foi uma das figuras mais marcantes da História do Cristianismo e protagonista da Reforma que alterou, para sempre, o mapa religioso da Europa.

Profundamente crente e movido por uma inquietação espiritual característica do seu tempo, Lutero interrogava-se sobre o mistério da salvação e o destino eterno do ser humano. Convencido de que nem as boas obras nem as indulgências podiam conduzir à salvação, defendia que apenas a fé em Deus justificava e redimia o homem.

Para Lutero, o caminho da salvação era responsabilidade individual de cada cristão, sustentado unicamente pela fé. As indulgências — práticas tão comuns na Igreja da época — surgiam, aos seus olhos, como uma violação da autêntica doutrina evangélica.

No dia 31 de outubro de 1517, Lutero afixou na porta da catedral de Wittenberg as suas célebres 95 Teses contra as Indulgências, gesto que simbolizou a rutura com Roma e marcou o início oficial da Reforma Protestante.

Em Eisleben, em 1546, terminou a vida de Martinho Lutero, cuja fé e pensamento deixaram marca duradoura na história do cristianismo.
Porta da Igreja do Castelo em Wittenberg, onde Martinho Lutero pregou as suas 95 Teses.

Poucos anos depois, em 1530, o protestantismo afirmava-se doutrinalmente na Confissão de Augsburgo, que sistematizava os princípios fundamentais do luteranismo. Entre as rejeições de Lutero aos dogmas católicos, destacam-se:

– Recusa da autoridade do papa e da hierarquia eclesiástica.

– Supressão do celibato clerical, afirmando a igualdade de todos os crentes pelo Batismo.

– Defesa do sacerdócio universal: todos os fiéis são pastores e servos da Palavra.

– Tradução da Bíblia para as línguas nacionais, tornando-a acessível a todos.

– A Sagrada Escritura como única fonte autêntica de fé e revelação.

– Rejeição do valor das obras na salvação: só a fé em Deus salva.

– Reconhecimento de apenas dois sacramentos: o Batismo e a Eucaristia, praticada sob as duas espécies, o pão e o vinho.

– Recusa do culto à Virgem e aos santos, bem como de determinados ritos considerados inúteis.

– Celebração da missa em língua vulgar, centrada na leitura do Evangelho, no sermão e nos cânticos.

O impacto do movimento luterano foi profundo e imediato, abrindo caminho à rápida expansão do protestantismo e forçando a Igreja Católica a empreender um vigoroso processo de autocrítica e renovação interna — a Reforma Católica ou Contrarreforma.

Martinho Lutero faleceu na sua cidade natal, Eisleben, a 18 de fevereiro de 1546, e encontra-se sepultado na Igreja do Castelo de Wittenberg (Alta Saxónia, Alemanha).

O último escrito preservado de Lutero foi encontrado em cima de uma mesa após a sua morte. O pequeno pedaço de papel continha apenas algumas frases e terminava com estas palavras:

“Somos mendigos. Esta é a verdade.”

Túmulo de Martinho Lutero [Wittenberg,Schlosskirche]

No contexto da Contrarreforma, surgida em resposta ao impacto do protestantismo, a Companhia de Jesus destacou-se como o principal instrumento de renovação e afirmação da Igreja Católica. Fundada por Inácio de Loyola e aprovada pelo Papa em 1540, a ordem jesuíta tornou-se o verdadeiro “braço espiritual do Papa”, dedicada à defesa da fé, à formação intelectual do clero e à evangelização no mundo. O seu dinamismo missionário e disciplina rigorosa fizeram dela um dos pilares do catolicismo reformado, empenhada em reconquistar almas e restaurar a autoridade de Roma.

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VEIGA, Francisca Branco (2026), 18 de fevereiro de 1546: O Último Dia de Martinho Lutero  (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [18 de Fevereiro de 2026].

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Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822-1834)

Francisca Branco Veiga ; José Manuel Subtil

Mergulhe no livro de Francisca Branco Veiga e José Manuel Subtil e descubra como uma devoção mariana, entre 1822 e 1834, se tornou peça-chave na teia de poderes que uniu política, Companhia de Jesus e identidade nacional em Portugal.

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Dive into the book by Francisca Branco Veiga and José Manuel Subtil to uncover how a Marian devotion between 1822 and 1834 became a key piece in the web of powers uniting politics, the Society of Jesus, and national identity in Portugal.

            ÍNDICE

BREVES PALAVRAS AOS LEITORES…………………………………….. 9

INTRODUÇÃO…………………………………………………………………… 15

CAPÍTULO I  

O CONTEXTO DAS CRISES POLÍTICAS………………………………. 21

1. Uma monarquia quase sem rei (1786-1834)………………………. 30

2. A Regência de D. Isabel Maria (1826-1828)……………………… 37

3. As duas Regências no exílio (1829-1834)………………………….. 47

4. Das invasões francesas à revolução (1807-1820)………………… 52

5. A Vila-Francada e a Abrilada (1823-1824)…………………………. 68

6. A turbulência nas elites, mitos e fervores épicos………………. 86

CAPÍTULO II                                                                                          

A POLÍTICA, A RELIGIÃO E A TRADIÇÃO (1822 E 1834)……. 103

1. Nossa Senhora da Rocha: a “Primeira Revolucionária”….. 106

2. D. Maria Teresa, D. Maria Francisca e a causa miguelista 136

3. O Regresso dos Jesuítas: Fé, Política e Aliança Real………. 167

4. Vestes para Nossa Senhora da Rocha……………………………. 189

5. Patriarcas, Jesuítas e Nossa Senhora da Rocha: A Aliança

 Espiritual e Política no Fortalecimento do Trono e do Altar. 195

6. A Companhia de Jesus e o Culto Mariano……………………… 202

CAPÍTULO III                                   

O REINADO DE D. MIGUEL E A COMPANHIA DE JESUS…. 219

1. O Equilíbrio entre Fé e Política no Tempo de Lazer (Oeiras) 224

2. A consagração religiosa (Carnaxide)…………………………….. 232

3. As incumbências da veneração (Laveiras e Barcarena)…… 250

4. O Rei e a devoção à Senhora da Rocha…………………………. 267

5. Forte de São Julião da Barra, refúgio ou prisão?…………….. 277

6. Missão Portuguesa da Companhia de Jesus:

o fim e o princípio de uma nova Era………………………………… 318

CONCLUSÃO……………………………………………………………………. 325

ANEXOS………………………………………………………………………….. 331

1. Cronologia…………………………………………………………………. 333

2. Iconografia………………………………………………………………… 339

3. Um Olhar Fotográfico à Gruta de

Nossa Senhora da Conceição da Rocha……………………………. 357

4. Catálogo dos Padres e Irmãos da MissãoPortuguesa da

Companhia de Jesus, entre 1829 e 1834…………………………….. 359

FONTES E BIBLIOGRAFIA……………………………………………….. 361

ÍNDICE REMISSIVO…………………………………………………………. 393

POSFÁCIO 

Maria Teresa Mónica…………………………………………………………….. 399

NOTAS BIOGRÁFICAS……………………………………………………… 411

INTRODUÇÃO

A história política e institucional de Portugal, entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX (1755–1834), foi marcada por profundas convulsões: o terramoto de 1755, atentado régio, mudanças na condução da Coroa, guerras europeias, invasões, revoluções, contrarrevoluções, violentas disputas ideológicas e uma guerra civil devastadora entre absolutistas e liberais.

