Lisboa, 29 de abril de 1793 – Trieste, 17 de janeiro de 1874
Alegoria à Excelentíssima Princesa da Beira, a Princesa D. Maria Teresa de Bragança, filha de Sua Majestade Fidelíssima, o Augusto Senhor D. João VI, e de Sua Excelente Senhora, a Rainha D. Carlota Joaquina. Pintura de Arcângelo Fuschini, da década de 1800
No dia 29 de abril de 1793 nascia Dona Maria Teresa de Bragança, Princesa da Beira, Infanta de Portugal, no Palácio da Ajuda, em Lisboa.
O nascimento da filha mais velha, D. Maria Teresa, foi um alívio para Portugal, que vivia sob a pressão da falta de herdeiros durante alguns anos.
Nome completo: Maria Teresa Francisca de Assis Antônia Carlota Joana Josefa Xavier de Paula Micaela Rafaela Isabel Gonzaga de Bragança e Bourbon
Foi a primogénita de D. João VI de Portugal e de Carlota Joaquina da Espanha e a irmã mais velha do imperador D. Pedro I (IV de Portugal) do Brasil e de D. Miguel.
Ode ao feliz parto da Serenissima Senhora D. Carlota,…
«VI
As funestas imagens da Discórdia,Que a Lísia amedrontavam,Dissipa Astro BrilhanteFormado pelo Céu que tudo gera:Portugal já respira,Era Carlota toda a nossa esperança,Gloria dos Reis, do Reino Segurança.(…)Assim, bela Princesa,Tu foste quem á Pátria consternadaDeste a Prole feliz, tão suspirada».
Lisboa: Typ.Nunesiana, 1793. pp. 7-9.
«Grande estampa aberta a água-forte mostrando os efeitos de um conjunto pirotécnico e respectiva planta, ou seja, trata-se de um espectáculo de fogo preso mandado realizar no Castelo de S. Jorge, pelo Intendente Geral da Polícia Diogo Inácio de Pina Manique para celebrar o nascimento da primeira filha do Príncipe Regente D. João, futuro D. João VI, e de sua mulher a Princesa D. Carlota Joaquina. a Infanta Maria Teresa, Princesa da Beira, com a seguinte indicação ao centro: “Prospecto da Maquina do Jardim do fogo que se erigio na Real Praça do Commercio de Lisboa, pello feliz Nascimento de Sua Alteza Real a Serenifsima Sehora D. Maria Thereza Princeza da Beira, por mandado do Dezembragador do Paço Diogo Ignacio de Pina Manique Intendente Geral da Policia da Corte, e o Reyno.”. Na parte superior, o alçado ostenta ao centro o escudo e a coroa real, e entre estes, três medalhões ovais com retratos… » In MatrizNet
Conservadora, D. Maria Teresa aliou-se a seu irmão, D. Miguel. Também foi aliada de seu tio materno e segundo marido, D. Carlos Maria Isidro de Bourbon, conde de Molina, viúvo de sua irmã D. Maria Francisca, que pretendia obter a coroa espanhola durante o reinado de Isabel II.
Revolta carlista em 1833 Desenho da passagem do Infante D. Carlos mobilizando as tropas carlistas para a sua causa, em Navarra.
Princesa de Beira (Portugal), infanta de Espanha, líder do movimento carlista (1861-1868) e, para os carlistas, rainha de Espanha.
Faleceu no dia 17 de janeiro de 1874, com 80 anos, na cidade de Trieste, a nordeste da Itália, em cuja catedral está sepultado o seu corpo.
Trieste acolhe a maior parte dos membros da família carlista na Capela de San Carlo e no Cemitério de Santa Anna.
A Catedral de Trieste (em italiano: Basílica cattedrale di San Giusto Martire), dedicada a São Justo, é uma catedral católica romana e a principal igreja de Trieste, no norte da Itália. É a sede do Bispo de Trieste.
Cathedral of San Giusto Martire
Aqui se encontra o mausoléu Carlista. A Capela de São Carlos Borromeu serve de capela funerária para a família dos pretendentes carlistas ao trono da Espanha. Ele contém os túmulos de:
- Infante Carlos, Conde de Molina (Carlos V)
- Infanta Maria Francisca de Portugal, primeira esposa do Conde de Molina
- Infanta Maria Teresa, Princesa da Beira, segunda esposa do Conde de Molina
- Infante Carlos, Conde de Montemolin (Carlos VI)
- Princesa Maria Carolina de Bourbon-Duas Sicílias, esposa do Conde de Montemolin
- Juan, Conde de Montizón (Juan III)
- Infante Fernando de Espanha, irmão do Conde de Montemolin e do Conde de Montizón
- Carlos, Duque de Madrid (Carlos VII)
A Corte Carlista de Trieste extinguiu-se poucas décadas após a morte da Princesa da Beira, em 1874. Os túmulos de vinte e quatro membros da comitiva real são bem visíveis no Cemitério de Santa Anna, em Trieste. No túmulo da família (conhecido como “Panteon”) está gravado: Comitiva da Augusta Senhora Maria Teresa de Bourbon, Condessa de Molina. O terreno foi adquirido em 1868 pela Princesa da Beira.
Alegoria ao nascimento de D. Maria Teresa de Bragança em 1793. Gravura a buril e água-forte. Desenho da autoria de Francisco Leal Garcia e gravura de Gaspar Fróis Machado. Lisboa. Banco de Portugal, inv. 52.4.
*O carlismo é um movimento político tradicionalista e legitimista na Espanha que visa estabelecer um ramo alternativo à dinastia Bourbon, descendente de D. Carlos, conde de Molina (1788-1855), no trono espanhol.
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VEIGA, Francisca Branco, Dona Maria Teresa de Bragança, Princesa da Beira (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [12 de Maio de 2024].
Revolta da Maria da Fonte, in A Ilustração, v. II, 1846, p. 71 (Exemplo de uma revolta popular)
A) Trovas dos Miguelistas
D.Miguel chegou á barra,
Voltou costas á nacão,
Rogando pragas immensas
A’nova constituicão.
D. Miguel quando chegou
Deu um suspiro e um ai,
Disse á sua augusta mãe:
Que é do meu augusto pae?
Sua mãe lhe respondeu,
Com grande pena e ternura:
Já os malvados malhados
O teem na sepultura.
D.Miguel quando chegou
Ao palacio do seu pae,
Disse á sua augusta mãe:
Que é do mea augusto pae?
Sua mãe lhe respondeu, Com grande dôr e ternura: Já os grandes libertinos Lhe deram a sepultura.
D. Miguel chegou á barra,
A sua mãe beijou a mão;.
-Anda cá,filho da minh’ alma,
Não queiras constituição;
Quando entrou no seu palácio Ao subir deu um ai, Perguntou a sua mãe Pelo seu augusto pae;
Sua mae lhe respondeu Com palavras de ternura: Os mesmos negros malhados O deram á sepultura.
Bandeira Miguelista, usada até à capitulação de D. Miguel, em Évora Monte, em 1834
B) Trovas dos Liberais
Tap’isso,olaré,tap’isso, Tap’isso,que elles lá veem, Fugiram,tiveram medo, Deixaram Santarem.
Já não soffremos Tanta tyrannia, Viva a liberdade, Haja alegria.
D. Pedro e D. Miguel São filhos de D. João, D. Pedro venceu a guerra, Assecegou a nacão.
Nobre duque da Terceira. A honradez em pessoa. Foi que’fez manter a ordem Na cidade de Lisboa;
Quando D. Miguel andava
Pelas ruas de Lisboa,
Sempre de ventas no ar,
Sem ter cheiro a coisa boa.
