A Companhia de Jesus nos séculos XVI a XVIII esteve ativa em Portugal ao longo de um período de duzentos e dezanove anos, desde a sua fundação em Roma, em 27 de setembro de 1540, até 3 de setembro de 1759, data do decreto do Marquês de Pombal que promulgou a sua extinção no nosso país.
Foi em 1540 com D. João III (1521-1557), que a Companhia de Jesus entrou em Portugal, sendo o nosso país a primeira Província jesuíta no mundo. Numa época de forte expansão territorial D. João III irá ser o primeiro rei na Europa a contactar Inácio de Loyola devido à necessidade de encontrar missionários, homens letrados, para evangelizar o Oriente, pregando e convertendo à Fé cristã os nativos. D. João concedeu privilégios aos jesuítas, nomeadamente casas gratuitas, liberdade de enviar missionários para todo o mundo e de fundar colégios.
A Companhia de Jesus instalou-se em Portugal continental e Ilhas Atlânticas, durante este período, fundando diversas Casas Professas, Colégios, Noviciados e quintas de recreio. Só em Lisboa, à data da extinção da Companhia havia sete instituições jesuítas: a Casa Professa de S. Roque, o Colégio de Santo Antão, o Seminário de S. Patrício dos irlandeses católicos[1], o Noviciado de Nossa Senhora da Assunção (da Cotovia), o Colégio de S. Francisco de Xavier em Alfama, o Hospício de S. Francisco de Borja e o Noviciado de Nossa Senhora da Nazaré em Arroios (noviciado das Missões).
[1] Em 1611 António Rodrigues Ximenes instalou num edifício antigo da Tutoria da Infância este Seminário que se encontrava sob a direção dos jesuítas. Expulsos os jesuítas por Pombal em 1759, o Colégio de S. Patrício manteve-se em atividade até cerca de 1830, instruindo crianças pobres.
Seminário de S. Patrício dos irlandeses católicos
Noviciado de Nossa Senhora da Assunção (da Cotovia)
Colégio de S. Francisco de Xavier em Alfama
Hospício de S. Francisco de Borja
Noviciado de Nossa Senhora da Nazaré em Arroios (noviciado das Missões)
Veja-se, inclusive, VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.
Nos séculos XV e XVI desenvolveram-se em Portugal os meios técnicos necessários que possibilitaram as grandes navegações, as quais, por sua vez, vieram a permitir progressos científicos notáveis nos mais variados domínios, com destaque para a Náutica, a Cartografia, a Construção Naval, a Medicina e a Botânica.
As viagens dos Descobrimentos obrigaram os portugueses a considerar o regime dos ventos e das correntes no Atlântico e a desenvolver a náutica astronómica, isto é, a capacidade de conhecer a posição aproximada dos navios em alto mar.
Para esse feito utilizaram-se instrumentos de observação astronómica como o quadrante e o astrolábio náuticos ou ainda a balestilha, que permitiam determinar a altura de um astro sobre o horizonte e dessa forma calcular a latitude do lugar onde se realizava a observação.
Lisboa tornou-se no centro de intercâmbio cientifico entre os Colégios Europeus e as missões orientais.
No Colégio (jesuíta) de Santo Antão, em Lisboa, funcionou desde finais do século XVI até ao século XVIII uma “Aula de Esfera”, pública (“Aula de Esfera” por se tratar de textos sobre Tratados «da esfera», dedicados à exposição dos princípios de cosmografia).
Programas seguidos nesta aula:
Arte de Navegar
Estudo da Geografia/Hidrografia
Cosmografia, construção e uso de globos
Astrologia Judiciária / astrologia prática
Geometria (ingresso na carreira militar)
A «aula de esfera» do Colégio de Santo Antão foi muito importante na cultura portuguesa do século XVII por ser o único curso onde se professavam as ciências tão intimamente ligadas à Matemática.
Aqui estudaram muitos dos homens que retratámos em outras publicações e que se distinguiram em cargos que dependiam destas ciências.
Jesuítas Matemáticos Portugueses no Império da China (século XVI-XVIII).
Astrónomos jesuítas Portugueses na China (I)
TOMÁS PEREIRA S.J. [Nome chinês: Xu Risheng, cuja tradução é “Sol que nasce aos poucos”].
S. Martinho do Vale (Braga)
Missionário jesuíta, músico, matemático.
Nasceu a 1 de novembro de 1645, e S. Martinho do Vale, perto de Braga e morreu a 24 dezembro de 1708 em Beijing (Pequim).
Descende de uma família nobre portuguesa Costa Pereira estudou no Colégio de S. Paulo, em Braga.
Integrou durante 35 anos a corte do imperador chinês Kangxi (1654 – 1722), cuja governação marca o início de uma era áurea da civilização chinesa.
Zarpou de Lisboa em 15 de abril de 1666 e acabou a sua formação na Índia.
Saiu de Macau em 1672 e chegou a Pequim em 1673. Foi convidado do Imperador Xangxi devido aos seus dotes naturais e musicais. Ensinou o Imperador a tocar o “clavicórdio”.
No ano de 1688 foi encarregue de traçar as fronteiras da Sibéria com a China.
Vice-Presidente do Tribunal das Matemáticas, em Pequim. Depois da morte de Verbiest (1688) Xangxi nomeou Tomás Pereira presidente da Comissão de Astronomia, mas Pereira declinou, ficando como Presidente substituto com António Pereira de 1688 a 1694.
Tomás Pereira fabricou um relógio para a torre de uma igreja, em Pequim.
Introduziu no interior da torre um tambor com espigões, semelhantes aos das caixas de música, que acionavam arames ligados aos badalos de um carrilhão o qual, a todas as horas, tocava músicas tradicionais chinesas.
Astrónomos jesuítas Portugueses na China (II)
ANDRÉ PEREIRA S.J. (1689-1743)[Nome chinês: XU Moude, Zhouxian].
Missionário, sinólogo, astrónomo, matemático.
Nasceu em 1689, no Porto e morreu em 1742, em Beijing (Pequim)
Em 1710 estudava Filosofia na Universidade de Évora, onde tirou o grau de Mestre em Artes.
A 13 de Março de 1716, embarcou em Lisboa na nau Sant’Ana rumo a Macau, onde chegou a 30 de Agosto do mesmo ano.
Concluiu os estudos no Colégio Macaense.
Em 1724 foi chamado para a corte de Pequim como astrónomo e matemático e três anos depois recebia do Imperador a promoção a vice-presidente do Tribunal astronómico.
Deixou várias observações astronómicas, entre elas, aos satélites de Júpiter, em Pequim.
Período de grande intercâmbio científico entre os astrónomos portugueses, em Pequim, e a Academia das Ciências de S. Petersburgo, na Rússia (com o médico português Ribeiro Sanches).
Foi nomeado pelo Imperador ao grau de Mandarim.
Entre 1583 e 1805, portugueses presidiram, em Pequim, ao célebre Tribunal das Matemáticas – uma espécie de Ministério do Interior encarregue de elaborar o Calendário Imperial e que empregava 150 a 200 funcionários. André Pereira foi vice-presidente deste Tribunal de 1728 a 1742 .
Sobre a atividade científica de alguns portugueses em Pequim escreve Francisco Rodrigues:
“Matheus Ricci, auxiliado pela dedicação de tantos portugueses como Duarte Sande, António de Almeida, Francisco Cabral, João Soeiro, João da Rocha, Gaspar Ferreira e Manuel Dias, sénior, chegou a gozar de tamanha reputação pela sua ciência que julgava a sua permanência segura no Celeste Império.”
China: Encontro de Culturas
Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.
Alguns destes missionários da Companhia de Jesus foram nomeados mandarins pelos Imperadores da China como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos. Entre eles destacamos: Padre Gabriel de Magalhães; Padre Manuel Dias Júnior; Padre Tomás Pereira; Padre João Francisco Cardoso; Padre André Pereira; Padre Domingos Pinheiro; Padre Félix da Rocha; Padre José de Espinha; Padre André Rodrigues.
Astrónomos jesuítas Portugueses na China (III)
GABRIEL DE MAGALHÃES S.J.[Nome chinês: An Wensi, Jingming].
Missionário, sinólogo e escritor.
Nasceu em 1610 em Pedrogão Grande, Leiria e morreu a 6 de maio de 1677, em Beijing (Pequim).
Descendente do grande navegador Fernão de Magalhães.
Estudou Filosofia no Colégio das Artes, em Coimbra.
A 21 de março de 1634 zarpou de Lisboa para Goa. Em Macau ensinou Filosofia e obteve o grau de Mestre em Artes.
Possuía um talento extraordinário para idealizar máquinas com que divertia o Imperador Xangxi.
Ao serviço dos imperadores Shunzhi e Kangxi,e ganhando a sua simpatia e afeição, Magalhães construiu uma série de dispositivos mecânicos:
– Construiu um robot com uma figura humana, que quando se dava corda podia caminhar por 15 minutos, levava um escudo numa mão e na outra tinha uma espada desembainhada.
– Construiu um relógio de carrilhão e torre que tocava uma música chinesa de hora a hora.