Neste contexto, a religião assumiu um papel central, quer como elemento de identidade social e instrumento de legitimação do poder, quer como polo de crítica política, na medida em que resistia e condicionava a transformação do regime.

Este livro propõe-se analisar estas dinâmicas, focando-se na interseção entre política, fé e tradição, com especial destaque para a veneração de Nossa Senhora da Rocha e o papel da Companhia de Jesus no fortalecimento do absolutismo, particularmente durante o reinado de D. Miguel.

A primeira parte do estudo recenseia e examina o período de crise que marcou a transição da monarquia portuguesa entre 1786 e 1834. Trata-se de uma fase marcada pela fragilidade e instabilidade sucessória, desde o afastamento da Rainha D. Maria I até à morte de D. João VI, passando por sucessivas regências e pela complexa conjuntura resultante da transferência da Corte para o Rio de Janeiro e posterior regresso ao Reino, após a revolução que reclamava uma monarquia constitucional.

Se a fugaz regência de D. Isabel Maria (1826-1828), após a morte de D. João VI, procurou gerir este vazio de poder, o certo é que foi incapaz de impedir a radicalização política entre absolutistas e liberais, não evitando o regresso ao poder dos absolutistas com o reinado de D. Miguel (1828-1834).

A reação dos liberais, com a criação de uma regência no exílio (1829-1834), organizaria a contestação ao governo de D. Miguel, sustentando uma resistência que levaria à Guerra civil. E, no contexto europeu, as intervenções das grandes potenciais desencadeariam, também, uma frente diplomática que foi explorada por absolutistas e liberais. 

Como se verá, os episódios da Vila-Francada e da Abrilada (1823-1824) foram centrais por demonstrarem como o regresso ao absolutismo gerou reações imediatas, expondo as divisões nas elites políticas e militares e fomentando mitos e discursos épicos que fortaleceram diferentes fações e alimentaram o fervor político, tornando evidente que as lutas pelo poder não eram apenas militares, mas também políticas, simbólicas e ideológicas.

Neste ambiente político e cultural, a fação miguelista adotou uma forte adesão a convicções religiosas, utilizando a fé para combater os “pedreiros livres”, acusados de paganismo e de ameaçar os valores cristãos e nacionalistas.

Justifica-se, assim, nesta primeira parte do livro, uma inventariação dos fatores que causaram a persistente crise política, militar, religiosa e social para entendermos a real inclusão do fenómeno da devoção a Nossa Senhora da Rocha como recurso religioso na luta antiliberal.

O argumento principal da obra desenvolve-se em torno do papel da religião como fator de legitimação do poder político e de resistência ideológica nos confrontos entre absolutistas e liberais. A devoção a Nossa Senhora da Rocha assume-se como um fenómeno central, sendo interpretada por muitos como uma manifestação do apoio divino à causa miguelista. Por esta razão, Nossa Senhora da Rocha é aqui apresentada como a “Primeira Revolucionária”, uma figura que inspirava lealdade e compromisso num período de profunda incerteza.

Neste âmbito, destacam-se as ações de D. Maria Teresa e D. Maria Francisca, figuras femininas influentes que desempenharam um papel crucial na defesa do trono e do altar. Paralelamente, o regresso dos Jesuítas a Portugal representou não apenas uma reabilitação da Ordem religiosa, mas também uma tentativa de reforçar a aliança entre fé e política, num esforço para consolidar o poder absolutista.

A simbologia religiosa materializou-se ainda na elaboração de vestes para Nossa Senhora da Rocha, um gesto que transcendia o ato de veneração e assumia um significado político. O apoio da hierarquia eclesiástica a D. Miguel reforçou-se através da ação dos patriarcas e Jesuítas, consolidando uma aliança entre o trono e a Igreja que visava restaurar a ordem tradicional. Neste sentido, a Companhia de Jesus e o culto mariano surgiram como pilares fundamentais na construção de uma identidade absolutista sustentada pela fé.

Aborda-se o reinado de D. Miguel e o papel da Companhia de Jesus na sua política religiosa. A devoção régia manifestava-se não só em atos públicos, mas também nos momentos de lazer, como ilustram as atividades do rei em Oeiras, onde fé e política se entrelaçavam no quotidiano da corte.

A consagração religiosa, realizada em Carnaxide, território de Oeiras, representou um momento de reforço da autoridade do rei enquanto defensor da fé. A veneração a Nossa Senhora da Rocha estendeu-se a diferentes localidades, e as incumbências dos missionários Jesuítas em Laveiras e Barcarena ilustram a forma como a religião era incorporada na organização do poder político e na mobilização das populações.

O próprio rei cultivava uma relação direta com a devoção à Senhora da Rocha, utilizando a simbologia religiosa como meio de reforçar a sua posição num contexto de resistência ao liberalismo. No entanto, a sua trajetória política culminou num desfecho dramático, com a derrota do absolutismo e o seu exílio. O Forte de São Julião da Barra, onde os Jesuítas foram, por consequência do seu apoio a D. Miguel, mantidos sob vigilância antes de partir para o exílio, simboliza o fim de uma era e o triunfo do novo regime liberal.

A investigação que sustenta este livro assenta numa seleção criteriosa de fontes manuscritas e impressas, provenientes de arquivos nacionais e internacionais, que permitem uma abordagem rigorosa e multifacetada do período entre 1822 e 1834. Destacam-se, entre outros, os fundos do Arquivo Nacional Torre do Tombo, do Arquivo Municipal de Lisboa, do Arquivo Histórico Militar, do Arquivo Histórico Parlamentar, da Biblioteca Nacional de Portugal, do Museu Imperial de Petrópolis, bem como acervos da Companhia de Jesus em Portugal e no estrangeiro. A estes somam-se legislação, periódicos da época, dicionários biográficos e históricos, e obras de referência sobre a história política, religiosa e social de Portugal e do Brasil no século XIX. Esta diversidade documental permite não só reconstruir os acontecimentos e as mentalidades do tempo, como também situar o culto de Nossa Senhora da Rocha no contexto das dinâmicas políticas, religiosas e institucionais do período, conferindo à presente obra um carácter original e solidamente fundamentado, em sintonia com o “estado da arte” da investigação histórica.

Em suma, este estudo analisou como as crises políticas e sociais do século XIX moldaram a relação entre o Estado e a Igreja, evidenciando a instrumentalização da religião como meio de legitimação e sustentação de projetos de poder. A devoção a Nossa Senhora da Rocha e o papel da Companhia de Jesus emergem como elementos centrais na confrontação entre absolutistas e liberais, ilustrando a complexa interdependência entre fé, política e tradição.