Subiu ao throno a Rainha
Não pode asrubir mais alto:
Dona Maria Segunda,
Filha de D. Pedro Quarto.
Quando Carlota Joaquina A’s portas do inferno entrou, Disseram os diabos todos: Olha a mãe do Rei chegou!
Bandeira Nacional usada pelos Liberais. Esta bandeira, a última da Monarquia portuguesa, retomou as cores nacionais azul e branca escolhidas por decreto das Cortes Gerais, de 22 de agosto de 1821, e que não tinham entrado em vigor.
In A. Thomaz Pires, Cancioneiro Popular Politico (Trovas recolhidas da tradição oral portuguesa). Elvas, 1891.
Epítetos atribuídos aos Liberais pelos Miguelistas:
Pedreiros-livres
Brasileiros
Malhados
Epítetos atribuídos aos Miguelistas pelos Liberais:
Corcundas
Servis
Toupeiras
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VEIGA, Francisca Branco (2024), Trovas Populares Miguelistas e Liberais (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [12 de Maio de 2024].
«Não basta sair de Coimbra com um fervor que logo murcha, antes mesmo de cruzar o equador e desejar voltar para Portugal. É necessário ter os alforjes cheios para durar até ao final do dia»
Gravura anónima do “Venerabilis P. Ioseph Anchieta e(x) Societate Iesu”. In Simão de Vasconcelos, Vida… (Lisboa, 1672).
Foi, ainda noviço para o Brasil, a 8 de maio de 1553, na 3.ª Expedição de Missionários Jesuítas, chefiada pelo Padre Luiz de Grã e na armada de Duarte Góis.
José de Anchieta e outros religiosos subiram a Serra do Mar rumo ao Planalto, onde se instalaram. A inauguração do barracão do planalto deu-se junto a uma aldeia de índios no dia 24 de JANEIRO de 1554, dia da conversão do Apóstolo São Paulo, local onde os jesuítas precisavam de tradutores e de intérpretes da língua indígena Tupi. No local, Nóbrega com a ajuda de Anchieta celebraram uma missa, em homenagem ao Santo – dava-se início à FUNDAÇÃO da cidade de SÃO PAULO.
Em 1566, Anchieta foi ordenado padre. Dirigiu o Colégio dos Jesuítas no Rio de Janeiro entre 1570 e 1573 e foi Provincial da Companhia de Jesus no Brasil durante dez anos.
A 9 de julho de 1597, José de Anchieta faleceu em Reritiba (atual Anchieta), aldeia que fundara, no Estado do Espírito Santo (Brasil).
Em 1611, os seus restos mortais foram transladados: uma parte, para o Colégio da Baía, a outra, para Roma.
Na Conferência proferida na biblioteca da Faculdade de Direito de São Paulo, a 24 de setembro de 1896, na presença dos lentes da Faculdade, do Presidente do Estado, autoridades e representantes do clero, grande número de Senhoras e cavalheiros e sob a Presidência de João Monteiro, vice-director da Faculdade, Brazilio Machado descrevia o padre Anchieta da seguinte forma:
« Era o padre Anchieta de mediana estatura, de compleição robusto, porém, descarnado; tinha pouca barba, olhos azues, cabeça grande; seu aspecto, tão magestoso quanto affavel, inspirava, em quantos o conversavam, confiança e amor!»*
Obra que integra o acervo do Museu Paulista da USP. Coleção Fundo Museu Paulista (Museu do Ipiranga) – FMP, 1920. “Às estrelas por caminhos difíceis” – A frase em latim no quadro de José Anchieta, de autoria do pintor Oscar Pereira da Silva (1865-1939), é um dos lemas fundamentais na Companhia de Jesus.
Em 1595, escreveu «Arte da Gramática da Língua mais Conhecida na Costa do Brasil», o tupi-guarani, que foi publicada em Coimbra, por Antônio Mariz, em 1595. Esta obra teve um caráter pioneiro pela sua importância para o conhecimento do tupi falado no século XVI, a qual era, até então, exclusivamente oral. Outro jesuíta, como por exemplo, o padre basco João de Azpilcueta Navarro compôs os primeiros hinos religiosos nas suas pregações aos indígenas.
De algumas maneiras de verbos em que esta anfibologia se tira – Cap. IX
Das preposições – Cap. X
De sum, es, fui – Cap. XI
Dos verbos neutros feitos ativos – Cap. XII
Dos ativos feitos neutros – Cap. XIII
Da composição dos verbos – Cap. XIIII
Da repetição dos verbos – Cap. XV
De alguns verbos irregulares de Aê – Cap. XVI
José de Anchieta : Padre Jesuíta e Apóstolo do Brasil Date: [18–] Description: “Nascido a 7 de abril de 1534 em Teneriffe, Fallecido a 9 de junho de 1597…” Zincogravura, p&b In https://acervobndigital.bn.gov.br/sophia/index.html
*In III Centenário do Veneravel Joseph Anchieta, 1900.
José de Anchieta e o Nascimento da Tradição Natalícia no Brasil
São José de Anchieta foi um verdadeiro pioneiro das artes e da evangelização no Brasil, destacando-se também na representação do mistério do Natal. Em 1553, ainda como noviço jesuíta, apresentou pela primeira vez no país a cena do Presépio, em São Vicente, no actual estado de São Paulo, dirigindo-se aos indígenas e aos filhos dos colonos portugueses. Este facto é registado com rigor pelo Santuário Nacional de São José de Anchieta, situado na cidade Anchieta que hoje tem o seu nome.
Para a construção do Presépio, Anchieta envolveu os indígenas da região, valorizando as suas técnicas tradicionais de cerâmica. Desta forma, soube transmitir ao catolicismo nascente no Brasil a antiga tradição natalícia medieval, iniciada por São Francisco de Assis em Greccio, na Itália, no ano de 1223 — uma herança espiritual que chegou até aos nossos dias, apesar das profundas crises religiosas que marcaram a Igreja após o Concílio Vaticano II.
Primeiro presépio da História, criado por São Francisco de Assis no Natal de 1223, na localidade de Greccio, em Itália. A imagem reproduz a Natividade (1490), o imponente presépio em terracota policromada do escultor italiano Andrea della Robbia, conservado na igreja de Santa Maria degli Angeli, no Santuário de La Verna, em Arezzo, Itália. Com grande delicadeza, a cena apresenta Jesus rodeado pela Virgem Maria, São José, São Francisco e Santo António de Lisboa. “Presépio Franciscano” Vista Alegre
A pedido do Padre Manuel da Nóbrega, José de Anchieta escreveu igualmente uma peça teatral de Natal, cuidadosamente adaptada à realidade e à sensibilidade dos índios de São Lourenço, localidade que corresponde hoje à cidade de Niterói.
Nesta obra, o grande Apóstolo do Brasil não hesitou em denunciar o estado moral e espiritual desses povos, imaginando um diálogo tocante entre um pecador — o indígena — que se aproxima do Presépio e do Menino-Deus, descrito com ternura como “o menino mui formoso, santo menino, nas palhinhas deitado para salvação do pecado”. Através desta linguagem simples e profundamente humana, Anchieta procurava tocar os corações e conduzi-los ao mistério redentor do Natal.
A ação da Companhia de Jesus na fundação da cidade do Rio de Janeiro
Pintura: A Construção da História Nacional pelo pintor Firmino Monteiro entre 1879 e 1884.
A fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, entendida como um processo e não como um ato isolado, contou com a presença decisiva da Companhia de Jesus, que acompanha as expedições régias, intervém nas negociações com diferentes grupos indígenas e assegura a implantação estável da Igreja no novo núcleo urbano.