– Construiu outro relógio onde o Imperador podia ver as horas à luz das estrelas.
Foi auxiliar de Adam Schall no Tribunal de Astronomia.
O Imperador Xangxi escreveu o seu epitáfio.
Escreveu “Nova relação da China”.
Imagens:
Igreja de São José, Pequim大聖 若瑟 堂 (em chinês)
MAGALHÃES, Gabriel de, Nova relação da China : contendo a descrição das particularidades mais notáveis deste grande império.
Hong Taiji, whose five-year-old son, Fulin, became the Shunzhi Emperor in 1643.
The Kangxi Emperor at the age of 45, painted in 1699
Modern striking turret clock movement mounted in a clock tower
Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (IV)
FÉLIX DA ROCHA S.J. – Lisboa (1713-1781)[Nome chinês: Fu zoulin, Lisi].
Missionário, cartógrafo, astrónomo, escritor.
Nasceu a 30 de Agosto de 1713, em Lisboa e morreu a 22 de Maio de 1781 em Beijing (Pequim).
Saiu de Lisboa a 13 de Abril de 1735 e chegou em 1737 a Macau continuando os seus estudos de Teologia no Seminário.
Em Pequim, em 1753, o Imperador Quianlong nomeou Assessor do Tribunal das Matemáticas.
Após o falecimento do seu diretor, August von Hallerstein, passou a dirigir o Observatório Astronómico de Pequim. A partir de 1774 o cargo de presidente deste departamento foi sempre ocupado por jesuítas portugueses, sendo o primeiro Félix da Rocha e o último D. Caetano Pires.
O seu superior, Ignacio Koegler, descreve-o como «um jovem de génio vivo e penetrante e ávido de saber».
Desempenhava tarefas matemáticas intervaladas com demoradas excursões de Cartógrafo.
Em 1755, depois de ter feito os mapas de Sungaria, Turquistão e partes da Bujara, onde viviam os mongóis ocidentais, Quianlong elevou-o a Mandarim de 2° grau.
Entre agosto de 1774 e março de 1777 fez os mapas do Tibete.
Duas das suas obras mais importantes feitas na China:
O atlas da China – “Huangzhao Zhungwai Yihong Yotu”
O pequeno Tibete – “Weicang Tushi”
Em 1770, Cibot S.J. escrevia o seguinte: «Acabam de ser publicadas mapas e notícias sobre regiões recentemente conquistadas, sem que sejam mencionados os nomes dos nossos padres portugueses que, por ordem imperial, recolheram os dados e as coordenadas desses mesmos locais».
O jesuíta Félix da Rocha enviou para a famosa e prestigiada Academia de São Petersburgo 64 tomos das obras escritas pelos jesuítas de Pequim.
Morreu dois meses antes de completar 68 anos.
I – Mandarim, em finais da Dinastia Qing
II – Retrato do Imperador Qianlong (乾隆 Qiánlóng) (Hongli (弘历), 25 de setembro de 1711 – 7 de fevereiro de 1799)
III – Vista geral do Observatório de Pequim, após adaptações executadas pelo Padre Verbiest, entre 1669-1673.
Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (V)
JOSÉ DE ESPINHA S.J. (1722-1788),
[Nome chinês: GAOShensi, Ruose, 高慎思]. Lamego
Missionário, cartógrafo, astrónomo.
O padre José de Espinha nasceu em Vilar de Torpim, Lamego, em 1722 e faleceu em Pequim em 10 de Junho de 1788.
Embarcou para Goa em 1749 e aí terá sido ordenado. Estava em Macau em 1751 e a 22 de Agosto do mesmo ano entrou em Pequim.
Acompanhou Félix da Rocha nos trabalhos de cartografia em 1756. Foi vice-diretor do Tribunal das Matemáticas e director, a partir de 1781, como mandarim de grau quatro, concedida por ocasião da sua viagem à Tartária.
José Espinha e os seus companheiros jesuítas, André Pereira e Félix da Rocha alcançaram grande notoriedade no Departamento de Astronomia. O Eclipse do Sol ocorrido em julho de 1730, consagrou o prestígio destes religiosos cientistas, cuja previsão superou em rigor a dos académicos chineses.
Em 1775, D. Alexandre Guimarães, o bispo de Macau, nomeou o padre José de Espinha para vigário apostólico da diocese de Pequim.
Os «padres da corte», como eram conhecidos entre os portugueses, alcançaram grande influência política, de tal modo que foram várias vezes decisivos na defesa das posições portuguesas. Como nos relata Francisco Rodrigues, na sua obra “Jesuítas Portugueses Astrónomos na China”, é possível que Macau tenha sobrevivido graças aos jesuítas de Pequim.
Imagens:
I – Estela tumular do “ilustre Dao”, jesuíta José D’espinha (1722-1788), no cemitério de Chala em Pequim.
II – Francisco Rodrigues, “Jesuítas Portugueses Astrónomos na China”. Instituto Cultural de Macau, 1990.
III – Traje do Astrónomo chinês em 1675
Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (VI)
MANUEL DIAS JÚNIOR S.J. (1574-1659)
[Nome chinês: YANG Manuo, Yenxi].
Missionário, astrónomo, escritor.
Nasceu em 1574 em Castelo Branco e morreu a 1 ou 4 de março de 1659 em Hangzhou (Zeijiang), China.
De 1596 a 1600 estudou Filosofia no Colégio das Artes em Coimbra, seguindo o curso de Matemática de Grienberger (sucessor de Clavius no Colégio Romano).
É considerado pela historiografia como um dos mais reputados jesuítas portugueses da missão da China.
Saiu de Portugal a 11 de Abril de 1601 para a Índia a bordo da nave “Santiago”, e provavelmente chegou a Goa no mesmo ano. Terminou aí os seus estudos de Teologia.
Chegou a Macau por volta de 1605 e ensinou teologia seis anos.
Em 1613/14 chega a Pequim com a ordem de «ensinar matemática aos chineses».
Em 1623, Dias foi nomeado vice-provincial da recém criada vice-província da China, e permaneceu nesta posição até 1635.
Em 1627, esteve em Hangzhou, onde construiu uma igreja e estabeleceu um Seminário. Morreu em Hangzhou, sendo enterrado fora da muralha da cidade, num local conhecido como Dafang jing 大方井.
Nas suas publicações afirmava a existência de esferas celestes sólidas. Esta doutrina estranha à cosmologia chinesa, estimulou reacções muito vivas entre os mandarins, referidas na Europa por Cristóvão Borri.
Em 1614, Manuel Dias escreve na China o compêndio Tianwen lue 天問略 (Tratado de Questões sobre os Céus), em mandarim.
É um pequeno compêndio de cosmografia e astronomia. No fim desta obra incluí a descrição, com figuras, da nova observação telescópica, feita por Galileu em 1609, sobre os “braços” de Saturno.
Galileu tinha descoberto duas saliências na altura do equador de Saturno. Como o telescópio não era suficientemente poderoso para que ele pudesse perceber os anéis do planeta, atribuiu as saliências a duas pequenas luas, bem próximas à superfície de Saturno. Quando as notícias chegaram a Pequim, Manuel Dias fez este desenho no seu manual de astronomia Tianwen lue 天問略.
O primeiro globo terrestre da China é feito por Manuel Dias e pelo italiano Nicolau Longobardo. É do ano de 1623, quando ainda não havia noção na China de que a Terra era esférica.
Imagens:
– Assinatura de Manuel Dias
– Tianwen lue 天問略de Manuel Dias Júnior (Pequim, 1615).
-A primeira descrição das observações telescópicas de Galileu na China, pelo jesuíta Manuel Dias júnior. A figura representa o planeta Saturno, tal como Galileu o viu.
JOÃO FRANCISCO CARDOSO SJ. (1677- 1723) (VII)
[Nome chinês: MAl Dacheng, Erzhang].
Missionário e Cartógrafo
Nasceu a 13 de junho de 1677 perto de Leiria, e morreu a 14 de agosto de 1723 em Beijing (Pequim).
Estudou no Colégio de Santo Antão, em Lisboa.
Zarpou de Lisboa em março de 1708, chegou a Macau em outubro e à China, no mesmo ano, entrando em Pequim em julho de 1711.
Levou consigo os presentes do rei de Portugal para o Imperador Kangxi, entre eles vinho espanhol.
A célebre “Querela dos Ritos Chineses”, atiçada após a chegada das Ordens mendicantes à China, no princípio da década de 1630, questionou a acomodação do Cristianismo à cultura clássica chinesa prevalecente entre os missionários da Companhia de Jesus desde o tempo de Matteo Ricci.
O cardeal Carlo Tommaso Maillard de Tournon, Patriarca de Antioquia e legado apostólico enviado à China em 1703, fora incumbido pelo papa Clemente XI da missão de minar tanto a actividade dos jesuítas, como o monopólio do padroado concedido ao rei de Portugal nas dioceses chinesas. D. João V reagirá, nomeando seu “enviado extraordinário” a Pequim o matemático jesuíta João Francisco Cardoso, naquela que foi uma das respostas mais visíveis à crise dos Ritos.