Aristóteles já afirmava: «A introdução é aquilo que não pede nada antes, mas que exige algo depois». Por isso, o presente trabalho visa aprofundar a compreensão do papel da religião nas dinâmicas políticas portuguesas do início do século XIX, demonstrando que a fé ultrapassou a mera manifestação espiritual para se tornar um instrumento decisivo na disputa pelo poder e na construção da identidade nacional num período especialmente conturbado da história de Portugal.

Podemos concluir que, nas primeiras décadas do século XIX, a tríade composta por Nossa Senhora da Rocha, fé e poder assumiu um papel fulcral na definição da identidade política e religiosa da época — cabendo agora ao leitor, após a leitura, ponderar sobre as complexas interações entre estes elementos e o seu impacto na história nacional.

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Francisca Branco Veiga e José Manuel Subtil, Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822–1834) Introdução. Ed. Autor, 2025.

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Quando os Elefantes Sustentam a Eternidade: Dos Jerónimos à Cotovia

D. Sebastião e Fernão Teles de Meneses partilham a mesma gramática simbólica nos seus túmulos: um corpo piramidal assente sobre elefantes, onde a pedra se converte em memória e a morte em narrativa de glória.

O rei que não voltou

  • D. Sebastião morreu na batalha de Alcácer Quibir, em agosto de 1578, tendo o seu corpo sido reconhecido no campo de batalha por fidalgos portugueses que juraram novamente sobre o cadáver já em Lisboa, no Convento do Carmo.
  • Entregue por Mulei Ahmed em Ceuta, em dezembro desse mesmo ano, o corpo foi depositado na Capela de Santiago, na Igreja da Trindade, antes de Filipe I ordenar, em 1582, a trasladação para a Igreja de Santa Maria de Belém, onde ainda hoje repousa numa das capelas laterais do cruzeiro.

A pirâmide de um rei

  • O túmulo de D. Sebastião, mandado executar por D. Pedro II em 1682 e atribuído a Mateus do Couto, ergue-se como uma pirâmide de mármore, rematada pela coroa e pela cruz, apoiada em dois elefantes que parecem sustentar o peso do reino perdido em África.
  • Estes elefantes, eco dos animais exóticos trazidos do Oriente, simbolizavam poder, memória e o alargamento do mundo português, levando o jovem rei “nos ombros” até à eternidade e alimentando a lenda daquele que, morto de forma tão concreta, continuou a ser esperado como Encoberto.

Túmulo de D. Sebastião (pormenor)

O fundador da Cotovia

  • Quase quarenta anos depois da morte de D. Sebastião, outro português sonhador, Fernão Teles de Meneses, investia a sua fortuna na fundação do noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus, cuja primeira pedra foi lançada em 23 de abril de 1603, ricamente ornamentada e com moedas devotas no interior.
  • Morreu a 26 de janeiro de 1605, e a sua viúva, D. Maria de Noronha, mandou erguer um mausoléu de grande aparato para a capela‑mor da nova igreja, pagando 3 000 cruzados para que os ossos do marido, guardados provisoriamente em S. Roque, tivessem morada definitiva junto ao altar.

A “cópia” jesuíta do modelo régio

  • O túmulo de Fernão Teles e de sua esposa, hoje no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, retoma quase literalmente o modelo régio de Santa Maria de Belém: uma arca lisa, de mármore rosado, encimada por estrutura piramidal e assentando em dois elefantes de mármore cinzento‑escuro, provavelmente segundo traça de Pedro Nunes Tinoco.
  • Tal como nos Jerónimos, os elefantes indianos funcionam como pedestais exóticos da santidade social do fundador, traduzindo nas regras da Companhia de Jesus – que exigiam a presença do túmulo do benfeitor na capela‑mor – a mesma gramática visual de poder, gratidão e eternidade reservada aos reis.

Túmulo de Fernão Teles de Meneses (pormenor)

Duas vidas, um mesmo pedestal

  • O rei guerreiro que morreu em Alcácer Quibir e o fidalgo que preferiu “construir” noviços para o futuro partilham assim a mesma arquitetura de eternidade: ambos sobem, em mármore, por uma escadaria piramidal para a coroa ou para o brasão, erguidos sobre elefantes que evocam os mundos descobertos e o peso da História.
  • Na capela‑mor dos Jerónimos e na antiga igreja do noviciado da Cotovia (hoje MNHNC), estes túmulos contam uma narrativa silenciosa: em Portugal, tanto a realeza como o grande fundador e mecenas da Casa de Provação jesuíta caminhavam para Deus pelos mesmos degraus de pedra, sustentados pelos mesmos animais fabulosos, como se o Império e a fé partilhassem o mesmo chão e a mesma promessa de memória sem fim.

Faz este mês de dezembro de 2025, 443 anos sobre a trasladação solene que fixou em Belém o lugar definitivo de memória de D. Sebastião, por decisão de Filipe I, rei que então unia na sua pessoa as coroas de Portugal e de Espanha.

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VEIGA, Francisca Branco (2025), Quando os Elefantes Sustentam a Eternidade: Dos Jerónimos à Cotovia (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [22 de dezembro de 2025].

In VEIGA, Francisca Branco, Noviciado da Cotovia 1619-1759 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [22 de dezembro de 2025].

O livro encontra-se disponível para aquisição em formato físico na Amazon, e convido todos a conhecerem esta parte fascinante da nossa história.

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Apresentação do livro “Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822–1834)”

O Palácio Nacional de Queluz recebe Francisca Branco Veiga e José Manuel Subtil para o lançamento do livro Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822–1834)

No próximo dia 27 de novembro, pelas 19h00, o Palácio Nacional de Queluz acolhe a sessão de lançamento do livro Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822–1834), de Francisca Branco Veiga e José Subtil.

O livro conta ainda com um excelente posfácio da historiadora Teresa Mónica, que enriquece e aprofunda a reflexão sobre este período singular da história de Portugal.

A obra apresenta uma análise aprofundada das complexas tensões políticas e religiosas que marcaram Portugal no início do século XIX. No primeiro capítulo, o Doutor José Manuel Subtil contextualiza essas crises, desde as invasões francesas até às regências e revoluções que moldaram o panorama político da época. Já nos segundo e terceiro capítulos, da autoria da Doutora Francisca Branco Veiga, é explorado o papel central do culto mariano de Nossa Senhora da Rocha, evidenciando-o como símbolo de poder político e espiritual, associado ao miguelismo e à influência da Companhia de Jesus.

Baseado em documentação inédita, este livro convida o leitor a revisitar um período crucial da história portuguesa, revelando como fé, política e tradição se entrelaçaram durante o reinado de D. Miguel. A devoção a Nossa Senhora da Rocha surge, assim, como expressão de resistência e afirmação da identidade nacional, com ecos que perduram até aos nossos dias.

🌿 Uma oportunidade única para descobrir como devoção e identidade nacional se entrelaçaram na construção da história de Portugal, num cenário inspirador como o Palácio Nacional de Queluz.

A sessão contará com a abertura e boas-vindas do Doutor António Nunes Pereira, Diretor dos Palácios de Sintra, e com a participação dos autores, a Doutora Francisca Branco Veiga e o Doutor José Manuel Subtil.