Em 1563, D. Catarina, regente do trono português, ordenou que Estácio de Sá regressasse ao Brasil como chefe da armada destinada a dominar a região, contando então com o apoio direto dos padres jesuítas Manuel de Nóbrega e José de Anchieta, que recrutaram habitantes locais, em especial guerreiros temiminós sob a chefia do cacique Araribóia, para se juntarem a Estácio de Sá na luta contra os franceses.
Para além desse apoio militar e logístico na expulsão dos franceses da Baía de Guanabara, os jesuítas participam na construção da primeira casa‑igreja dedicada a São Sebastião, na catequese e na mediação com a população local, recebendo ainda uma ampla sesmaria na nova capitania.
Isso faz da Ordem, e de figuras como Nóbrega e Anchieta, alguns dos principais agentes na organização do território e na definição da paisagem social e económica da cidade nascente, articulando conversão religiosa, alianças indígenas e expansão colonial portuguesa.
A atuação da Companhia de Jesus foi um pilar fundamental na consolidação do projeto colonial português, exercendo um papel de mediação crucial entre os colonizadores e as populações indígenas. Figuras como os padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta são historicamente reconhecidas pela capacidade de negociar alianças estratégicas, como o apoio da tribo temiminó, liderada por Araribóia, que foi determinante para a expulsão definitiva dos franceses da Baía de Guanabara.
A figura de Anchieta é frequentemente associada à catequese e à conversão de importantes lideranças nativas, sendo‑lhe atribuído o baptismo de Tibiriçã, considerado o primeiro indígena convertido por ele. No imaginário artístico e literário do século XIX, Anchieta é evocado como o “missionário poeta”, possuidor de uma fisionomia angélica, que utilizava versos escritos na areia para ensinar os mistérios da fé católica aos indígenas. Por sua vez, Nóbrega é representado como a autoridade eclesiástica central, frequentemente retratado à frente de grupos religiosos e ostentando emblemas sacros em momentos de oficialização territorial.
Na iconografia histórica, a presença jesuítica simboliza a tentativa de harmonizar interesses conflitantes e unificar as diferentes “raças” em prol da construção de uma nova nação sob a égide do catolicismo. A religião, personificada nestes missionários, actuava como o elemento unificador que legitimava a posse da terra e a fundação de núcleos urbanos.
No entanto, a trajectória da Companhia de Jesus no Brasil também é marcada por uma profunda ambiguidade. Embora os jesuítas tenham sido construídos como pacificadores e conciliadores, relatos históricos apontam que eles teriam traído a confiança de grupos como a Confederação dos Tamoios. Ao revelarem segredos de confissão sobre estratégias de ataque indígenas aos portugueses, os religiosos forneceram informações estratégicas que foram decisivas para o extermínio dessa confederação, revelando uma actuação política e bélica indissociável de sua missão espiritual.
A iconografia da pintura “A Fundação da Cidade do Rio de Janeiro” (1881), de Antônio Firmino Monteiro, integra as figuras da Companhia de Jesus numa composição que simboliza a união entre a fé católica e o poder civil na formação da nação.
Detalhes iconográficos dos jesuítas
Manuel da Nóbrega: É retratado numa posição de liderança eclesiástica, aparecendo à frente de um grupo religioso e suspendendo um emblema sacro. Sua presença confere um carácter oficial e sagrado ao acto de fundação territorial.
José de Anchieta: É descrito pela crítica da época como possuidor de uma “fisionomia angélica”. Na tela, ele aparece ao lado do bispo D. Leitão, que veste seus hábitos sacerdotais, mitra e báculo. Anchieta personifica o “bom missionário poeta”, evocando a tradição de que ele ensinava os mistérios da religião aos indígenas através de quadras escritas na areia.
Composição e cenário religioso
O altar e a cruz: A cena religiosa é reforçada pela presença de um altar onde a missa foi celebrada, com velas esguias ainda acesas, palmas e galhetas. Uma cruz está situada logo ao lado do Morro do Pão de Açúcar, criando uma sensação de comunhão entre a natureza exuberante e a fé católica.
A mediação entre grupos: Os jesuítas estão posicionados no centro‑direito da tela, servindo como um elo visual e simbólico entre os portugueses (governador Mem de Sá e senadores) e o grupo de indígenas em primeiro plano. Essa disposição reforça o papel histórico da Companhia de Jesus como mediadora na aliança com a tribo temiminó.
Simbolismo da unificação e conflito
União das raças: A iconografia sugere que a religião, personificada por Anchieta e Nóbrega, foi o elemento capaz de unificar brancos e índios e harmonizar interesses conflitantes em prol de uma nova nação.
Contraponto ao indígena convertido: A presença dos padres dialoga directamente com a figura de Tibiriçã (Martim Afonso), o primeiro índio convertido por Anchieta, que aparece em destaque na tela.
Crítica subjacente: Embora a pintura apresente uma cena harmoniosa, as fontes lembram que essa iconografia omite a actuação ambígua dos jesuítas, que teriam traído segredos de confissão dos Tamoios para auxiliar na vitória militar portuguesa, um facto que Monteiro conhecia através das crónicas jesuíticas e da literatura indianista.
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VEIGA, Francisca Branco, Padre JOSÉ DE ANCHIETA (1534 – 1597) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [02 de Maio de 2024].
(Rio de Janeiro, 4 de abril de 1819 – Lisboa, 15 de novembro de 1853)
A princesa Dona Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança, nasceu a 4 de abril de 1819, domingo de Ramos, no Rio de Janeiro, filha do Imperador D. Pedro I do Brasil e de Maria Leopoldina de Áustria. Nasceu em terras brasileiras, no palácio da Boavista. Aí se tinham refugiado estrategicamente os seus avós D. João VI e D. Carlota Joaquina e a restante corte após a invasão da metrópole pelos franceses.
Seria a futura rainha de Portugal, D. Maria II.
Segunda rainha reinante de Portugal e trigésimo monarca português (1834-1853), ficou conhecida pelo cognome de “a Educadora”.
– Cortejo do batismo da princesa real D. Maria da Glória, no Rio de Janeiro. Prancha 44, volume III, Voyage pittoresque et historique au Brésil. Jean Baptiste Debret. França, 1834 a 1839. National Library collection. Brasiliana Iconográfica.
A notícia do nascimento da princesa D. Maria da Glória é dada no nº 176 da Gazeta de Lisboa, 26 de Julho:
LISBOA(…)
«Havendo-se dignado Deos Nosso Senhor de felicitar estes Reinos com o Nascimento de huma Princeza da Beira, que a Serenissima Senhora Princeza Real do Reino Unido de Portugal, Brasil, e Algarves deo à luz no dia 4 de Abril do presente anno com feliz secesso: Foi S. M. Servido que por ocasião deste plausível motivo hovesse três dias de luminárias, repiques e salvas de artilheria nesta Capital, e em todas as Cidades e Villas destes Reinos, bem como nos seus Castellos, Torres e Fortalezas, as quaes demonstrações festivas hão de começar hoje 28 do corrente mez, e continuar nos dois próximos seguintes em que deve suspender-se o Despacho em todos os Tribunaes». Biblioteca Nacional de Portugal
Rainha D. Maria II de Portugal, em criança. Séc. XIX. Autor desconhecido. Fonte: Palácio do Correio Velho
A obra musical interpretada na cerimónia religiosa do seu batizado, realizado no Rio de Janeiro em 3 de Maio de 1819, foi o Hino Te Deum do compositor luso-brasileiro Marcos Portugal (Lisboa, 1762 – Rio de Janeiro, 1830), segundo fontes do periódico Gazeta do Rio de Janeiro , de 5 de Maio de 1819:
“A Serenissima Senhora Princeza da Beira Houve o Nome de D. MARIA DA GLORIA JOANNA CARLOTA LEOPOLDINA IZIDORA DA CRUZ FRANCISCA XAVIER DE PAULA MICAELA GABRIELA RAFAELA LUIZA GONZAGA. Depois entoou o mesmo Excellentissimo Bispo o hymno Te Deum, que foi cantado pelos Musicos da Real Camara e Capella, com Musica composta e dirigida pelo celebre Marcos Portugal, Mestre de SS. AA. RR., assim como muitas agradaveis symphonias, que se tocarão em todo o tempo que durou esta augusta cerimonia”.