O Imperador mandou os jesuítas Pierre-Vincent de Tartre (1669-1724) e João Francisco Cardoso preparar os mapas das províncias de Jiangxi, Guangdong e Guangxi. J. F. Cardoso enviou cópias dos mapas para Portugal.
Du Halde descreve estes mapas como tendo “cada um dez pés quadrados” (DU HALDE, Jean-Baptiste, S. J. — A description of the empire of China and Chinese Tartary, London, 1738-1741, vol. l, pp. VII).
Cardoso vai substituir Tomás Pereira na presidência do Tribunal das Matemáticas.
Foi nomeado mandarim pelo Imperador como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos.
No dia 14 de agosto de 1723, morreu em Pequim o Pe. João Francisco Cardoso, grande sábio e artista jesuíta, autor de um altar que o Imperador lhe encomendou.Morre cedo, com quarenta e seis anos, um ano depois de Kangxi.
ANDRÉ RODRIGUES S.J. (1729-1796) (VIII)
[Nome chinês: AN Guoning, Yongkang, 安國寧].
Missionário, astrónomo.
N. 3 fevereiro 1729, Mortagoa (Viseu), Portugal.
M. 2 dezembro, 1796, Beijing/Pekín, China.
Especializado em astronomia, partiu para a China em 1754 chegando a Pequim a 13 de Maio de 1759.
Em 1773, pelo breve Dominus ac Redemptor o papa Clemente XIV extinguiu a Companhia de Jesus. Nesse ano viviam em Pequim seis jesuítas portugueses, João Seixas (1710-1785), Félix da Rocha (1713-1781), José de Espinha (1722-1788), Inácio Francisco (1725-1792), José Bernardo de Almeida (1728-1805) e André Rodrigues (1729-1796). André Rodrigues vivia na Igreja de Dongtang (王府井 天主堂), ou de S. José com mais dois missionários portugueses, João de Seixas, Prefeito da Cristandade que conta uns mil e seiscentos cristãos de confissão anual e Inacio Francisco, ex-procurador e interino ecónomo.
Igreja de São José dos Portugueses em Pequim
– Gravura do último quartel do séc XVIII.
Arquivo Histórico Ultramarino. Lisboa
Em 1775, dois anos após a supressão da Companhia de Jesus, foi nomeado vice-diretor e, posteriormente, diretor de Tribunal de Astronomia.
Em 1775, André Rodrigues e o vice-provincial José Espinha notificaram o Imperador Qianlong que a sua igreja, conhecida como a Nantang (Igreja do Sul), tinha sido destruída num incêndio (13 de fevereiro). Qianiong doou 10.000 taeies de prata para a sua reconstrução.
Rodrigues deixou descritas em, “Memórias da Real Academia das Ciências de Lisboa”, numerosas observações de eclipses do sol e da lua, feitas em Pequim, para além de algumas cartas.
A memória de Rodrigues – “Observationes Atronomicae Habitae”, publicada no tomo II (1799)(*2) inclui registos de observações feitas em Pequim, por ele ou por outros padres, entre 1753 e 1795. Para além do trânsito de Mercúrio ocorrido a 16 de maio de 1753 e registado pelo padre Augustin Hallerstein (1703 – 1774), de vários eclipses do Sol e da Lua registados por Rodrigues, a memória contém ainda uma espécie de adenda com os registos de observações do eclipse do Sol de 15 de Julho de 1730 feitos pelos padres jesuítas Inácio Kögler (1680 – 1746) e André Pereira (1689 – 1743).
Foi promovido a Mandarim de 3º grau a 19 de agosto de 1793 (quase o topo da hierarquia do mandarinato), para que servisse de interprete na embaixada britânica. Christoph Gottlieb von Murr publicou a sua “Tradução Fidelis Litterarum, Lusitanicè scriptarum à P. Andrea Rodriguez, Tribunalis Mathematici Praeside tertio, Pekini in Residentia S. Josephi 15 Augusti 1777″*. Murr também mencionou que enviou cartas à delegação de Macartney (a primeira missão diplomática britânica na China), datadas de 7 de maio e 6 de agosto de 1793 (Murr, Litterae patentes, p. 26).
Os jesuítas esforçaram-se por adoptar os hábitos chineses. Na China, o jesuíta Matteo Ricci adaptou a metodologia de inculturação ao contexto chinês, numa necessária adaptação dos costumes cristãos às sociedades asiáticas. Os jesuítas começaram a vestir-se como monges budistas, mas acabaram por adotar as vestes mais prestigiantes de seda dos letrados confucianos.
Matteo Ricci, missionário jesuíta na China, vestido como um letrado chinês.
ALMEIDA (ALMEYDA), JOSÉ BERNARDO DE (IX)
[Nome Chinês: SOU Dechao, Yuechang, que pode ser traduzido como “tentar ir além da virtude”].
Missionário, Matemático, Cientista, Médico.
N. 18 de setembro de 1728, Penda (Coimbra), Portugal; M. 12 de novembro de 1805, Beijing/Pekín, China.
Entrou na Companhia de Jesus no noviciado de Arroios, noviciado criado para preparar missionários.
Desde sua chegada a Pequim em 13 de maio de 1759, José Bernardo de Almeida foi diretor do Tribunal das Matemáticas e Astronomia e foi nomeado vice-presidente em 1793 — o último jesuíta a ocupar este cargo.
Na corte imperial trabalhou como médico, dentista e farmacêutico, tendo tratado alguns filhos do próprio Imperador.
A extinção do Companhia de Jesus (1773) e sobretudo o atraso na sua promulgação em Pequim (22 de setembro de 1775) – quase um ano após a chegada e promulgação do breve papal (1774) a Macau – causaram muita confusão na capital. José Bernardo de Almeida foi promovido a manaarms ae botão azul, grau três, quase o topo da superioridade do mandarinato.
Após a morte do imperador Qianlong e a ascensão ao trono do seu sucessor Jiaqing (1796), o missionário de serviço imperial foi convidado a prestar homenagem ao falecido imperador, de acordo com os costumes chineses. Quando ele e outros companheiros se recusaram (conscientes da controvérsia dos ritos chineses), afirmando que era incompatível com suas crenças religiosas, o novo imperador aceitou de bom grado suas razões, apesar de sua oposição ao cristianismo.
The Qianlong Emperor in Ceremonial Armor on Horseback
Giuseppe Castiglione
Depois de 1799, com a morte do imperador Qianlong, a situação dos nossos missionários em Pequim vai conhecer piores dias.
Almeida foi o português da extinta Ordem que mais tempo sobreviveu na China e, pouco antes da sua morte, poderá ter sido reincorporado (cerca de 1802) na Ordem, associando-se aos Jesuítas da Rússia Branca.
Foi sepultado no cemitério de Zhalan, em Pequim.
Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (X)
ANDRÉ RODRIGUES S.J. (1729-1796)
[Nome chinês: AN Guoning, Yongkang].
Nome tradicional chinês: A ng UO寧, Yong康
Missionário e Astrónomo.
O Padre André Rodrigues nasceu no dia 3 de fevereiro de 1729, em Mortágua (Viseu), e morreu no dia 2 de dezembro de 1796, em Pequim, China.
Entrou na Companhia de Jesus em Arroios, no noviciado para as missões no Oriente.
Depois de estudar filosofia e teologia, obteve o título de doutor. Partiu para a China em 1754 e, especializando-se em astronomia, seguiu para Pequim, onde chegou em 13 de maio de 1759.
Em 1767, foi mestre dos noviços chineses.
Em 1773, pouco depois do breve “Dominus ac Redemptor”, o Papa Clemente XIV extinguia a Companhia de Jesus.
Dois anos após a supressão da Ordem, foi nomeado vice diretor e, mais tarde, diretor do Tribunal das Matemáticas.
Encontrava-se entre os jesuítas que defendiam que o documento da Supressão da Ordem não entrava em vigor até que fosse promulgado na China.
Em 1775, André Rodrigues e o vice-provincial José Espinha notificaram o Imperador Qianlong de que a sua igreja, conhecida como Nantang, tinha sido destruída num incêndio no dia 13 de fevereiro. Deste modo, o Imperador Qianiong doou 10.000 taeies de prata para a sua reconstrução.
Foi promovido Mandarim de grau três em 19 de agosto de 1793 para servir como intérprete no Embaixada britânica chefiada pelo conde George Macartney.
Os seus únicos escritos conhecidos são as suas Cartas.
Após a extinção da Companhia de Jesus e quando o vice-Provincial, o Padre José de Espinha morre, a 10 de junho de 1788, existiam na China apenas três ex-jesuítas portugueses, que, como refere Francisco Rodrigues, continuaram as tradições dos que os tinham precedido. São eles: os padres Inácio Francisco, André Rodrigues e José Bernardo de Almeida.
Jesuítas Presidentes do Tribunal das Matemáticas:
Adam Schall (1644-1666)
Ferdinand Verbiest (1669-1688)
Filippo Grimaldi (1688-1707) ou (1709)
Nomeados na sua ausência, em 1688:
Tomás Pereira e António Tomás, presidentes interinos, até ao regresso do Padre Filippo Grimaldi da Europa em 1694.