Um agradecimento especial ao Doutor Hugo Xavier, Conservador do Palácio Nacional de Queluz, pelo acolhimento deste evento.

Detalhe artístico

A capa do livro e os separadores dos capítulos são da autoria da ilustradora e designer Rita Machado (https://ameliemoncherie.com/) , cuja criação reflete a sensibilidade histórica e simbólica da obra.

🤍 Esperamos por si nesta celebração da história, fé e cultura!

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Sobre o Palácio Nacional de Queluz

O Palácio Nacional de Queluz, atualmente sob a gestão da Parques de Sintra – Monte da Lua desde 2012, integra-se no conjunto dos mais relevantes monumentos históricos da esfera nacional. A sua construção teve início em 1747, inicialmente concebido como retiro de verão para o então futuro D. Pedro III. Posteriormente, o palácio transformou-se em residência habitual da família real portuguesa, sendo palco de significativos acontecimentos políticos e culturais.

Destaca-se, neste contexto, a permanência de D. João VI e do seu núcleo familiar antes da emigração para o Brasil, tendo a residência igualmente acolhido figuras de relevo, nomeadamente a rainha Carlota Joaquina e seu filho, D. Miguel. O edifício é reconhecido como um dos melhores exemplares da arquitetura rococó em Portugal e na Europa, integrando também elementos devidamente tipificados como barrocos e neoclássicos.

O Palácio Nacional de Queluz mantém-se, atualmente, como referência incontornável na preservação, estudo e divulgação do património histórico português. Foi classificado como Monumento Nacional em 1910 e, após ter sofrido um severo incêndio em 1934, foi exaustivamente restaurado, tendo sido aberto ao público como museu em 1940.

Como referir este texto:

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Francisca Branco Veiga e José Manuel Subtil, Nossa Senhora da Rocha e a Companhia de Jesus: Política, Devoção e Tradição (1822–1834). Ed. Autor, 2025.

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Joseph de Maistre e a Defesa dos Jesuítas na Rússia

Joseph de Maistre (1753-1821), pensador contrarrevolucionário e ultramontanista

Conde Joseph-Marie de Maistre (Saboia, 1 de abril de 1753 – Turim, 26 de fevereiro de 1821)
Carl Christian Vogel; 26 June 1788 – 4 March 1868)
1810

No domínio da religião, Joseph de Maistre foi um dos proponentes mais influentes do pensamento contrarrevolucionário ultramontanista no período imediatamente seguinte à Revolução Francesa. Este pensador francês é autor da célebre frase «Toute nation a le gouvernement qu’elle mérite» (“Toda a nação tem o governo que merece”), com a qual defendia a autoridade estabelecida anterior à Revolução francesa em todos os domínios: no Estado, enaltecendo a monarquia; na Igreja, enaltecendo os privilégios do papado; e no mundo, glorificando a providência divina.

A reflexão: «Toute nation a le gouvernement qu’elle mérite» (“Toda a nação tem o governo que merece”), ideia que exprimiu numa carta de 1811, reflete de forma sintética o seu pensamento filosófico e político. Apesar da sua dureza, o axioma transcende rótulos e épocas: pode ser assumido por qualquer corrente, já que põe em causa a responsabilidade coletiva de um povo pelo regime sob o qual vive, seja ele justo ou injusto, em qualquer tempo e lugar.

A sua reação à Revolução e ao Iluminismo encontra-se caracterizada, segundo o historiador José Miguel Nanni Soares, “por uma excêntrica interação entre ‘jesuitismo’, iluminismo e filosofia das Luzes”. Esta aparente contradição revela a complexidade do pensamento de Maistre e a forma como conjugou diferentes correntes intelectuais para fundamentar as suas posições políticas e religiosas.

Joseph de Maistre era igualmente um vigoroso defensor da restauração do Reino da França, que considerava uma instituição legitimada por uma inspiração divina, intrinsecamente ligada à ordem natural do mundo. Sustentava que só o retorno à velha monarquia, sustentada por valores históricos e religiosos, poderia devolver estabilidade à nação após o abalo provocado pela Revolução Francesa.

Para além do seu ultramontanismo, Maistre argumentava de modo enfático a favor da supremacia do Papa não apenas em assuntos religiosos, mas também no campo político, advogando que a autoridade pontifícia representava um último baluarte contra o caos revolucionário. Segundo o seu entendimento, apenas regimes fundados na constituição cristã — enraizada nos costumes, instituições e tradições das principais sociedades europeias, especialmente nas monarquias católicas — seriam capazes de evitar as convulsões e violências que acompanham a implementação de projetos racionalistas.

A defesa entusiasta da autoridade estabelecida, que a revolução procurava destruir, expressava-se de modo abrangente: no Estado, ao promover a monarquia; na Igreja, ao valorizar os privilégios do papado; e, em última análise, no mundo, ao exaltar a providência divina como estrutural à ordem social e política

O apoio aos jesuítas na Rússia

Durante o período da supressão da Companhia de Jesus na Europa, os jesuítas encontraram na Rússia um raro refúgio, graças à proteção concedida inicialmente pela imperatriz Catarina II e, mais tarde, pelos seus sucessores. Nesta época, foram autorizados a manter as suas obras educativas e espirituais, chegando a transformar o Colégio de Polotsk em Academia pela autorização do czar Alexandre I em 1812. 

Tadeusz Brzozowski, (21 de outubro de 1749 – 5 de fevereiro de 1820) 

O envolvimento de Maistre com a Companhia de Jesus tornou-se particularmente evidente durante a sua permanência em São Petersburgo como embaixador do Reino da Sardenha. Em outubro de 1811, o padre Tadeusz Brzozowski, novo Superior da Ordem na Rússia, solicitou ao conde Razumovsky e ao príncipe Alexander Golitsyn (superprocurador do Santo Sínodo) autorização para que a escola de Polotsk adquirisse o estatuto de universidade autónoma, tornando-se assim o centro administrativo das instituições de ensino jesuíticas.

Academia de Polotsk (Colégio Jesuíta de Polotsk). Diário de guerra, 24 de julho de 1812, aquando da passagem do exército napoleónico por Polotsk. In 1: “Vom Ausmarsch bis Moskau”. Propriedade de Christian von Martens (1793-1882).  

Para reforçar a petição dos jesuítas, Maistre endereçou em 19 de outubro uma Mémoire sur la liberté de l’enseignement public (Memória sobre a liberdade do ensino público) a Golitsyn. Neste documento, o pensador defendia a utilidade político-pedagógica dos padres jesuítas – ferrenhos opositores daqueles que pretendiam derrubar os tronos e a cristandade – e criticava o monopólio estatal do ensino público.

Este episódio ilustra bem o compromisso de Joseph de Maistre com a causa jesuítica num momento em que a Companhia de Jesus se encontrava suprimida na maior parte da Europa. A Rússia constituía então um dos poucos refúgios onde a ordem podia continuar a existir legalmente, situação que se manteria até à restauração universal da Companhia em 1814.