– O quadro retrata a imperatriz Leopoldina com os seus filhos. No colo, está o futuro imperador do Brasil, Pedro II. À esquerda, de baixo para cima, estão: Paula, Januária e Francisca de Bragança; na direita, está Maria, futura rainha de Portugal. Pintor, Domenico Failutti. Data de criação, 1921. Localização, Museu do Ipiranga.
D. Maria II foi, sucessivamente, princesa da Beira (1819-1822), princesa imperial do Brasil (1822-1825), princesa do Grão-Pará (1825-1826) e rainha de Portugal (1826-1853).
D. Pedro IV de Portugal abdicou da coroa portuguesa em nome da sua filha, D. Maria II, a 3 de maio de 1826.
No dia 23 de setembro de 1833, D. Maria II chega a Lisboa, vinda de França, acompanhada da madrasta, D. Amélia de Leuchtenberg e da irmã, a princesa D. Maria Amélia de Bragança (1831-1853).
CASAMENTOS
Com dispensa papal, por procuração, em 29 de outubro de 1826 casou com seu tio, o infante Miguel (1802-66). O casamento foi dissolvido ou declarado nulo em 1 de dezembro de 1834.
Casou em Munique por procuração em 1 de Dezembro de 1834 e em pessoa em Lisboa em 26 de janeiro de 1835 com o príncipe Augusto de Beauharnais, nascido a 9 de dezembro de 1810, Duque de Leuchtenberg (Pais : M Eugène de Beauharnais 1781 & F Augusta, Princesa da Baviera 1788-1851).
Casada a 9 de abril de 1836, com D. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, sobrinho do rei Leopoldo I dos belgas, nascido a 29 de outubro de 1816 – Vieina, Áustria, falecido a 15 de dezembro de 1885 – Lisboa, Lisboa, Portugal com a idade de 69 anos.
No seu reinado assiste-se ao nascimento de um novo quadro político, o triunfo do liberalismo, e foi marcado pelo influxo do romantismo.
Foi rainha em dois períodos distintos:
– 2 de maio de 1826 a 11 de julho de 1828 (ainda no Brasil);
– 26 de maio de 1834 a 15 de novembro de 1853 (em Portugal).
Sobre D. Maria, escrevia Almeida Garrett, no exílio:
“Uma princesa que tem de reinar por si e por seu próprio direito, é fêmea de facto e varão de direito e a educação tem, neste caso, de contrastar a natureza e diminuir quanto é possível a mulher para que só fique a rainha”.
Figura-chave no estabelecimento do Ensino Primário gratuito em Portugal.
Bandeira Nacional em vigor desde o reinado de D. Maria II até ao final do reinado de D. Manuel II
Morreu aos 34 anos no nascimento do seu 11º filho, que também morreu.
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Como referir este artigo:
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VEIGA, Francisca Branco (2024), O NASCIMENTO DE D. MARIA II (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [04 de Abril de 2024].
Veja-se, VEIGA, Francisca Branco (2019, nov.). 1832-1834 Regência de D. Pedro em nome de sua filha D. Maria da Glória: fim do governo temporal da Igreja Católica e das Ordens Religiosas em Portugal. In SOARES, Clara Moura; MALTA, Marize (eds.), D. Maria II, princesa do Brasil, rainha de Portugal Arte, Património e Identidade, Lisboa: Palácio Nacional da Ajuda, 12 nov. (pp. 113-120). ARTIS – Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
VEIGA, Francisca Branco (2023), Companhia de Jesus. O breve regresso no reinado de D. Miguel. Ed. de Autor.
O objectivo principal na construção de um edifício religioso/escolar da Companhia de Jesus baseou-se em criar um conjunto equilibrado que incluísse diversos espaços para os vários grupos que o habitavam.
Os jesuítas dedicaram desde sempre cuidados especiais no tratamento das fachadas das suas igrejas. No séc. XVI, dominavam nas fachadas jesuítas os valores planimétricos, sem qualquer elemento decorativo, no seguimento dos ideais saídos do Concílio de Trento e como reflexo dos ideais jesuítas de pobreza e simplicidade. Mas a partir de meados do séc. XVII surgem nas fachadas efeitos escultóricos e rítmicos, com a introdução de nichos que albergavam estátuas de santos da Companhia. A preocupação de criar modelos de fachadas tinha como intenção a propagação da fé e de modelos de santidade.
Os jesuítas, considerando a pregação da Palavra de Deus como prioridade de toda a acção pastoral tornaram a igreja numa igreja de pregação, catequista, contra a Reforma Protestante que se espalhava por toda a Europa.
A igreja de Gesú, em Roma, tornou-se o modelo arquitectónico a seguir, aquele que traduz as leis e as regras da Companhia de Jesus.
Arquiteto Giacomo Barozzi da Vignola, Giacomo della Porta Início da construção 1568 Fim da construção 1580
Seguidamente, iremos mostrar alguns exemplos de fachadas de Igrejas Jesuítas em Portugal.
I – Paço Real de Santarém / Colégio de Nossa Senhora da Conceição / Seminário de Santarém / Catedral de Santarém / Sé de Santarém
1673 – o projeto da fachada foi aprovado em Roma, pelo Geral da Companhia, sendo atribuível a João Nunes Tinoco.
A fachada principal tem afinidades compositivas com a Sé Nova de Coimbra, com estrutura tripartida, flanqueada por dois panos, que corresponderiam às torres sineiras, não construídas, rasgada por três portais de verga reta e vazada por janelas e nichos, contendo os principais Santos da Ordem, rematada por tabela com a imagem do orago, flanqueada por aletas e rematada em frontão de lanços.
Nos nichos, podemos ver as imagens de Santo Inácio de Loyola e São Francisco Xavier e São Francisco de Borja e São Luís Gonzaga.
A fachada possui várias inscrições, alusivas aos santos da Ordem e às Litanias Marianas, bem como datas de construção e reforma.
II – Colégio do Espírito Santo / Colégio da Companhia de Jesus / Universidade de Évora
A construção desta igreja resultou da fundação do Colégio do Espírito Santo, da Companhia de Jesus, instituído na cidade de Évora, na segunda metade do século XVI.
Iniciou-se em 4 de outubro de 1566, sacrificando-se o primitivo Convento do Salvador (de freiras clarissas).
A fachada, de aspeto pesado e imponente, em estilo chão, ritmada por pilastras toscanas colossais e rematada por frontão triangular sobre um óculo, seguiu o esquema da primeira fase construtiva da Companhia de Jesus, constituindo a única diferença a solução de galilé (caso único na arquitectura dos jesuítas em Portugal), com acesso por arcadas.
III – Igreja e Colégio de São Lourenço / Igreja e Convento dos Grilos / Seminário Maior de Nossa Senhora da Conceição (Porto)
1690 – início da construção da atual fachada principal da igreja.
1709 – conclusão da fachada principal da igreja.
Em dia de S. Lourenço do ano de 1570, os jesuítas lançaram a primeira pedra da sua igreja e colégio nas imediações do Paço Episcopal, em estilo maneirista barroco-jesuítico, financiados por doações de fiéis, assim como por Frei Luís Álvaro de Távora, Comendador de Leça do Balio, da Ordem de Malta, cujo brasão de armas encima a fachada principal.