Kaspar Castner (1707-1709)
Kilian Stumpf (1711-1720)
Inácio Kogler (1717-1746)
August von Hallerstein (1746-1774)
Félix da Rocha (1774-1781)
José de Espinha (1781-1788)
André Rodrigues (1796)
José Bernardo de Almeida (1796-1805).
Entre 1583 e 1805, portugueses presidiram, em Pequim, ao célebre Tribunal das Matemáticas – uma espécie de Ministério do Interior encarregue de elaborar o Calendário Imperial e que empregava 150 a 200 funcionários.
Gravura:
北京南方教會(南塘)- Igreja do Sul (Nantang) em Pequim
Igreja de S. José ou de Dontang (Igreja Oriental) ou Igreja da Imaculada Conceição ou de Nantang (Igreja do Sul) – Exterior].[Pequim] : [s.n.], [séc. XVIII].- 1 planta : papel chinês, aguada a negro, ms.
Esta gravura, do Arquivo Histórico Ultramarino, encontrava-se na exposição “Um Rei e Três Imperadores: Portugal, a China e Macau no tempo de D. João V” no Museu de S. Roque em Lisboa, entre 19 de dezembro de 2019 e 5 de abril de 2020.
In Francisco Rodrigues, Jesuítas Portugueses Astrónomos na China (1583-1805), Instituto Cultural de Macau, 1990, p. 69.
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Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação empenhada, os missionários Portugueses da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, na aproximação cultural entre Portugal e a China.
Alguns destes missionários da Companhia de Jesus foram nomeados Mandarins pelos Imperadores da China como recompensa pelos seus méritos científicos e pedagógicos.
Gabriel de Magalhães, Félix Rocha, André Pereira, Francisco Cardoso, todos jesuítas portugueses, todos indispensáveis, (todos sepultados no cemitério de Zhalan (em chinês: 栅栏墓地) ) foram passando pelas diferentes disciplinas do saber e levaram o imperador a requisitar de Portugal outros mais, por tanto apreciar estes.
Portal do Cemitério Zhalan com a lápide de Matteo Ricci ao fundo.
Cemitério Zhalan, lápides de Jesuítas.
*André Rodrigues, “Fidelis translatio Litterarum, Lusitanicè scriptarum à P. Andrea Rodriguez, Tribunalis Mathematici Praeside tertio, Pekini in Residentia S. Josephi 15 Augusti 1777“, in Murr, Journal zur Kunstgeschichte VII (1779), pp. 264–67.
*2 Andrea Rodrigues, “Observationes Atronomicae Habitae”, Memorias de Mathematica e Phisica da Academia R. das Sciencias, II (1799).
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Como referir este texto:
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VEIGA, Francisca Branco, Astrónomos Jesuítas Portugueses na China (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [22 de Setembro de 2022].
Assiste-se a partir de meados do século XVI a um aumento da produção de imagens sacras. O conjunto escultórico do Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus ( espaços ocupados atualmente pelo Museu Nacional de História Natural e da Ciência, de Lisboa), que chegou aos nossos dias (e de nosso conhecimento), é bem representativo das novas exigências do culto tridentino, que deu especial relevo à imagem de Nossa Senhora sob as variadas invocações, à imagem de Cristo, dos Apóstolos e dos Santos mártires[1].
A escultura da Virgem com o Menino Salvador do Mundo é uma imagem de vulto, em madeira de carvalho setentrional, estofada e policromada, apresentando grande delicadeza na sua postura. Exibe um estofo muito desgastado e alguns vestígios de policromia.
Virgem com o Menino Salvador do Mundo
Data: séc. XVII d.C. Dimensões: – Altura: 130 cm – Largura: 26 cm – Comprimento: 51 cm Materiais: – Madeira Técnicas: – Dourado – Estofado – Policromado – Escultura
A outra escultura de vulto é um S. Paulo, e que apresenta os mesmos problemas na conservação. O estofo encontra-se muito desgastado, em tons vermelho e verde e com alguns vestígios de policromia, provavelmente floral e geométrica, com desenho de linha a dourado. Esta imagem parece ter sido repintada, pelo menos nas zonas sem estofo.
São Paulo
Autor: Desconhecido, trabalho português Datação: séc. XVII d.C. Dimensões: – Altura: 115 cm – Largura: 33 cm – Profundidade: 40 cm Materiais: – Madeira Técnicas: – Dourado – Estofado – Policromado – Escultura
A terceira e última escultura do espólio do Noviciado da Cotovia é um Cristo que estaria na sua origem atado a uma coluna. Escultura em muito mau estado de conservação, com ténues vestígios de pintura. Esta imagem está associada à flagelação de Cristo. A cena da Flagelação, tal como os outros episódios da Paixão é, a partir do século XVI, representada com grande dramatismo, com Cristo atado a uma coluna e ladeada dos verdugos. Quando a cena se encontra despida de todo e qualquer elemento (verdugos, açoites) transforma-se numa imagem de grande devoção, como o caso deste exemplar do Noviciado da Cotovia. Com estas imagens os escultores praticavam a criação do nu, proibido pela igreja pois era considerado indecoroso e desonesto.[2]
Cristo preso à coluna
Autor (es): Desconhecido Datação: séc. XVII d.C. Dimensões: – Altura: 187 cm – Largura: 32 cm – Profundidade: 52 cm Materiais: – Madeira Técnicas: – Dourado – Estofado – Policromado – Escultura
Não existem referências quanto aos seu autores, mas sabe-se o local para o qual a escultura de S. Paulo foi criada dado que em 1759, quando os bens da Companhia de Jesus foram sequestrados, foi elaborado um inventário onde era referido que na sacristia se encontrava «…em cima do caixão três imagens de vulto, uma de S. Pedro, outra de S. Paulo, ambas de cinco palmos com resplendores de folha prateada,…»[3]tendo em atenção que seguiam uma representação “tipo” seguindo as normas tridentinas.
Encontrámos referências bibliográficas a outra imagem escultórica, do século XVIII, pertencente ao Noviciado e que se encontra atualmente na igreja de S. Mamede, vizinha dos Museus da Politécnica, sendo lá colocada após um dos últimos incêndios que houve na antiga escola Politécnica. Esta escultura encontra-se em muito bom estado de conservação. José de Almeida foi o escultor desta imagem de vulto, em madeira policromada e estofada.
Nª Sª da Conceição Autor: José de Almeida Data: séc. XVIII
As esculturas do Noviciado da Cotovia são maneiristas, do início do século XVII, fidelizadas a parâmetros de imaginária sacra portuguesa, tipo esculturas de Gonçalo Rodrigues. Vitor Serrão num artigo publicado na revista Museu afirma que, este escultor trabalhou para uma clientela muito vasta, como por exemplo, a Misericórdia do Porto, os padres jesuítas de Braga e possivelmente para «…os inacianos de Lisboa»[4]. As esculturas maneiristas em madeira estofada e policromada, de que são exemplo as quatro referidas atrás, dão-nos a ideia do tipo de técnica usada neste período, tal como a postura da imagem e os tons e as cores utilizados.
As normas saídas do Concílio de Trento foram adotadas pela Companhia de Jesus a todos os níveis, incluindo as relativas à Invocação e Veneração das Relíquias dos Santos e das Sagradas Imagens. Inácio de Loyola afirmava que: «Louvar os ornamentos e edifícios das igrejas. Do mesmo modo as imagens. Venerá-las segundo o que representam».[a]
[a] INÁCIO DE LOYOLA, Exercícios Espirituais (360).
[1] CAETANO, Joaquim Oliveira; SILVA, Nuno Vassalo e, [e tal.], O púlpito e a imagem : os jesuítas e a arte, p. 25.
[2] DIAS, Pedro, A escultura maneirista portuguesa: subsídio para uma síntese, p. 135.
[3] LINO, Raúl, SILVEIRA, Luís; MARQUES, A. H. de Oliveira, Documentos para a história da arte em Portugal, p. 8.
[4] SERRÃO, Vítor, O escultor maneirista Gonçalo Rodrigues e a sua actividade no Norte de Portugal. Museu, IV série, nº7, 1998, p.148.
Veja-se, VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.
Épocas representadas: séculos XVII-XVIII. Tipo de coleções: Paramentaria, Pintura, Escultura, Ourivesaria, Espólio Documental.
O Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MNHNC) que desde o primeiro quartel do século XVII até ao presente serviu de sede a respeitáveis instituições de ensino e de cultura, alberga um espólio variado de obras de arte e instrumentos científico-didácticos, onde se encontra inserido o espólio relativo ao Noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus.
O espólio do Noviciado é composto por sessenta peças, essencialmente, objetos que serviram ao culto na Igreja de Nossa Senhora da Assunção, enriquecido com alguns paramentos que vieram da China e relicários de Itália.
Quadro indicativo do número de peças pertencentes ao espólio do Noviciado da Cotovia.