Referências:

MAISTRE, Joseph de – Lettre à Monsieur le Chevalier de… 15 août 1811. In Lettres et opuscules inédits : précédés d’une notice biographique, par son fils, Rodolphe de Maistre, volume I, 1851.

MAISTRE, Joseph Marie, Conde de; BLANC, Alberto, Barão (ed.) – Correspondance diplomatique, tome 2. Paris: Michel Lévy frères, 1860, p.196.

PINHO, Arnaldo – “Portugal no contexto Eclesial Europeu, por alturas de 1820 a 1850”. In Catolicismo e liberalismo em Portugal: (1820-1850). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2009, p. 619.

SOARES, José Miguel Nanni – Considérations sur la France de Joseph de Maistre, Revisão (historiográfica) e Tradução, Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009, pp. 5 e 79-80.

Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco (2025), Joseph de Maistre e a Defesa dos Jesuítas na Rússia (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [26 de outubro de 2025].

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O 5 de Outubro de 1910 e as Reações Contra as Ordens Religiosas

Litografia colorida, da autoria de Cândido da Silva (?) alusiva à revolução que deflagrou na noite de 3 de Outubro de 1910, em Lisboa, e que conduziu à proclamação da República Portuguesa 

A monarquia portuguesa manteve-se em vigor até Outubro de 1910, tendo como último soberano D. Manuel II, que subira ao trono em 1908, na sequência do regicídio que vitimou o seu pai, D. Carlos I, e o seu irmão, o Príncipe Real D. Luís Filipe.

No dia 4 de Outubro de 1910, perante as movimentações militares e populares que indicavam a iminente implantação da República, e num contexto de forte instabilidade política e social em Lisboa, o monarca decidiu afastar-se da capital. Partiu inicialmente para Mafra, onde se encontrava parte da guarnição real, seguindo depois para a Ericeira, de onde embarcou rumo a Gibraltar. Pouco tempo depois, fixou residência em Inglaterra, país que o acolheu até ao fim da sua vida.

A partida de D. Manuel II simbolizou o término de mais de sete séculos de monarquia em Portugal e marcou o início de uma nova etapa na história nacional — a Primeira República.

“Expulsão dos jesuítas em 10 de Outubro de 1910”. Bilhete postal com ilustração satírica alusiva às políticas anti-clericais de Afonso Costa.

O gesto do retratado e a composição espacial são apropriados do óleo de Louis-Michel van Loo que retrata o Marquês de Pombal – traçando com este um paralelo nas políticas anti-clericais. Data:  1910.

A Implantação da República, a 5 de Outubro de 1910, é um dos marcos mais importantes da história contemporânea portuguesa. Porém, além da mudança de regime político, esse dia e os seguintes foram também palco de episódios de tensão entre o novo poder republicano e as instituições religiosas. Este artigo revisita esses acontecimentos e analisa o impacto das medidas que viriam a definir as novas relações entre o Estado e a Igreja em Portugal.

O contexto e os acontecimentos

Na manhã de 5 de Outubro de 1910, registaram-se vários episódios de hostilidade dirigidos a instituições religiosas, em particular à Companhia de Jesus. O colégio dos jesuítas de Campolide foi invadido, tendo sido detidos o reitor, Padre Alexandre de Faria Barros, vários professores religiosos e alguns empregados. Os detidos foram conduzidos ao quartel de Artilharia 1, onde foram identificados e posteriormente enviados para o Limoeiro. Por razões de segurança, acabaram transferidos para Caxias, acompanhados por uma multidão que assistiu ao percurso.

Em Torres Vedras, o colégio do Barro foi alvo de uma busca com o objetivo de encontrar documentos considerados comprometedores. O episódio ficou marcado por atos de desordem e vandalismo. Em Setúbal e em Vale de Rosal ocorreram igualmente invasões a residências pertencentes a religiosos, conduzidas por grupos armados. Na época, os jesuítas eram frequentemente identificados como opositores à nova ordem republicana, sendo acusados de dificultar a difusão dos ideais democráticos.

As ações prolongaram-se nos dias seguintes. O convento dos Quelhas foi revistado por populares e por elementos da cavalaria, que procuravam armas e explosivos. O convento das Trinas também foi alvo de uma invasão, tendo sido evitados incidentes de maior gravidade. Estes acontecimentos decorreram num contexto de forte tensão política e social, marcado pela transição do regime monárquico para o republicano e por um acentuado anticlericalismo em alguns setores da sociedade.

A Lei da Separação

Afonso Costa assina a Lei de Separação da Igreja e do Estado, a 20 de Abril de 1911.

A 20 de Abril de 1911, o Governo Provisório da República aprovou a Lei de Separação do Estado das Igrejas, redigida por Afonso Costa, então ministro da Justiça e dos Cultos. Publicada no Diário do Governo nº 92 do dia seguinte, a lei consolidou juridicamente a separação entre as instituições religiosas e o Estado português. Inspirada pelos princípios do laicismo e da liberdade de consciência, visava limitar a influência clerical nas esferas política, social e educativa, tanto no território continental como no ultramarino.

O 5 de Outubro de 1910 marcou, assim, não apenas a mudança de regime político em Portugal, mas também o início de uma nova fase nas relações entre o Estado e a Igreja. A partir desse momento, consolidou-se uma política laica que procurou redefinir o papel da religião na sociedade portuguesa, estabelecendo as bases de um Estado moderno e secular.

A Lei é constituída por sete capítulos:

I – Da Liberdade de consciência e de culto;

II – Das corporações e entidades encarregadas do culto;

III – Da fiscalização do culto público;

IV – Da propriedade e encargos dos edifícios;

V – Do destino dos edifícios e bens;

VI – Das pensões aos ministros da religião catholicos;

VII – Disposições geraes e transitorias

“O Século: suplemento humorístico”, 8 de dezembro de 1910.

O Decreto de 8 de Outubro de 1910 e a Expulsão das Congregações Religiosas

Poucos dias após a Implantação da República, o novo governo português iniciou um conjunto de medidas destinadas a reorganizar as relações entre o Estado e a Igreja. Entre as primeiras decisões destacou-se o decreto de 8 de Outubro de 1910, que retomou antigas leis relativas à expulsão das ordens religiosas e determinou a incorporação dos seus bens na posse do Estado.

Contexto e conteúdo do decreto

O decreto com força de lei, datado de 8 de Outubro de 1910 e emitido pelo Ministério da Justiça, estabelecia a continuação em vigor de três diplomas históricos: as leis de 3 de Setembro de 1759 e de 28 de Agosto de 1767, referentes à expulsão dos jesuítas, e a lei de 28 de Maio de 1834, que determinava o encerramento dos conventos. Ao mesmo tempo, o novo decreto revogava o de 18 de Abril de 1901, que tinha autorizado a constituição de congregações religiosas durante a Monarquia Constitucional.