Fachada com dois registos marcados por entablamento, e estrutura tripartida, definida por pilastras, desenvolvendo-se, em cada pano, uma composição simétrica de vãos alinhados, compostos por portais, janelões, nichos e janelas fingidas.
Apresenta torres sineiras, desenvolvidas a partir de aletas no segundo registo, dando a ilusão de escalonamento da fachada.
A monumental fachada principal da igreja cria um espaço cenográfico face ao pequeno largo onde se implanta, ajudando a acentuar a sua verticalidade, também conseguida pelo facto da fachada se desenvolver acima da cobertura, criando vãos rectangulares abertos sem funcionalidade.
Possui um esquema único de implantação das sineiras, que se desenvolvem a partir dos panos laterais da fachada principal, ligeiramente recuadas e sobre as aletas que flanqueiam o remate.
IV – Colégio de São Sizenando / Colégio de São Francisco Xavier / Igreja da Santa Casa da Misericórdia de Portimão
1659, 26 Agosto – carta de doação onde Diogo Gonçalves lega todos os seus bens à Companhia de Jesus, pretendendo, através desta, fundar uma casa de ensino na sua terra natal, Vila Nova de Portimão.
1660, 21 Outubro – lançamento da 1ª pedra; o fundador, Diogo Gonçalves, dedica a igreja a S. Francisco Xavier, apóstolo da Índia; o projecto e traça pertence ao Padre Bartolomeu Duarte, matemático jesuíta e herdeiro do fundador, contando ainda com contributos do arquitecto João Nunes Tinoco; de Lisboa veio o construtor António Gonçalves.
1707, 3 Março – é inaugurada a igreja do Colégio onde se contou com uma novena matinal dedicada ao seu padroeiro, S. Francisco Xavier, e vários sermões pregados pelos religiosos do Colégio e pelo Padre Lente de prima de Moral, de Faro.
Segundo a inscrição no túmulo de D. Diogo Gonçalves, a cerimónia do lançamento da primeira pedra teve lugar em 21 de outubro de 1660. Em maio de 1663, este obteve do Geral da Companhia de Jesus o reconhecimento oficial como fundador do colégio. Em 13 de março de 1664, elaborou o seu testamento, onde legou aos padres da Companhia de Jesus uma renda anual no valor de 300 mil Réis, dez moios de trigo, um lagar de azeite em Estômbar e vários terrenos. D. Diogo Gonçalves falece em 17 de junho desse ano, aos 73 anos de idade, não chegando a ver o edifício concluído. O colégio começou a funcionar em 1704, de forma provisória.
A igreja foi inaugurada ao culto em 3 de março de 1707, e em agosto desse ano o colégio foi definitivamente aberto.
Fachada
Fachada principal voltada a Sul, simétrica e escalonada, constituída por um corpo central saliente e dois laterais mais pequenos e ligeiramente recuados, sendo o corpo central dividido verticalmente em 3 partes, separadas entre si por duplas pilastras de pedra lisa assentes em peanhas, com quatro registos vazados na parte central, três nas partes que a ladeiam e dois nos corpos adossados, divididos por cornijas, em pedra entre o primeiro e o segundo, e em alvenaria entre os restantes, e limitados por cunhais apilastrados em cantaria com pedra rusticada no corpo central e em alvenaria nos adjacentes.
A parte central, apresentando um embasamento em pedra, correspondente à igreja, tem no registo inferior três portais, com acesso por quatro degraus, em cantaria de verga, definindo cada um deles os três panos que a constituem, sendo os laterais simples, com frontão circular, e o principal, o maior destes, coroado por frontão interrompido com coroa real em pedra e cruz gravada; os registos seguintes, por janelas de cantaria e com guarda de ferro, rasgadas até ao nível do pavimento e com bandeira no segundo registo; o último por frontão com arco de querena, com óculo oval e uma pedra abrasonada ao centro envolvidos por um trabalho em massa, sendo encimado por uma cruz de pedra; as partes que ladeiam a central têm cada uma três panos, situando-se os portais, de cantaria de verga simples, no pano que se encontra mais próximo do centro da fachada, sendo os restantes panos ocupados por janelas; o segundo registo, com janelas de cantaria rasgadas até ao nível do pavimento e com bandeira; o terceiro registo termina obliquamente acompanhando a inclinação das águas do telhado, tendo apenas uma janela situada no pano do portal.
Gravura: Gravura de 1813 com uma vista panorâmica de Portimão, então denominada de Villa Nova de Portimão, na região do Algarve, em Portugal. Foi provavelmente feita com base num ponto de vista a partir de Ferragudo, tendo em primeiro plano o estuário do Rio Arade. No centro, destacando-se do casario, são claramente visíveis os edifícios da Igreja Matriz e do Colégio dos Jesuítas. Biblioteca Nacional de Portugal.
V – Colégio dos Jesuítas / Câmara Municipal e Tribunal de Comarca de Gouveia
15 Agosto 1723 – fundação do Colégio, dedicado à Santíssima Trindade, pelo Mestre de Campo António de Figueiredo Ferreira.
9 Setembro 1734 – contrato para a construção do colégio com os mestres António do Vale, de Gouveia, António Lourenço e Manuel do Vale, ambos de Caminha.
1739 – inauguração do colégio;
1 Julho 1743 – o Padre Bernardo Vieira era vice-superior e procurador geral do convento, residente nele.
Fevereiro 1759 – na data do sequestro dos bens dos Jesuítas, as obras não se encontravam concluídas e o edifício albergava apenas 5 religiosos.
Pertenceu ás nobiliárquicas famílias dos Távora e dos Figueiredo, como documentam os brasões sobre as duas portas laterais com as armas nacionais da época joanina.
Fachada
Fachada principal virada a Sul, com organização simétrica, a partir da zona central, tripartida, compondo o acesso à igreja, através de três portas de verga recta encimadas por janelas, as centrais a iluminar o coro-alto; os panos laterais possuem janelas rectilíneas, umas de maiores dimensões e mais decoradas, encimadas pela cornija do remate, alteada e curva, criando falsos frontões semicirculares, já de inspiração barroca, a marcar os corredores interiores de circulação. Fachadas circunscritas por cunhais apilastrados, rematadas em friso, cornija e platibanda, e rasgadas regularmente por janelas rectilíneas, algumas de maiores dimensões, com solução semelhante às da fachada principal, a marcar os corredores, algumas delas de sacada.
VI – Colégio de São João Evangelista. Portugal, Ilha da Madeira (Madeira), Funchal, Funchal (São Pedro)
1567 – primeira visita dos Jesuítas ao Funchal
1569, 20 agosto – alvará régio de fundação do colégio, que recebia um dote anual de 600$000
1570, março – chegada dos Jesuítas ao Funchal para a fundação do colégio
1575, 23 Setembro – envio para Roma da planta geral do colégio e igreja para aprovação, sendo as primeiras traças atribuíveis a Mateus Fernandes, não sendo de descorar a hipótese de terem vindo de Lisboa, da autoria de Baltasar Álvares
1750 – chegam de Lisboa as imagens da fachada
Fachada
Igreja com fachada principal virada a Sul, rebocada e pintada de branco, com embasamento em cantaria, de disposição simétrica, integrando o corpo tripartido pelos vãos e duas torres sineiras ao mesmo nível, rematando o conjunto em empena com cruz latina no vértice, assente em plinto volutado.
O corpo divide-se em três registos separados por friso e cornija, o inferior rasgado por três portais com molduras de cantaria, flanqueados por pares de colunas toscanas assentes em plintos almofadados, suportando friso geométrico e frontão, nos portais laterais, de verga recta, de perfil triangular, e, no central, mais elevado e de volta perfeita, interrompido; o registo intermédio possui janelão central flanqueado por pilastras toscanas e encimado por frontão semicircular, ostentando avental de alvenaria enquadrando uma cartela em mármore branco com o “trigrama”, emblema da Companhia.