Esta coleção de Arte possui uma pintura a óleo, do século XVII, com o retrato do fundador do noviciado, importante personagem que foi Governador da Índia. São bastante numerosas as peças de paramentaria, incluindo estolas, manípulos, palas, bolsas de Corporal, véus de cálice e um frontal de altar que se destacam pela diversidade de cores e pelos emblemas bordados com o símbolo dos jesuítas (IHS). Da ourivesaria destaca-se um relicário, com as suas relíquias de antigos mártires jesuítas, um relicário-palmeta e um resplendor, os primeiros de prata e o segundo de latão, dos séculos XVII e XVIII. Existem três exemplares de escultura sacra que apesar do mau estado de conservação, permitem percecionar a sua qualidade e a experiência do artista que as criou, correspondendo a um S. Paulo, a uma Virgem com o Menino Salvador do Mundo e um Cristo atado à Coluna, datadas do século XVII. Esta coleção conta, também, com um conjunto de três missais, dois de uso comum e outro de cerimónia, pertencentes aos jesuítas da Cotovia, com identificações escritas e artísticas relativas a membros desta Companhia.
Ao espólio do noviciado da Cotovia que se encontra no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, poderíamos adicionar pinturas e esculturas da igreja do antigo noviciado mas que devido a uma série de incêndios e cataclismos que lavraram este edifício da Rua da Escola Politécnica, se perderam no fogo ou foram salvas e recuperadas por outras entidades, encontrando-se atualmente a embelezar igrejas ou museus nacionais.
GRANDE INCÊNDIO DO MUSEU NACIONAL DE HISTORIA NATURAL. Diário Popular, 18 de março de 1978
Veja-se, VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.
Excerto do Panorama de Lisboa. In Academia Nacional de Belas Artes
1540 – A 27 de Setembro, o papa Paulo III aprova a criação da Companhia de Jesus, pela bula “Regimini Militantis Ecclesiae”.
Sto. Inácio de Loyola acedeu ao convite do rei português e enviou para Portugal dois dos seus primeiros companheiros: Francisco Xavier e Simão Rodrigues.
1545-1563 – Concílio de Trento – Os Decretos Tridentinos produziram uma genuína reforma da Igreja Católica Romana, e reafirmaram as bases fundamentais do seu dogma.
1546 – É criada a Província Portuguesa da Companhia de Jesus, a primeira província de toda a Ordem no mundo.
– Fernão Telles de Menezes (Governador da Índia e 1º Governador do Algarve, Regedor das Justiças e Provedor da Misericórdia de Lisboa) e sua esposa, D. Maria de Noronha, acordam com os jesuítas serem os fundadores da Casa Do Noviciado.
1597 – Fernão Teles de Menezes oferece de dote à C. J. 20. 000 Cruzados (mais de 100.000 contos de hoje).
1598 – Celebra-se a dedicação da Casa a Nossa Senhora da Assunção (18 de Dezembro).
1603 – Lançamento da 1ª pedra para a construção do edifício (23 de Abril).
1605 – Morte de Fernão Telles de Menezes (26 de Novembro).
1607 – O arquitecto real Baltazar Álvares passa a dirigir a construção da obra.
1613 – Lourenço Lombardo, flamengo natural de Anvers, 2º financiador da Casa do Noviciado, dota a Casa com 30.000 cruzados (mais de 150.000 mil contos).
1616 – Foi feita a 1ª missa na Igreja do Noviciado (1 de Novembro).
Transladação dos ossos do fundador Fernão Telles de S. Roque para a igreja da Cotovia (9 de Novembro).
1619 – Inauguração do edifício do noviciado do Monte Olivete.
1634 – Morre Lourenço Lombardo. Foi sepultado na Sacristia em campa rasa com epitáfio.
1694 – Incêndio na Casa do Noviciado da Cotovia
1705 – É criado o Noviciado de Arroios (Lisboa), para as missões da Índia, dedicado a S. Francisco Xavier, e do qual aceitou ser fundadora D. Catarina rainha de Inglaterra.
1755 – Terramoto em Lisboa afecta parte do edifício.
1758 – Os jesuítas são suspensos do exercício de confessar e pregar (Junho).
1759 – Sai o alvará de sequestro dos seus bens (Janeiro).
São reclusos e com guarda à porta (Fevereiro).
São proscritos e banidos do reino (3 de Setembro).
Noviciado da Cotovia foi confiscado para a Fazenda Real.
1773 – O Papa Clemente XIV, pressionado pelas cortes portuguesa e bourbónicas, promulga a 21 de Julho, o breve “Dominus ac Redemptor”, que decretava a extinção da Companhia de Jesus no mundo inteiro.
Foram 143 anos de existência e de prestação de serviços na formação missionária dos Padres da Companhia neste edifício do Monte Olivete.
1761 – Decreto-lei de 7 de Março institui o Colégio dos Nobres
1837 – Decreto-lei de 4 de Janeiro abole o Colégio dos Nobres
Decreto-Lei de 21 de Janeiro é criada a Escola Politécnica
1843 – Novo incêndio na agora Escola Politécnica
1911 – Pólo da Universidade de Lisboa: Faculdade de Ciências
1978 – Novo incêndio no edifício do antigo Noviciado.
Atualmente – Alberga dois Museus de referência em Portugal e no estrangeiro, o Museu da Ciência e o Museu de História Natural, e o Jardim Botânico de Lisboa, jardim científico, projetado em meados do século XIX para complemento do ensino e investigação da botânica na Escola Politécnica.
In VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.
O Concílio de Trento serviu-se da paramentaria, da pintura, da escultura e da ourivesaria, para assegurar a unidade de fé e a disciplina eclesiástica, emanando dele decretos e diplomas onde transpareceu uma nova forma de ver a imagem sagrada. Neste Concílio, também se sentiu a necessidade de normalizar a liturgia da missa para eliminar os abusos cometidos na sua celebração, procedendo-se à reforma dos livros litúrgicos. No entanto, como o Concílio se arrastava há já longos anos, os padres conciliares decidiram, na última sessão, incumbir o Papa Pio IV dessa função. Contudo, foi Pio V que realizou tal incumbência, promulgando, em 14 de julho de 1570, através da bula Quo primum tempore,[1]o novo Missal Romano[2]. Foi, durante quatro séculos, considerado pelos sacerdotes do rito latino como norma para a celebração do sacrifício eucarístico. É o livro litúrgico oficial da Igreja. Contém normas gerais sobre o cerimonial litúrgico, bem como as leituras e orações apropriadas para a Missa diária e das festas do ano litúrgico. O Missal Romano é obrigatório para toda a Igreja Latina.
No período anterior ao Concílio de Trento (1545-1563) pouco significado se deu à liturgia. Foi neste Concílio e com os Papas que o executaram (Papa Paulo III, Júlio III, Marcelo II e Pio IV) que se pôs fim aos abusos e se estabeleceram os fundamentos teológicos das ações litúrgicas, uniformizando a liturgia e centralizando toda a legislação na Cúria Romana.
No início da Igreja Católica Romana, a Bíblia era o único livro usado na celebração da missa, podendo o sacerdote improvisar nas orações. Mas, nos séculos V e VI foram surgindo um conjunto de textos escritos ao qual deram o nome de “Sacramentários”[3] e segundo os quais o sacerdote se orientava. Nos séculos XII e XIII, o sacerdote celebrante criou os seus próprios textos, os “Missais Plenários”, que incluíam o livro das leituras e o das orações. Em 1570, após Concílio de Trento, o Papa Pio V publica o Missal ao qual se chamou, desde então, “Missal de S. Pio V”.[4] Com o Concílio Vaticano II, em 1970, deu-se a separação dos livros: missal, lecionários, evangeliário e livros dos cânticos.[5]
Para que houvesse um culto divino digno muitos pontífices romanos, entre eles, Clemente VIII (1592-1605), Urbano VIII (1623-1644), São Pio X (1903-1914), Bento XV (1914-1922), Pio XII (1939-1958) e o Beato João XXIII (1958-1963), mostraram particular atenção à Sagrada Liturgia, para que esta se manifestasse de forma mais eficaz, definindo-a e conservando-a tanto em relação ao Sacrifício da Missa como ao Ofício Divino.
São Pio V (1566-1672), utilizando o Concílio como espaço próprio de renovação e criação de normas, renovou o culto de toda a Igreja, cuidou da correção dos livros litúrgicos e da sua edição segundo “as normas instituídas pelos Padres”.
No Missal Romano, lê-se: as missas de acordo com o tempo litúrgico (Advento, Natal, Quaresma, Tríduo Pascal, Tempo Pascal e Tempo Comum); o Rito da Missa (Ritos Iniciais, Liturgia da Palavra, Liturgia Eucarística (ofertório e prefácios), o Rito da Comunhão e os Ritos Finais); apêndice do Rito da Missa (Bênçãos Solenes e Orações sobre o povo[6]
O missal distinguia-se no decorrer do calendário litúrgico pelo uso prático, isto é, um missal de serviço comum e serventia diária e pela aparência, num missal com capa de veludos, guarnições e fechos de prata. Estantes especiais e panos ricamente bordados envolviam os missais, valorizando-os e criando aparato, pois os missais estão destinados a figurar em cerimónias litúrgicas onde, em parceria com os paramentos, contribuíam para o brilho da liturgia.