Com esta medida, o governo republicano procurava reforçar a política de laicização do Estado e a separação entre as instituições religiosas e a esfera pública. Nas semanas seguintes, foram publicados vários decretos e portarias complementares que designaram comissões responsáveis por proceder ao arrolamento dos bens das congregações, à aposição de selos e à sua integração progressiva no património do Estado.

Destino dos bens e impacto imediato

O processo de arrolamento visava garantir que os bens das congregações passassem legalmente para a posse pública. No entanto, na prática, parte desse património acabou por não permanecer sob administração estatal. Alguns imóveis e propriedades foram alienados, vendidos ou transferidos para particulares, nem sempre de forma centralizada ou regulamentada.

O decreto de 8 de Outubro de 1910 representou, assim, uma das primeiras medidas estruturais do novo regime republicano, ao reafirmar a separação entre o poder civil e o religioso e ao retomar legislação de séculos anteriores, adaptando-a ao contexto político do início do século XX.

1910-10-10 – Expulsão dos jesuítas, encerramento dos conventos, congregações religiosas, colégios, etc., e os todos os seus bens declarados pertença do Estado, etc – in Diário do Governo (Decreto de 8 de Outubro de 1910)
https://www.estudosportugueses.com/uploads/1/1/3/4/113423301/1910-10-10_-_dg_-_expulsao_dos_jesu%C3%ADtas_e_encerramento_dos_conventos_etc.pdf

Conclusão

A aprovação deste decreto consolidou juridicamente a posição da República face às ordens religiosas, antecipando a Lei de Separação do Estado das Igrejas, promulgada em 1911. As medidas tomadas a partir de Outubro de 1910 definiram o rumo das políticas religiosas da Primeira República e tiveram um impacto duradouro na organização social, política e patrimonial do país.

VER, INCLUSIVE, Outono de 1910 a Companhia de Jesus foi pela terceira vez expulsa de Portugal. In https://franciscabrancoveiga.com/2024/08/06/outono-de-1910-a-companhia-de-jesus-foi-pela-terceira-vez-expulsa-de-portugal/

Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco (2024), O 5 de Outubro de 1910 e as Reações Contra as Ordens Religiosas (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [6 de Agosto de 2024].

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Exílio e Igreja del Gesù: Os Jesuítas Portugueses em Génova, 1834

A igreja é conhecida como Chiesa del Gesù ou Chiesa dei Santi Ambrogio e Andrea, em referência ao seu fundador do século VI, o bispo Honorato de Milão, que se refugiou em Génova para escapar às perseguições dos lombardos.

O edifício localiza-se numa zona que, durante a Idade Média, era conhecida como o bairro dos vendedores de aves, como testemunha a vizinha Salita Pollaiuoli. Abandonada no século VII pela comunidade milanesa, a igreja foi entregue à Companhia de Jesus no século XVI, sendo reconstruída entre 1552 e 1589.

Localiza-se no coração de Génova, diante da Piazza Matteotti e nas imediações da Piazza De Ferrari. A sua localização central, aliada ao contraste entre a sobriedade da fachada e a monumentalidade do interior, reflete não apenas a importância da presença jesuíta em Génova desde meados do século XVI, mas também a tensão simbólica entre a simplicidade exterior exigida nos primórdios da Companhia de Jesus e a riqueza decorativa que veio a caracterizar os seus espaços litúrgicos.

Após a chegada da Companhia de Jesus a Génova, em 1552, o edifício foi-lhe confiado, tendo sido profundamente reformulado a partir de 1589, com base num projeto de Giuseppe Valeriano, arquiteto jesuíta responsável também pela concepção da Igreja del Gesù Nuovo, em Nápoles. O financiamento da reconstrução esteve a cargo da influente família Pallavicini, cujo apoio consolidou o prestígio da Ordem na cidade.

A planta da igreja foi inspirada no modelo da Santa Maria Assunta em Carignano, obra de Galeazzo Alessi, caracterizando-se originalmente por um traçado quadrado e cinco cúpulas. Estas cúpulas, ou zimbórios, apresentam-se encimadas por lanternas superiores com janelas, frequentemente associadas a um nível inferior de lucarnas, que garantem a iluminação natural do espaço litúrgico. Posteriormente, foi adicionada uma baía junto à entrada principal, o que alterou a configuração original para uma planta rectangular, como é possível observar na gravura publicada por Peter Paul Rubens na sua obra Palazzi di Genova.

O interior da igreja revela um programa iconográfico de grande coerência e riqueza, reunindo obras de figuras centrais do barroco italiano e flamengo. Três obras-primas encontram-se alojadas no seu interior: duas de Peter Paul Rubens — A Circuncisão (1608, no altar-mor) e São Inácio curando uma mulher possuída (terceira capela do corredor esquerdo) — assim como uma de Guido Reni, A Suplição (terceira capela do corredor direito).

A fachada, datada do século XIX, foi reconstruída com base em desenhos de Rubens, após a demolição de uma estrutura que ligava a igreja ao Palazzo Ducale.

Apresenta atualmente um esplendor multicolorido, típico do barroco genovês.

A Partida dos Jesuítas Portugueses para Génova em 1834

Sentindo que o momento de partir finalmente chegara, os missionários jesuítas começaram a organizar cuidadosamente a sua saída de Lisboa, conscientes da delicada situação política que se desenrolava no país. Entre eles destacavam-se os padres Boulogne, Palavicini e o padre superior Delvaux, figuras de grande importância na missão jesuítica portuguesa. Inicialmente, pretendiam embarcar num navio de guerra inglês que se encontrava estacionado no rio Tejo, de modo a acompanhar mais de perto o desenrolar dos acontecimentos políticos e garantir uma saída segura.

No entanto, antes que pudessem seguir esse plano, foram convocados pelo Núncio Apostólico, que os acolheu junto de si durante alguns dias, em ambiente de precaução e cuidado. A autoridade eclesiástica, consciente da delicada conjuntura, solicitou então os seus passaportes junto do governo português e pediu-lhes que o acompanhassem numa viagem discreta e protegida, visando evitar maiores riscos.

Assim, no dia 4 de agosto de 1834, partiram a bordo de um brigue genovês fretado pelo próprio Núncio, rumando para Génova. A viagem durou cerca de duas semanas, e embora tenham chegado às proximidades da cidade a 17 de agosto, só lhes foi possível entrar em Génova no dia 1 de setembro. Segundo registos do padre Carayon, o Superior da Missão Portuguesa nutria inicialmente a intenção de desembarcar num porto espanhol e dali seguir para Coimbra, para se juntar aos religiosos que ainda permaneciam em território português e compartilhar o destino da missão.

Porém, devido à persistência do surto de cólera em Portugal, o capitão do brigue recusou-se a aproximar-se das costas espanholas, temendo o atraso que uma quarentena obrigatória poderia acarretar. Consequentemente, viram-se obrigados a prolongar a viagem e seguir diretamente até Itália, onde finalmente puderam desembarcar com relativa segurança. Desta forma, os jesuítas que partiram de Portugal em 1834 enfrentaram não só os desafios políticos e religiosos da época, mas também os obstáculos sanitários que marcavam o contexto europeu naquele momento, encontrando em Génova um novo ponto de partida para a sua missão.