O conjunto é flanqueado por quatro janelas sobrepostas articuladas por cornija a sublinhar o duplo andar, as inferiores de varandim com guarda metálica; no terceiro piso, janela rectilínea central, encimada por armas nacionais em mármore, envolvidas por moldura fitomórfica e ladeado por dois nichos de volta perfeita assentes em pilastras toscanas e remates em cornija, contendo Santos da Companhia.
As torres dividem-se em três registos, demarcadas por três ordens de pilastras de cantaria regional e rematadas por eirados com balaustrada encimada nos cunhais por pináculos, tudo em cantaria; o primeiro registo, bipartido, possui nichos semelhantes aos anteriores, com imagens, surgindo, no segundo, duas janelas de varandim sobrepostas, repetindo o módulo do corpo da igreja; no piso superior, uma janela semelhante às anteriores.
VII – Igreja do Salvador / Colégio de Santiago de Elvas / Igreja Paroquial do Salvador / Biblioteca Municipal de Elvas
1643, 4 Fevereiro – a fundação do colégio foi aprovada por D. João IV
1679 – é enviado o Padre Bartolomeu Duarte para riscar a igreja e novo colégio
4 Julho – o bispo Jerónimo Soares lança a primeira pedra do edifício
1692, 17 Agosto – inaugurada a igreja do colégio com solene procissão
18 Agosto – rezada a primeira missa no templo, pelo bispo D. Jerónimo Soares
FACHADA
Fachada principal a NorOeste., refletindo o interior, com três registos definidos por friso e cornija saliente, que se prolongam pelo alçado NO. do corredor adossado à direita; embasamento em pedra; três panos, definidos por pilastras sobre plintos, correspondentes, o central à nave, os extremos às torres sineiras rematados pelos corpos das sineiras mais elevados; panos das torres cegos, sineiras em arco de volta perfeita, pináculos nos eirados e catavento de ferro forjado coroando os coruchéus; pano central rasgado inferiormente por três portais em mármore, os laterais encimados por frontão curvo coroado de pináculo, o central, mais elevado, encimado por frontão interrompido; sobre este cartela inscrita, pétrea, de concheados e enrolamentos envolta por festão pendente; no registo intermédio rasgam-se três janelões, axiais aos portais, com vergas dupla encimadas por cornija saliente junto à linha da cornija divisória do alçado; no terceiro registo três janelões idênticos; remate em empena e cornija, coroada no vértice por cruz de pedra e com óculo moldurado rasgado no tímpano.
Inscrição comemorativa de doação gravada na cartela que encima o portal central da igreja. Sulcos das letras preenchidas com betume preto. Mármore. A altura a que se encontra impossibilita a obtenção de medidas.Tipo de letra: capital quadrada. Leitura modernizada: EL REI DOM AFONSO VI COMO GRÃO MESTRE E GOVERNADOR DA ORDEM DE AVIS FEZ MERCÊ COM LICENCA DO SUMO PONTÍFICE AOS RELIGIOSOS DA COMPANHIA DE JESUS DA ERMIDA DE SANTIAGO PARA NELA SE FUNDAR ESTA IGREJA – ANO DE MDCLIX.
VIII – Colégio de São Paulo / Igreja de São Paulo e Seminário de Santiago / Seminário Conciliar de São Pedro e São Paulo / Museu Pio XII
BRAGA
ARQUITETOS: Padre Silvestre Jorge (1567); Gonçalo Dias (1586-87).
1560 – o Arcebispo D. Frei Bartolomeu dos Mártires doou o estabelecimento escolar com todas as rendas anexas, aos Padres da Companhia de Jesus, que consistiam nas igrejas de Santa Maria do Vimieiro e de São Salvador de Mazedo.
1563 – o Papa Pio IV, pela Bula “Superni dispositione” aprovou e confirmou o contrato de doação do Colégio de São Paulo, Estudos e Igreja à Companhia de Jesus.
1566 – preparativos para o início da construção da igreja.
31 outubro – início da construção da igreja.
1785 – o Arcebispo Gaspar de Bragança entregou o colégio às Ursulinas de Viana que aqui se estabeleceram até 1878.
…
1957 – o reitor do Seminário Cónego Luciano dos Santos fundou o Museu Pio XII, e atualmente serve de Casa Sacerdotal.
A fachada principal da igreja abre-se para o Largo de São Paulo, calcetado, situando-se a N. a Igreja Paroquial de Santiago da Cividade.
Igreja com fachadas em cantaria de granito aparente, com aparelho isódomo, à excepção da lateral S. e capela-mor, rebocadas e pintadas de branco, percorridas por embasamento saliente e rematadas por cornija e beiral, com cunhais apilastrados toscanos. Fachada principal orientada, de dois registos separados por friso, com três panos, definidos por dupla ordem de pilastras toscanas, sendo as dos extremos agrupadas em par; as pilastras do segundo registo, rematadas por pináculos piramidais com bola, suportam entablamento, interrompido ao centro por óculo, formando frontão triangular no remate, com cruz latina no vértice. O registo inferior possui, no pano central, portal em arco de volta perfeita, enquadrado por pilastras toscanas, emolduradas, rematado por entablamento, encimado por frontão triangular, com acesso por quatro degraus; o superior possui, nos panos laterais, janelas rectangulares assentes no friso de separação.
IX – Igreja do Colégio de Nossa Senhora da Conceição de Campolide / Igreja Paroquial de Campolide / Igreja de Santo António
Arquitetura educativa, ecléctica. Colégio jesuíta composto por igreja (de planta longitudinal) à direita e edifício residencial de planta rectangular.
A igreja segue o modelo das igrejas das Ordens mendicantes em Portugal.
FACHADA DA IGREJA
A fachada da igreja é de corpo único, delimitado lateralmente por pilastras e rematado por frontão triangular, é de assinalar o portal, com ombreiras de cantaria e frontão curvo, encimado pelo grande óculo que ilumina o coro. Uma torre sineira de secção quadrada encontra-se adossada ao lado.
CRONOLOGIA
1858 – fundação do colégio da Companhia de Jesus de Campolide pelo padre Carlos Rademaker, numa quinta denominada da Torre, adquirida pela Companhia de Jesus ao poeta João de Lemos
1879, 8 de Dezembro – lançamento da 1ª pedra da igreja de Nossa Senhora da Conceição, anexa ao colégio com a mesma invocação
X – Colégio de São Francisco Xavier / Palácio Fryxell / Instituto Politécnico de Setúbal
FACHADA atual do Colégio de São Francisco Xavier
Localização aproximada da igreja de S. Francisco Xavier.
Lamentavelmente, a reprodução do layout arquitetónico da igreja do Colégio de Setúbal é inviável. Ao longo do tempo, diferentes ocupações e eventos naturais causaram mudanças significativas nos espaços, resultando na total obliteração da sua disposição e estrutura original, deixando para trás pouca ou nenhuma evidência física dessa organização.
No final do séc. XIX Alberto Pimentel e Augusto Pinho Leal dão-nos a conhecer mais um pouco acerca da localização da igreja:
– «Consta que era de boa arquitectura, e tinha a fachada voltada para o fundo da egreja parochial de Santa Maria» (Pimentel, 1877)*.
– «Era de boa architectura, tendo a frente para o fundo da egreja da Sra da Graça» (Pinho Leal, 1880)**.
*PIMENTEL, Alberto. Memória sobre história e administração do Município de Setúbal, Lisboa, C.M. de Setúbal, 1877.