Relativamente às gravuras que compunham e abrilhantavam as páginas dos missais, podemos afirmar que, por exemplo, na Architipographia Plantiniana, de Balthasaris Moreti, à qual pertence o exemplar que se encontram no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, e que é objeto deste estudo, emprega-se um leque bastante limitado de gravuras para cada uma das dez passagens bíblicas, ou seja, as mesmas gravuras eram usadas em várias edições dos missais da tipografia.
Depois desta abordagem sobre a Arte e a Companhia de Jesus seguimos a opinião de Pedro Dias:
«Foi com os Padres da Milícia que se iniciaram todas as correntes artísticas, da Renascença tardia ao fim do Barroco, e em todas as disciplinas, devido aos contactos constantes que tinham com os grandes centros artísticos da Europa, de onde vinham obras, artistas e projectos. Foram invariavelmente, até à sua extinção, os pioneiros na introdução das novidades estéticas».[7]
[1] BULA PONTIFÍCIA: O termo refere -se não ao conteúdo e à solenidade de um documento pontifício, como tal, mas à apresentação, à forma externa do documento, a saber, lacrado com pequena bola (em latim, “bulla”) de cera ou metal, em geral, chumbo (sub plumbo). Assim, existem Litterae Apostolicae (v. Carta Apostólica) em forma ou não de bula e também Constituição Apostólica em forma de bula.
[2] Documento pontifício que apresenta grande vigor, clareza e determinação, criado para proteger a Santa Missa dos ataques dos inimigos.
[3] Livro antigo que descrevia certas cerimónias religiosas, especialmente as relativas aos sacramentos. Com textos eucológicos ou orações.
[4] ALDAZÁBAL, José, Dicionário elementar de Liturgia, Lisboa, 2007, p.182,183.
[6] Toda a informação sobre a história da Liturgia e Livros Litúrgicos retirada de, BEJA. BISPO D. MANUEL FRANCO FALCÃO, Enciclopédia católica popular : espiritualidade : sagrada escritura : teologia : pastoral : liturgia : direito : moral, Lisboa, 2004.
No estudo sobre o livro antigo foi utilizado o livro de SANTOS, Maria Lucinda Tavares dos, PEREIRA, Isabel, PERICÃO, Maria da Graça, Livro Antigo, Museu de Aveiro, Aveiro, 1999.
[7] DIAS, Pedro, O espaço do Atlântico. In História da arte portuguesa no mundo 1415-1822, , p. 377.
Missal Romano
Museu/Instituição: Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Lisboa.
Super categoria: Artes Plásticas e Artes Decorativas
Categoria: Espólio Documental
Denominação: Livro Antigo
Título: [MISSALE, / ROMANUM / EX DECRETO SACROSANCTI, / CONCILI TRIDENTINI RESTITUTUM, / PII V. PONT. MAX. JUSSU EDITUM , / ET / CLEMENTIS VIII, PRIMUM, NUNCI DENUO / URBANI PAPǢ OCTAVI / AUCTORITARI RECOGNITUM /…]
Datação: Primeira metade do séc. XVIII (1732)
Centro de Fabrico: Antuérpia
Autor(es): Architipographia Plantiniana
Proveniência/incorporação: Noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus
Dimensões: 25 cm × 37 cm
Matéria: Prata [aplicações]; Madeira [encadernação da capa]; Seda [forro da capa]; Papel
Suporte: Veludo [Tecido]; Gravado [aplicações de prata]; Recortado [aplicações de prata]; Cinzelado [aplicações de prata]
Descrição: Missal com capa de madeira forrada a veludo verde com aplicações em prata; lombada de cinco nervos igualmente de veludo verde. Com friso de prata e ornamentos interiores envolventes em filigrana, com cabeças de anjos também em prata. A capa é centrada pela imagem do fundador da Companhia de Jesus, Santo Inácio de Loyola segurando com as mãos o livro da “Regra” da Companhia em que está inscrita a divisa AD MAIO DEI GLO REG SOC IESV, encimado por uma coroa e anjo, tudo em prata. Na contracapa a ornamentação é idêntica mas tendo ao centro a imagem de São Francisco Xavier com lírios, atributo alusivo à pureza.
Na primeira página o título encontra-se impresso em caracteres redondos de vários corpos a vermelho e preto, com gravura a preto e branco alusiva à Adoração do Santíssimo. Com identificação do centro de fabrico, autor e data de emissão. O texto do missal encontra-se impresso em caracteres redondos a vermelho e preto, disposto a duas colunas com iniciais capitais de desenho de fantasia e vinhetas ornamentais; várias gravuras a buril ornamentam o texto: a Anunciação, o Nascimento do Menino Jesus, o Calvário e a Ressurreição.
Podemos afirmar que este livro foi fabricado para a Companhia de Jesus devido à iconografia da sua capa. Além disso, a riqueza dos materiais usados revela ter sido um missal para ser usado em ocasiões especiais ou apenas para estar exposto.
Proveniência/incorporação: Noviciado da Cotovia da Companhia de Jesus, Lisboa
In VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.
«… explica-lhes como o Templo está feito: o seu traçado, as entradas e saídas, a forma, a disposição de tudo e os regulamentos.Escreve tudo para que possam ler e vejam como tudo está delineado …»
Livro de Ezequiel 43, 11-12
A Contrarreforma caracterizou-se por um movimento de reafirmação dos princípios da doutrina e da estrutura da Igreja Católica, diante do movimento de Reforma Protestante na Europa do século XVI. O Papa Paulo III convocou um concílio ecuménico, em Trento, para assegurar a unidade de fé e a disciplina eclesiástica. O Concílio de Trento (1545 – 1563), ou o chamado Concílio da Contrarreforma veio definir de uma forma explícita e intencional que a arte deve estar ao serviço dos ritos da igreja católica.
O Concílio de Trento em 1545 e 1563 Fresco por Pasquale Cati (1550-1620) 1588-1589 Igreja de Santa Maria em Trastevere, Roma
As profundas modificações surgidas na Igreja Católica foram, sem dúvida, provocadas pelo surgimento e expansão do protestantismo tendo a reação católica sido encabeçada pelo Papa Paulo III, Júlio III, Paulo IV, Pio V, Gregório XIII e Sisto V. O Concílio de Trento foi convocado pelo Papa Paulo III, a fim de estreitar a união da Igreja e reprimir os abusos, isto em 1546, na cidade de Trento, no Tirol italiano. No Concílio tridentino os teólogos mais famosos da época elaboraram os decretos, que foram depois discutidos pelos bispos em sessões privadas.
Além da reorganização de muitas comunidades religiosas, novas ordens foram fundadas, entre elas, a Companhia de Jesus, cujo fundador Santo Inácio de Loyola, foi um lutador da causa católica, num dos momentos mais críticos da Igreja. Foi reconhecida em 27 de Setembro de 1540 pelo Paulo III, através da Bula Regimini militantis Ecclesiae.
O Concílio de Trento definiu o pecado original (Sessão V – Decreto do Pecado Original) e declarou como texto bíblico autêntico, a tradução de São Jerónimo, denominada “Vulgata” (Sessão IV – Decreto das Escrituras), manteve os sete sacramentos (Sessão VII – Decreto dos Sacramentos), o celibato clerical e a indissolubilidade do matrimónio (Sessão XXIV – Doutrina do Sacramento do Matrimónio), o culto dos santos e das relíquias, a doutrina do purgatório e as indulgências (Sessão XXV – Decreto do Purgatório) e recomendou a criação de escolas para a preparação dos que quisessem ingressar no clero. Regulou também as obrigações dos bispos e confirmou a presença de Cristo na Eucaristia através de imagens. Definiu de uma forma explícita que a arte deve estar ao serviço dos ritos da igreja católica. São criticados pelos protestantes pelo uso excessivo das imagens sagradas, pois estes tinham uma postura iconoclasta (para o catolicismo, as imagens são elementos mediadores entre a humanidade e Deus). Definiram-se as autoridades eclesiásticas: as Escrituras (Antigo e Novo Testamentos e os reconhecidos livros apócrifos) têm idêntico valor à tradição, competindo à Igreja a sua interpretação. No que concerne à doutrina da salvação, foi proclamado o princípio da necessidade dos sacramentos. Reafirma-se a doutrina da transubstanciação e dá-se ênfase ao poder sacerdotal do ministro ordenado. Ao contrário da teologia protestante, a pregação é de valor secundário. A missa, considerado um santo “sacrifício” do corpo de Cristo, ocupa lugar central na expressão da vida cristã.