A presente reportagem fotográfica, da autoria de André Branco Veiga (André Veiga), regista com detalhe a riqueza arquitetónica e artística da Igreja del Gesù, constituindo um complemento visual ao texto apresentado.

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VEIGA, Francisca Branco, Exílio e Igreja del Gesù: Os Jesuítas Portugueses em Génova, 1834 (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [12 de julho de 2025].

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Entre o Triunfo e o Silêncio: Imaginário e Realidade nas Missões Jesuítas

A “Alegoria do Triunfo dos Jesuítas nas Quatro Partes do Mundo” é uma pintura de grandes dimensões, datada do século XVIII e de autoria anónima, localizada na Igreja de São Pedro, em Lima, no Peru. Esta obra insere-se no contexto do pós-Concilio de Trento (1545–1563), um período em que a Igreja Católica respondeu de forma vigorosa à Reforma Protestante, nomeadamente à sua tendência iconoclasta, através da valorização da imagem como instrumento de ensino e doutrinação religiosa.

Alegoria do triunfo dos jesuítas nas quatro partes do mundo.
Anónimo, século XVIII.
Igreja de São Pedro, Lima (Peru).

A imagem adquire, assim, um papel crucial na estratégia da Igreja, sendo utilizada para transmitir conteúdos teológicos de forma acessível e apelativa às populações. Neste esforço de reafirmação católica, destaca-se a Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola em 1540 e considerada a vanguarda da renovação eclesiástica. Dotada de um forte espírito de disciplina e obediência ao Papa, a Companhia combinava uma elevada sofisticação intelectual com uma ação pragmática e missionária, focada nas zonas onde a presença da fé católica era mais necessária.

A pintura alegórica de Lima reflete de forma clara esta vocação missionária e universal dos jesuítas. Representa, simbolicamente, a sua ação evangelizadora nas quatro partes do mundo então conhecidas — Europa, Ásia, África e América — evidenciando o ideal de cristianização e “humanização” dos povos através da fé. A própria Ordem reconhece, na atualidade, que esta obra expressa o seu projeto teológico e evangelizador, assente na transformação espiritual e cultural das populações indígenas.

Apesar do prestígio e influência da Companhia de Jesus, esta viria a ser suprimida em 1773 pelo Papa Clemente XIV e só seria restaurada em 1814 por Pio VII. A expulsão dos jesuítas de Espanha e das suas colónias, decretada por Carlos III em 1767 no contexto das reformas ilustradas dos Bourbons, marcou o início do declínio da sua presença nas Américas. Ainda assim, obras como esta pintura continuam a testemunhar o papel decisivo da Companhia na propagação da fé católica e na construção de um império espiritual global, através de uma sofisticada linguagem visual e simbólica.

As grandes missões ad gentes da Companhia de Jesus

Desde a sua fundação, a Companhia de Jesus assumiu uma vocação marcadamente missionária, centrada na difusão da fé cristã junto de povos não europeus, numa lógica universal e profundamente comprometida com o ideal de evangelização global. Estas missões, conhecidas como ad gentes — expressão latina que significa “para os povos” —, constituíam uma resposta direta ao apelo da Igreja pós-tridentina para levar o Evangelho aos confins do mundo, promovendo não apenas a conversão, mas também a dignificação e educação dos povos contactados.

A ação missionária dos jesuítas destacou-se tanto pela sua ousadia geográfica como pela sofisticação do seu método. Um dos exemplos mais emblemáticos foi a missão de São Francisco Xavier, que levou a fé cristã a territórios tão diversos como a costa oriental de África, a Índia, o Sudeste Asiático, o Japão e a China. O seu trabalho, para além do esforço de evangelização, revelou uma notável sensibilidade à diversidade cultural, procurando dialogar com as tradições locais em vez de simplesmente as substituir.

Na América, o labor jesuíta foi igualmente marcante, sobretudo nas chamadas reduções jesuíticas do sul do Brasil, do Paraguai e da Argentina. Estas missões eram comunidades organizadas que visavam proteger os povos indígenas da exploração colonial, ao mesmo tempo que os instruíam na fé cristã e em saberes práticos. A experiência das reduções, única no seu género, tornou-se um símbolo do espírito missionário jesuíta e do seu compromisso com a justiça social e a dignidade humana.

As missões ad gentes da Companhia de Jesus refletem, assim, o seu duplo caráter: uma Ordem profundamente intelectual e, ao mesmo tempo, extraordinariamente ativa no terreno. Inspirados pelo lema Ad maiorem Dei gloriam (“Para maior glória de Deus”), os jesuítas procuraram constantemente adaptar-se às culturas locais, aprendendo línguas, respeitando costumes e integrando elementos culturais nos processos de evangelização.

A “Alegoria do Triunfo dos Jesuítas nas Quatro Partes do Mundo” é uma expressão visual deste ideal missionário: um testemunho artístico da ambição espiritual, da visão universal e do sucesso evangelizador da Companhia de Jesus no mundo moderno.

Significado:

Projeto teológico e evangélico:
A alegoria ilustra o compromisso da Companhia de Jesus com a evangelização dos povos, promovendo uma síntese entre a fé cristã e as diversas culturas do mundo.

Visão universal:
A imagem transmite a visão da Companhia como uma entidade verdadeiramente global, com uma missão espiritual que se estende a todos os cantos do planeta.

Êxito missionário:
A representação do triunfo jesuíta nas quatro partes do mundo reforça a ideia do seu impacto positivo e do papel decisivo que desempenharam na difusão do cristianismo a nível mundial.

Do Triunfo à Dor: A tensão entre ideal e realidade na missão jesuíta

A pintura “Alegoria do Triunfo dos Jesuítas nas Quatro Partes do Mundo”, representa uma visão idealizada da missão global da Companhia de Jesus. Através de uma composição rica em simbolismo e teatralidade barroca, glorifica a presença jesuíta nos quatro continentes — Europa, Ásia, África e América — exaltando o sucesso evangelizador da Ordem, a sua universalidade e o papel civilizador da fé cristã. As figuras alegóricas dos continentes, acompanhadas por animais exóticos, trajes regionais e missionários ativos, constroem uma narrativa de conquista espiritual harmoniosa, ordeira e eficaz.

“Silence” (2016)

Em nítido contraste, o filme “Silêncio”, realizado por Martin Scorsese, oferece um retrato cru e profundamente humano da missão jesuíta no Japão do século XVII, onde a propagação da fé cristã se confronta com a perseguição violenta, o sofrimento e a aparente ausência de Deus. Em vez de vitória, Silêncio mostra a vulnerabilidade da missão: a dúvida, a dor, o martírio e até a apostasia como resultado de uma evangelização que colide com contextos culturais e políticos hostis. O missionário, longe de ser uma figura triunfante, surge como um homem dilacerado entre a fidelidade religiosa e a compaixão pelas vítimas do seu ideal.