**LEAL, Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho, Portugal Antigo e Moderno, Diccionario geographico, estatistico, chorographico, heraldico, archeologico, historico, biographico e etymologico, de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal, Lisboa, Matos Moreira & Companhia, 1880.
CRONOLOGIA
1654, 1 Março – é nomeado um local para criação do Colégio, no sítio das Amoreiras, até à estrada que ia para o terreiro de Jesus; as despesas de construção seriam custeadas com esmolas da população
1655/56 – edificação da Igreja (o Visitador a 8 de maio de 1656 benzeu e lançou a primeira pedra da igreja)
1755, 1 Novembro – destruída a primeira igreja com o terramoto, saindo ilesa a capela-mor que fica então a servir de igreja
1755 – 1758 – o padre Malagrida, reitor do Colégio, empreende obras de reconstrução
– os actos religiosos passaram a decorrer na Capela de São Francisco Xavier
– a Igreja tinha a frente virada para o fundo da Igreja da Senhora da Graça
1758, 2 Setembro – alvará régio leva à expulsão da Companhia de Jesus e ao abandono do Colégio.
– Noviciado S. Francisco de Xavier (1706-1758). VEIGA, Francisca – “O noviciado como escola de formação de missionários: o noviciado de São Francisco de Xavier, de Arroios”. Comunicação proferida no Hospital de Santa Marta, Lisboa, 18/04/2012. Colóquio “Franciscanos, Jesuítas e Doutores: 500 anos a fabricar ideias de futuro para este mundo e o outro”. In https://franciscabrancoveiga.com/…/noviciado-s…/
XI – Colégio de São Francisco Xavier / Igreja Paroquial da Horta, Açores
Ilha do Faial (Açores), Matriz
Fachada principal: portal da zona regral
Arquitectura religiosa educativa, maneirista e barroca. Pertenceu a um Colégio da Companhia de Jesus, de planta rectangular regular, onde se inseria a igreja ao centro, uma zona conventual e outra colegial adossadas.
Fachada principal harmónica, com o corpo tripartido pelos vãos que a rasgam, flanqueada por torres sineiras à mesma altura, seguindo uma tendência típica das Ilhas, numa solução que a Companhia divulgou nos imóveis construídos no séc. XVII, estando presente nas fachadas dos Colégios de Elvas, Santarém, Angra, Ponta Delgada e Funchal, bem como na Casa Professa de Vila Viçosa. Fachadas circunscritas por cunhais apilastrados e rematadas em friso e cornija.
«IGREJA com fachada principal de tratamento simétrico, integrando, lateralmente, duas torres sineiras, à mesma altura do corpo central, com tratamento tripartido, dividido por quatro ordens de colunas e pilastras toscanas, definindo os quatro registos, separado por friso e cornija, que, no superior, são de maiores dimensões e mais salientes, correspondendo ao ligeiro recuo do muro.
No primeiro registo, rasgam-se três portais de verga reta e molduras recortadas, o central de maiores dimensões; nos três restantes, surgem, três janelas rectilíneas, as primeiras de varandim com guarda metálica, sendo, as do piso superior, rematadas em frontão, triangular no centro e semicircular sobre as laterais.
O corpo remata em tabela retangular vertical, enquadrando um resplendor envolvido por motivos vegetalistas, flanqueada por pilastras toscanas, encimadas por pináculos e aletas, sendo rematada por friso, cornija e espaldar contracurvado, sobre o qual surge cruz latina.
As torres dividem-se em quatro registos, os inferiores com janelas em capialço, os intermédios com janelas rectilíneas, as primeiras de varandim, e, no registo superior, as sineiras em arco de volta perfeita, assentes em impostas salientes; rematam em friso e cornija, encimados por pináculos e têm cobertura em cúpula»*.
CRONOLOGIA
1648, 25 Novembro – falecimento do capitão Francisco Dutra de Quadros, que, em testamento, efectuado a 15 de Fevereiro de 1644 e aprovado a 8 de Junho de 1645, deixou bens para a fundação de um colégio da Companhia de Jesus
1652, 15 Outubro – fundação do Colégio de São Francisco Xavier, por ordem do vice-provincial Jerónimo Vogado, enviando um visitador e três padres, que chegaram no dia 21 do mesmo mês; lançamento da primeira pedra.
1680 – início da construção da igreja.
1759, 23 Junho – alvará extinguindo as classes e as escolas jesuíticas.
3 Setembro – ordem para a extinção da Companhia de Jesus.
1760 – expulsão da Companhia de Jesus, ficando por concluir o interior da igreja.
1825, A igreja tornou-se matriz.
1926, 31 Agosto – um terramoto abala o edifício.
1926 – 1930 – reconstrução do imóvel.
18 de Julho – criação do Museu da Horta.
2000 – criação do Núcleo Museológico dos Capelinhos para acolher a exposição permanente sobre a erupção vulcânica de 1957.
HOJE, o edifício alberga o Museu da Horta e a Câmara Municipal.
*VEJA_SE, CARITA, Rui, “O Colégio Jesuíta de São Francisco Xavier no Faial”, in O Faial e a periferia Açoriana nos séculos XV a XX, Horta, 1998, pp. 113-153; AFONSO, João, “A Igreja do Colégio de Angra no conjunto dos templos insulares da Companhia de Jesus (esboço de um estudo comparativo)”, in Atlântida, vol. X, n.º 1, Janeiro – Fevereiro 1966, pp. 55-60; http://www.monumentos.gov.pt
XII – Colégio dos Jesuítas de Vila Viçosa/Casa Professa de São João Evangelista / Igreja Paroquial de São Bartolomeu de Vila Viçosa / Igreja de São Bartolomeu
Fachada da Igreja Paroquial de S. Bartolomeu de Vila Viçosa
Casa professa da Companhia de Jesus, maneirista e barroca, de planta rectangular regular, composta por igreja no lado direito, com pátio adossado, este evoluindo em duas alas, por se encontrar inacabado. A igreja é de planta longitudinal, com quatro tramos e três capelas intercomunicantes, transepto inscrito, capela-mor pouco profunda e sacristia adossada ao lado direito, seguindo o esquema da Casa de São Roque.
Fachada principal harmónica, ostentando uma certa imponência no estilo barroco, forrada a bardilho marmóreo da região. Corpo tripartido pelos vãos que a rasgam, com três ordens de janelas e três portais ladeados de colunas dóricas. Fachada circunscrita por cunhais apilastrados e rematada em friso e cornija; frontões semicirculares, que contrastam com os frontões triangulares das janelas intermédias; o remate da fachada foi alterado pela introdução de platibanda e relógio. Acompanham-na duas torres sineiras mais altas, quadrangulares, numa solução que a Companhia divulgou nos imóveis construídos no séc. XVII, sem coruchéus e em cujos campanários de seis sinos se inclui o famoso Caracena que serviu o relógio público da Torre de Menagem do Castelo e que nas guerras da Restauração foi fortemente danificado pelas tropas do general espanhol daquele nome.
O frontão central é flanqueado por duas colunas estriadas assentes em plintos paralelepipédicos, que sustentam friso e cornija, tendo, na verga, as insígnias da Companhia de Jesus.
1569 (cerca de) – fixação dos Jesuítas na vila, instalando-se em casas arrendadas;
1601 – D. Teodósio II, Duque de Bragança, facilitou a compra do solar de João Gomes Vieira, situado na R. dos Fidalgos, por 1500 cruzados, onde se fundou a Casa Professa;
1602 (28 Janeiro) – a Casa foi incluída no padroado da Casa de Bragança;
1759 – expulsão dos Jesuítas e ocupação pela Casa de Bragança; o templo ficou a cargo das Irmandades de Nossa Senhora do Socorro e Santa Quitéria;
1822, 10 Dezembro – colocação, pela Câmara Municipal, do relógio no frontão da fachada principal.