A Reforma Católica deu especial atenção à eficácia litúrgica e simplicidade dos templos, traduzidas fundamentalmente por preocupações ao nível do desenho da nave vista do altar principal – centro espiritual do templo; controle do excesso; visibilidade da Eucaristia; cerimónia, que se centra na consagração da hóstia, como prova da transmutação do corpo e sangue de Cristo; espaço interno, que se alterou para abraçar o final da procissão do Corpus Domini; interiores espaçosos; clareza estrutural e equilíbrio visual; abolição do tramezzo[1], para que o ponto focal passasse para o altar; colocação do coro atrás da Capela-mor, para separar os frades, mas pouco importante para os jesuítas que no início não cantavam; exercício de culto como ato público de piedade implicando, por vezes, sacrifícios de monges e civis; acessibilidade das massas às imagens sacras; capelas, que permitissem devoções privadas (fonte de rendimento) e visibilidade para os monumentos funerários.
Dos decretos tridentinos e diplomas emanados do concílio transparece uma nova forma de ver a imagem sagrada, onde o “ver” uma coisa com desejo e com intenção equivalia a possuí-la. Na sessão XXV, celebrada em Outubro de 1563, aconselhava-se que os dogmas sancionados e as verdades da fé se expressem através da arte, como por exemplo, da pintura e da escultura. Através das representações artísticas os fiéis eram “instruídos” com mais facilidade do que através de enunciados teóricos. A obra de arte nasce, neste contexto, ligada ao movimento contrarreformista, com novos valores expressivos, novos cânones e com uma iconografia muito ligada e ao serviço da fé.
Na última sessão, em 1563, o Concílio de Trento, num período de quase vinte anos, codificou a função das artes na igreja reformada. Uma disciplina rígida articulará as relações do clero com os artistas.
Os primeiros países que aceitaram, incondicionalmente, as resoluções tridentinas foram Portugal, Espanha, Polónia e os Estados italianos.
A Companhia de Jesus surge como um instrumento na definição do ideal de uma Igreja reformada. Pelas virtudes dos seus atos e pela suas Constituições (nas Constituições, Inácio de Loyola aspirava não deixar nada ao acaso ou improvisado, prescrevendo, formalizando e institucionalizando ao mínimo detalhe –Tudo pela Maior Glória de Deus) rapidamente respondem a esta igreja reformada. Os seus membros estão ligados por exigentes votos e um grande zelo missionário. A sua disciplina e a hierarquização do seu sistema de relações predispõem esta Ordem para a aceitação de esquemas rígidos. Ao nível religioso a Companhia de Jesus vem defender a participação humana no convívio divino, influenciando o momento artístico.
É importante para conhecermos a arte resultante de uma Ordem religiosa, saber os princípios de identificação dessa mesma Ordem. São três os documentos básicos da Companhia de Jesus, que justificam a sua identidade: a Formula Instituti (1539, 1540, 1550), as Constituições e a Autobiografia de Santo Inácio (1553 – 1555), sendo os três obra do seu fundador, Inácio de Loyola.
Assim, baseado nestes três documentos e nas normas saídas do Concílio de Trento surgiu um programa cultual e de doutrinação que teve como consequência a criação de uma arte religiosa muito própria desta Ordem ao nível da arquitetura, da pintura, da escultura, da ourivesaria.
Les Miracles de saint Ignace de Loyola Pierre Paul Rubens 1618-1619 Composée pour l’église de la maison professe des Jésuites d’Anvers (aujourd’hui église Saint-Charles-Borromée), en Belgique. La toile se trouve depuis 1776 au Musée d’histoire de l’art, à Vienne (Autriche).
[1] Na arquitetura eclesiástica corresponde à parte que divide a igreja aberta ao público da que está reservada apenas aos religiosos.
In VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.
Os milagres de S. Francisco Xavier |Peter Paul Rubens,1617-18 Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria
A convite de D. João III, a Companhia de Jesus estabeleceu-se em Portugal em 1540, logo a seguir à sua criação (a 27 de Setembro de 1540, o Papa Paulo III aprova a criação da Companhia de Jesus, pela bula Regimini Militantis Ecclesiae.
S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III André Reinoso, cerca de 1619 Igreja de S. Roque, Lisboa, Portugal (3)
Francisco de Xavier na sua estadia em Portugal e antes de partir para o Oriente escreveu uma carta a Inácio de Loyola e a João Coduri onde refere o seguinte: «D´acá os hago saber como el Rey, paresciéndole bien nuestro modo de proceder, así por la experiencia que tiene del fruto espiritual que se hace, como esperando mayor cuantos mas fueren, está deliberado de hacer un colegio y una casa de los nuestros, es a saber, de la Compañia de Jesus…». Afirmava que: «…Este verano en la Universidad de Coimbra edificará el colégio, y la casa pienso en la cidad de Ébora» (1). Em pouco tempo constroem-se três importantes estabelecimentos em Lisboa, entre muitos outros espalhados pelo país de Norte a Sul. Francisco Xavier, já missionário em Goa, alertava para a preparação de “soldados de Deus”. Não importava que fossem letrados, mas tinham que ser bem exercitados (2). Noviciados, colégios e universidades unidos num projecto comum onde a qualidade de acção, a preparação adequada e contínua e uma ocupação constante para o atendimento das almas eram requisitos obrigatórios para educar os futuros ―soldados de Deus.
S. Francisco Xavier Ressuscitando um Chefe de Casta no Ceilão André Reinoso, cerca de 1619 Igreja de S. Roque (Sacristia)
Na madrugada de 3 de dezembro de 1552, a mais de dez mil quilómetros de Lisboa, numa cabana de palha numa ilha esquecida do Oriente, expirava Francisco Xavier — o grande missionário que fez tremer o desespero nos confins do mundo conhecido. Desfigurado pela febre, exilado do continente que tanto desejara conquistar para Cristo, ele entregava a sua alma com as mesmas palavras que o tinham sustido durante toda a vida: In te Domine speravi, non confundar in aeternum — Em ti, Senhor, esperei. Não me confundas para sempre. Naquela noite de silêncio, que parecia sepultar um sonho impossível, nascia, porém, uma lenda imortal. O corpo definhado daquele homem que nunca recuou perante o impossível transformar-se-ia em relíquia venerada; a sua morte prematura, em vitória eterna. Porque há santos que conquistam reinos com cidades e exércitos, e há santos que conquistam tudo com um crucifixo e um coração intrepidez — Francisco Xavier foi dos segundos, e por isso o seu nome jamais morrerá. Está sepultado na Basílica do Bom Jesus em Velha Goa (Índia) onde é venerado como homem santo.
O papa Paulo V beatificou-o a 21 de outubro de 1619 e Gregório XV declarou-o santo a 12 de março de 1622.
Túmulo de São Francisco Xavier na Basílica do Bom Jesus de Goa.
A capela de São Francisco Xavier foi concluída em 1659. É uma mistura de mármore, cobre e madeira em diversos níveis, cada um ricamente decorado. Encimando o altar, logo após os dois anjos ladeando o brasão, está o sarcófago de prata com seis módulos de vidros duplos onde repousa o seu corpo. Magnífica caixa de prata feita por artistas goeses, onde repousa o corpo do Apóstolo do Oriente, oferecida pelo grão-duque da Toscana, Cosimo III Medice, executada por Giovanni Battista Foggini, cerca de 1697.
Até aos dias de hoje, o corpo de São Francisco Xavier continua a atrair peregrinações constantes. A urna é exposta a cada dez anos para contemplação pública, permitindo aos fiéis venerarem o santo que transformou o Oriente cristão. Este ciclo de exposições periódicas perpetua a tradição de devoção que começou logo após a sua transferência para Goa.
A Capela de São Francisco Xavier representa assim uma síntese magnífica da arte europeia (florentina), da destreza artesanal goesa, e da fé cristã portuguesa — um testemunho permanente do legado do homem que João Paulo II chamaria de “príncipe dos missionários”.
Pontos Principais da Vida de São Francisco Xavier
Fundador jesuíta — Um dos primeiros membros da Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola
Apóstolo do Oriente — Dedicou-se à evangelização em terras asiáticas, sendo considerado “príncipe dos missionários”
Missão na Índia — Chegou a Goa em 1542, onde começou seu trabalho missionário
Estratégia missionária — Compreendeu que para converter o Oriente era essencial começar pela China
Viagem a Sancião — Em julho de 1552, partiu de Singapura no navio “Santa Cruz” rumo à ilha de Sancião, próximo da China
Trabalho pastoral — Celebrava missa diariamente, ensinava doutrina cristã, confessava, batizava, visitava doentes e enterrava mortos
Determinação inabalável — Manteve-se firme no propósito de chegar à China apesar dos obstáculos e do medo dos portugueses
Morte em Sancião — Faleceu a 3 de dezembro de 1552, na ilha de Sancião, aos 46 anos, sem conseguir entrar na China continental
Canonização — Reconhecido pela Igreja como santo e declarado Padroeiro do Oriente e das Missões
Legado — Seu corpo tornou-se relíquia venerada, transportado para Malaca e depois para Goa, onde permanece até hoje
São Francisco de Xavier no Padrão dos DescobrimentosViagens de S.F.X. na Ásia
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(1) Monumenta Historica Societatis Iesu, Cartas de San Ignacio, pp. 443-447;
LOPES, António, D. Pedro Mascarenhas: Introdutor da Companhia de Jesus em Portugal, 2003, p.168.