A alegoria pictórica transmite uma imagem triunfalista, moldada pelo espírito pós-tridentino e pelo imaginário da Contrarreforma, onde a imagem é usada como ferramenta doutrinária para reforçar a autoridade e o alcance da Igreja. Já Silêncio questiona esse mesmo ideal, desvendando a dimensão trágica da missão ad gentes, onde a fé, longe de converter de forma gloriosa, é frequentemente silenciada pelo sofrimento humano e pela repressão.

Este contraste revela duas faces da mesma história:
– Por um lado, o ideal teológico e evangélico da Companhia de Jesus, que via na missão um ato sublime de serviço a Deus e de aproximação ao Outro.
– Por outro, a realidade dramática e por vezes brutal da missão no terreno, onde a fidelidade ao evangelho exigia não raramente um alto preço pessoal.

Em suma, enquanto a Alegoria celebra a expansão e o sucesso da missão jesuíta, Silêncio recorda-nos que esse “triunfo” foi, muitas vezes, marcado por dor, dúvida e sacrifício silencioso. Juntas, estas duas obras — uma pintura e um filme — oferecem uma leitura complementar e crítica da história da evangelização: entre o esplendor da fé e o seu profundo custo humano.

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Como referir este texto:

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VEIGA, Francisca Branco, Entre o Triunfo e o Silêncio: Imaginário e Realidade na Missão Jesuíta (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [30 de junho de 2025].

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RETRATO DE FERNÃO TELES DE MENESES, Fundador do Noviciado da Cotovia (MNHNC)

Fernão Teles de Meneses.
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Autor (es)
 Desconhecido
Datação
c. 1630-40
Proveniência
Noviciado da Cotovia
Inscrição: Maiúsculas, no canto inferior esquerdo:
FERNAN TELLES / DE MENEZES / FVNDADOR DES / TA CAZA DA PRO / VAÇAM DA COMPª / DE IHS

Pintura de aparato de Fernão Teles de Meneses, fundador do Noviciado da Cotovia, datada do século XVII (c. 1630–1640), de autoria desconhecida, possivelmente de origem espanhola. Proveniente da antiga sacristia da igreja do noviciado, encontra-se atualmente à guarda do MUHNAC.

A composição apresenta uma forte carga iconográfica associada ao período filipino, evidenciada, entre outros elementos, pela armadura filipina que enverga. Fernão Teles de Meneses empunha um bastão de comando, símbolo da sua função de Governador das Índias, enquanto a luva destacada remete para o seu cargo de Governador do Algarve. Ao peito ostenta a Cruz de Cristo, insígnia honorífica [1].

O fundo da pintura é composto por um cenário de aparato, onde se destaca uma mesa coberta com um manto ricamente bordado e um reposteiro, possivelmente em veludo, com pregas pronunciadas e pendentes decorativos. A tela parece articular os dois mundos da figura retratada: o do guerreiro e o do político.

Do ponto de vista pictórico, observa-se um certo desequilíbrio na execução: embora a generalidade da composição revele uma pintura de grande qualidade, as feições da figura central apresentam menor rigor técnico, o que poderá indicar a intervenção de mais do que um artista. A obra caracteriza-se ainda por um claro-escuro marcadamente intenso.

A moldura não é original, sendo provavelmente do século XIX. A pintura apresenta repintes e evidências de restauro em zonas da tela anteriormente rasgadas.

No canto superior esquerdo, encontra-se um escudo partido com as armas de Fernão Teles de Meneses e de sua esposa, D. Maria de Noronha: o primeiro esquartelado com leões altivos e campo liso (Teles de Meneses); o segundo com as armas do Reino, relativas à família Faro [2]

A pintura foi restaurada por Francisco Bueto (?), em 30 de junho de 1878 (AHMUL, Conta_Jul_1878_doc59).

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[1] Cruz de Cristo – História

Em todas as gravuras a imagem de Fernão Teles de Meneses exibe um medalhão da Ordem Honorífica que lhe foi atribuída e que lhe conferiu o grau de Comendador.

Origens na Ordem dos Templários

A Cruz de Cristo tem origem na Ordem dos Templários, uma ordem religioso-militar fundada no século XII com o propósito de proteger os peregrinos cristãos na Terra Santa.

Com a extinção da Ordem dos Templários pelo Papa Clemente V, em 1312, o rei D. Dinis procurou garantir a continuidade dos bens e da missão dos Templários em Portugal. Para isso, solicitou ao Papa a criação de uma nova ordem.

Criação da Ordem de Cristo (1319)

Em 1319, o Papa João XXII autorizou oficialmente a fundação da Ordem de Cristo em Portugal.

Esta nova ordem:

  • Herdou os bens e propriedades dos Templários em território português.
  • Adoptou a cruz vermelha, que viria a ser conhecida como Cruz de Cristo, como símbolo.

A Cruz de Cristo e os Descobrimentos

Durante os séculos XV e XVI, a Cruz de Cristo tornou-se um símbolo fortemente associado aos Descobrimentos Portugueses.

  • Era pintada nas velas das naus e caravelas, como as de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral.
  • Representava a fé cristã, o poder da Coroa Portuguesa e a missão evangelizadora das explorações ultramarinas.

Da Ordem Religiosa à Ordem Honorífica

Com o passar do tempo, a Ordem de Cristo ficou cada vez mais subordinada à autoridade real.

  • Em 1834, com a extinção das ordens religiosas em Portugal, a ordem foi secularizada.
  • Passou a ser usada como uma ordem honorífica do Estado, concedida a quem prestasse serviços relevantes à Nação.

Ordem Militar de Cristo (actualidade)

Hoje em dia, a Ordem Militar de Cristo é uma das Ordens Honoríficas Portuguesas, atribuída pelo Presidente da República.

É conferida a cidadãos (portugueses ou estrangeiros) que se tenham distinguido por:

  • Serviços relevantes prestados ao Estado Português.
  • Mérito nas áreas da administração pública, diplomacia, ou carreira militar.

Insígnia e Graus

Existem vários graus honoríficos, como: Cavaleiro, Oficial, Comendador, Grande-Oficial, e Grã-Cruz.

O símbolo da ordem é a Cruz de Cristo – uma cruz vermelha com braços em forma de flor-de-lis.

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[2] O seu brasão apresenta-se dividido verticalmente em duas partes. No lado esquerdo, ocupando o primeiro e o quarto quartel, figura um leão rampante. No lado direito, sete torres quadradas de ouro, lavradas a negro e dispostas em 3, 2, 2, preenchem o campo. Ao centro, encontram-se cinco escudetes azuis dispostos em cruz, cada um carregado com cinco besantes de prata colocados em sautor, todos inseridos num contorno. O fundo vermelho desta secção simboliza a vitória, a fortaleza e a ousadia.

Como referir este texto:

Sendo um blogue com conteúdos de criação intelectual privada, estão protegidos por direitos de autor. Seja responsável na utilização e partilha dos mesmos!

In VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia 1619-1759. Ed. Autor, 2025.

VEIGA, Francisca Branco, RETRATO DE FERNÃO TELES DE MENESES, Fundador do Noviciado da Cotovia (MNHNC) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [28 de maio de 2025].

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