(2) GOMES, Manuel Pereira, Santo Inácio e a fundação de Colégios, p. 41.
(3) S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III antes da viagem para a Índia. O rei está ao centro, tomando as mãos do santo e, ao lado, encontra-se o Padre Simão Rodrigues, introdutor da Companhia de Jesus em Portugal. A receção decorre no Paço da Ribeira, vendo-se o Tejo ao fundo, e a corte é composta por membros do clero e da nobreza, incluindo membros das três ordens militares, identificadas pelas respetivas cruzes: Cristo, Santiago e Avis.
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VEIGA, Francisca Branco (2021), No dia 3 de dezembro de 1552, morre São Francisco Xavier (1506-1552)(blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [03 de Dezembro de 2021].
Veja-se, inclusive, VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.
A revolução de 1820 previa uma viragem na política portuguesa, mas o liberalismo constitucional foi interrompido pelo absolutismo miguelista em 1828, baseado na aliança entre o Trono e o Altar, onde os Jesuítas voltam a ter um papel de relevo no reforço do Legitimismo.
Em 1828 D. Miguel regressa a Portugal e, contrariamente ao prometido a seu irmão, em 23 de junho de 1828 foi proclamado rei pelas Cortes Gerais do Reino, anulando a vigência da Carta Constitucional e repondo as Leis Constitucionais tradicionais, perante a passividade europeia e contando com a intolerância política do Sumo Pontífice para com os ideais liberais e maçónicos.
Para assegurar essa imagem unanimista de legitimidade dinástico-política foi necessário o apoio da Igreja Católica Romana e a restauração da Companhia de Jesus em Portugal. D. Miguel necessitava dos jesuítas como “bons formadores” e “educadores das mentes e das consciências” da juventude, baseados nos ideais que a tradicional monarquia ambicionava, isto é, uma sociedade legitimadora do status quo, com princípios sociopolíticos estáticos e que não contrariasse os princípios da fé que a Igreja Católica Romana estatuíra.
Os jesuítas vão atuar fundamentalmente em duas vertentes principais: nas missões junto da população (uma catequese adequada, tornava mais eficiente a ligação do povo à Igreja Católica (Altar) e ao próprio rei (Trono) e reforçava o ultramontanismo), e na atividade educativa da juventude. Para D. Miguel, tal como para os jesuítas, as missões, a catequese, o confessionário e a educação eram a base principal da manutenção da ordem social.
Contudo, a alteração da conjuntura na Europa dos anos trinta é marcada pela subida ao trono de um «rei burguês» na França, pela mudança do ministério inglês para tendências liberais, e pela subida ao trono da regente D. Maria Cristina, de Espanha.
A 3 de março de 1832, D. Pedro reassume a regência que se encontrava na ilha Terceira (Açores). Com D. Pedro, a convicção de que a existência das ordens regulares era necessária à religião e útil ao Estado tinha terminado.
No dia 26 de maio de 1834, em Évora Monte, sucumbe o governo absolutista de D. Miguel. Um dia depois, D. Pedro, em nome de sua filha a rainha D. Maria II, punha fim à missão jesuíta em Portugal, pois estes encontravam-se alinhados com todo um passado miguelista, enquanto representantes do fixismo, do ultramontanismo, e, por conseguinte, também causadores da decadência do reino.
Em 1834, D. Pedro, apoiado por uma elite liberal que se encontrava no exílio e pelo suporte externo da Quádrupla Aliança, retomava os ideais de 1820 e dava início a um Governo Constitucional e a um Estado liberal.
(Resumo da comunicação proferida no dia 12 de outubro de 2021, no Congresso Internacional do Bicentenário da Revolução de 1820 (Fundação Calouste Gulbenkien)).
Link de acesso às comunicações deste dia,
ESTADO, IGREJA E RELIGIÃO
Coord. Ana Mouta Faria, Sérgio Ribeiro Pinto e Daniel Alves
O Museu Nacional de História Natural e da Ciência que desde o primeiro quartel do século XVII até ao presente serviu de sede a respeitáveis instituições de ensino e de cultura, alberga um espólio variado de obras de arte e instrumentos científico-didáticos, onde se encontra inserido o espólio relativo ao noviciado da Cotovia, da Companhia de Jesus.
Enquadramento religioso e artístico
O Concílio de Trento, realizado de 1545 a 1563, foi o 19º concílio ecuménico, convocado pelo Papa Paulo III para assegurar a unidade de fé e a disciplina eclesiástica. Dos decretos tridentinos e diplomas emanados do concílio transparece uma nova forma de ver a imagem sagrada, onde o “ver” uma coisa com desejo e com intenção equivalia a possuí-la. Na sessão XXV, celebrada em Outubro de 1563, aconselha-se que os dogmas sancionados e as verdades da fé se expressem através da arte, como por exemplo, da pintura e da escultura. Através das representações artísticas os fiéis eram “instruídos” com mais facilidade do que através de enunciados teóricos. A obra de arte nasce, neste contexto, ligada ao movimento contra reformista, com novos valores expressivos, novos cânones e com uma iconografia muito ligada e ao serviço da fé.
Sai do Concílio de Trento uma nova Ordem religiosa, a Companhia de Jesus, reconhecida em 27 de Setembro de 1540 pelo Papa Paulo III, através da Bula “Regimini militantis Ecclesiae”. Inácio de Loyola, fundador da Companhia, escreveu as “Constituições” jesuítas, adoptadas em 1554 e que deram origem a uma organização rigidamente disciplinada, enfatizando a absoluta auto-abnegação e a obediência ao Papa e os superiores hierárquicos.
As normas saídas do Concílio de Trento foram adoptadas pela Companhia a todos os níveis, incluindo as relativas à Invocação e Veneração das Relíquias dos Santos e das Sagradas Imagens. Inácio de Loyola afirmava que: «Louvar os ornamentos e edifícios das igrejas. Do mesmo modo as imagens. Venerá-las segundo o que representam».[1]
Da igreja do noviciado chega-nos aos nossos dias um relicário em prata que é testemunho da veneração que se prestava aos Santos e aos Mártires.
Em forma de custódia, realizado com folha de prata aplicada sobre estrutura de madeira e assente sobre base de madeira dourada, de secção triangular, mistilínea e moldurada, com relíquias correspondentes aos dois irmãos coadjutores João Soan (de Goto) e Diogo Kisai, martirizados em Nagasaki. Este relicário é de origem italiana com as marcas da Contrastaria de Roma (chaves cruzadas e umbela) e a do ourives: leão rampante (esta marca apresenta-se defeituosa, dificultando a sua leitura e justifica a interrogação da autoria). Tem ainda junto com a peça o selo de autenticidade das relíquias.
Crucificação dos mártires de Nagasaki (5 de fevereiro de 1597) Johann Heinrich Schönfeld
[1] INÁCIO DE LOYOLA, Exercícios Espirituais (360).
Relicário
Museu/instituição: Museu Nacional de História Natural e Ciência da Universidade de Lisboa
Super categoria: Artes Plásticas e Artes Decorativas
Categoria: Ourivesaria
Denominação: Relicário
Autor(es): Antonio GIGLI (c. 1704-1761?), Itália
Datação: séc. XVII d.C.
Matéria/suporte/técnica: Prata / madeira
Marcas: Contrastaria de Roma (chaves cruzadas e umbela)
Marca do ourives: leão rampante (?)
Dimensões: 435mm (alt. com base) / 375mm (alt. sem base) x 165mm (larg.) x 90mm (prof.)
Descrição:
Relicário em forma de custódia realizado com folha de prata aplicada sobre estrutura de madeira e assente sobre base de madeira dourada, de secção triangular, mistilínea e moldurada. Sobre a base elevam-se dois apoios em voluta que sustentam a base da peça, reconhecendo-se ainda, ao centro, uma cartela rematada por concha. O fuste apresenta-se constituído exclusivamente pelo nó, abalaustrado e ladeado por duas volutas, ostentando decoração de carácter vegetalista. O receptáculo, envidraçado, possui forma mistilínea. A restante decoração envolvente apresenta como motivos principais grinaldas e volutas.
A peça é superiormente rematada por motivos contracurvados sobre os quais se reconhece ainda uma cruz apical de avelã dotada de auréola de raios lanceolados.
Inscrição: S. JOAN. GOTTO. M. / S. JACOBI. KIS. M., correspondente aos dois irmãos coadjutores João Soan (de Goto) e Diogo Kisai, martirizados em Nagasaki a 5 de Fevereiro de 1597; canonizados apenas em 8 de Junho de 1862 por Pio IX mas já anteriormente venerados no contexto da Companhia de Jesus.
NOTA: a marca do ourives foi efectuada em dois locais diferentes da peça (à semelhança do que se verifica com a marca da contrastaria de Roma) mas em qualquer dos casos apresenta-se defeituosa, facto que dificulta a sua leitura e justifica a interrogação da autoria.
Proveniência/incorporação: Noviciado da Cotovia
In VEIGA, Francisca Branco. Noviciado da Cotovia: O Passado dos Museus da Politécnica 1619-1759. Dissertação (Mestrado em Património Cultural) – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.