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VEIGA, Francisca Branco (2024), Fachadas das Igrejas Jesuítas em Portugal (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [01 de Abril de 2024].
Durante a Renascença italiana, obras antigas inspiraram os estudiosos italianos, dando origem a diversos movimentos humanistas. Com os Iluministas, os valores humanistas foram reforçados, com os avanços da ciência e das tecnologias, acreditando-se nas capacidades do Homem (individualismo/antropocentrismo; espirito crítico; racionalismo) .
A decadência dos costumes do alto clero secular (bispos, cardeais e papas), devido à imoralidade, ao absentismo, à falta de vocação, à compra e venda de cargos eclesiásticos e a falta de austeridade, venda de relíquias, venda de indulgências e exploração da crença e da piedade dos fiéis pela Igreja Monástica, levou à quebra do prestígio e da autoridade da Igreja Católica Romana.
Os humanistas cristãos criticavam a hipocrisia e a corrupção do clero, defendiam a necessidade de renovação da vida religiosa, e procuravam através da crítica e do estudo dos textos evangélicosrealçar o afastamento da mensagem que a Bíblia transmitia, propondo o regresso à pureza original do cristianismo e à interioridade da fé, defendendo a tradução da Bíblia para as línguas nacionais, de modo a possibilitar aos crentes um acesso direto e pessoal aos textos sagrados e colocando em causa o papel exclusivo dos sacerdotes na leitura e interpretação dos Evangelhos.
Como humanistas cristãos, apoiavam-se nos textos antigos, com o fim da purificação das Escrituras Sagradas, recusando a interpretação contida nas diversas em citações feitas pelas autoridades clericais medievais.
Martinho Lutero era um cristão profundamente devoto e, como qualquer homem do seu tempo, vivia preocupado com a questão do julgamento final e da salvação eterna.
Entendia que nem as obras nem as indulgências influenciavam a salvação dos homens e que só a fé em Deus podia salvá-los.
Para Lutero, o caminho da salvação era da responsabilidade do cristão e da sua fé; as indulgências eram, assim, contrárias à doutrina cristã.
Em 31 de Outubro de 1517, Martinho Lutero afixou na porta da catedral de Wittenberg, as 95 Teses contra as Indulgências.
Estava aberta a rutura com Roma e iniciava-se um novo cisma na cristandade ocidental. O ano de 1517 assumia-se como a data oficial do início da Reforma.
O protestantismo viu a sua definição concretizada, em 1530, na Confissão de Augsburgo:
Martinho Lutero recusou alguns dos dogmas católicos:
– negava a hierarquia e a autoridade do papa;
– o celibato eclesiástico foi recusado. Todos os cristãos eram iguais pelo Batismo;
– o sacerdócio era universal: todos os crentes eram pastores;
– a Bíblia foi traduzida para as línguas nacionais;
– os Evangelhos eram a única fonte de fé e de toda a revelação;
– negava o papel das obras na salvação: só a fé em Deus era salvadora;
– quanto aos sacramentos: reconhecia o Batismo e a Eucaristia; – adotou a comunhão do pão e do vinho instituída por Cristo;
– recusou o papel da Virgem e dos santos;
– não reconhecia a validade de determinados ritos;
– a missa era celebrada em língua vulgar e não em latim;
– elementos principais do culto: a leitura da Palavra do Evangelho, o sermão e os cânticos.
Foi o movimento protestante e a sua rápida expansão que deu o impulso e impôs a urgência de renovação da Igreja Católica.
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Lutero morto conforme retratado por Lucas Cranach, o Velho
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Encontra-se sepultado na Igreja do Castelo de Vitemberga (Alta Saxónia, Alemanha)
Schlosskirche (Palace Chapel) in Wittenberg
A REAÇÃO DA IGREJA CATÓLICA
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RENASCIMENTO
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Como referir este artigo:
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VEIGA, Francisca Branco (2024), Martinho Lutero (Eisleben, 10 de novembro de 1483 – Eisleben, 18 de fevereiro de 1546) (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [29 de Fevereiro de 2024].
O período histórico em apreço é de tal modo importante e tão cheio de particularidades que um historiador pode bem sentir-se frustrado na escolha deste ou daquele tema. Para este trabalho, o conjunto de códices que a biblioteca da Ajuda tem sobre os jesuítas na Ásia é de uma quantidade e valor inestimável pelo que me foi difícil fazer a opção de escolha.
Após a viagem de Vasco da Gama à Índia chegam a Lisboa notícias sobre a China e sobre as navegações chinesas no Índico, realizadas entre 1405 e 1433.
D. Manuel, em 1508, envia Diogo Lopes de Sequeira a Malaca com o objectivo de recolher informações sobre a China e os chineses.
A partir de 1511, após a conquista de Malaca são feitos os primeiros contactos e é centralizado aqui o comércio português do Índico e dos mares da China.
Em 1513, Jorge Álvares penetra nos mares da China iniciando um período de intensas relações luso-chinesas.
Em 1515, em Malaca os portugueses ouvem falar de Macau, então conhecido pelo nome de Haojing, que significa Espelho de Ostra.
A partir desta data os portugueses procuram estabelecer relações diplomáticas com a China e obter um posto de comércio permanente na zona de Cantão.
Em 1517 é enviada à China a primeira embaixada, chefiada por Tomé Pires, com o intuito de estabelecer contactos políticos e diplomáticos que permitissem o comércio português na zona.
Assim, a instalação dos portugueses em Macau, em 1557, é fruto da conjugação de três factores essenciais: das condições internas e das relações internacionais estabelecidas pela dinastia reinante, Ming; do processo de aprendizagem dos portugueses nos mares da China; e da parceria de interesses comerciais que se estabeleceram entre chineses, portugueses e japoneses.
A China da dinastia Ming procura o monopólio do comércio externo marítimo através do controle da iniciativa privada das comunidades chinesas litorais e ultramarinas.
A crise fiscal e monetária da China, no tempo do imperador Jiajing (1522-1566), e o consequente incremento da procura chinesa da prata, bem como a crescente produção da prata japonesa e a capacidade dos portugueses como intermediários, em parceria com chineses e japoneses, cria a possibilidade de Macau se tornar um entreposto, por onde passa a rota da seda, prata, porcelana, ouro e cobre.
Durante a ocupação filipina (1580-1640), o Império Português tornou-se muito fraco e desprotegido, visto que o Rei de Espanha, que era simultaneamente Rei de Portugal, não estava muito interessado em defender o Império Português. Estava mais interessado em defender e expandir o seu Império, em colonizar e controlar a América do Sul e em travar guerras com as outras potências europeias, nomeadamente a Inglaterra e a Holanda. Utilizou muitos recursos para manter estas guerras, em vez de utilizá-los para defender o nosso Império. Os inimigos de Espanha tornaram-se por consequência inimigos de Portugal. As colónias portuguesas sofreram inúmeros ataques dos ingleses, dos holandeses e dos franceses e muitas delas caíram nas mãos do inimigo.
Macau foi atacada em 1622 por 800 soldados holandeses. Eles desembarcaram na praia e avançaram com cautela para a Cidade, sofrendo pesado bombardeio de canhões da Fortaleza do Monte. A guarnição militar em Macau era pequena e muito inferior à força invasora holandesa. Após 2 dias de combate, no dia 24 de Junho, um padre jesuíta disparou um tiro de canhão e acertou com precisão, um vagão carregado de pólvora pertencente aos holandeses e foi assim que os militares de Macau derrotaram as forças invasoras. Dizem os registos portugueses que morreram algumas dezenas de portugueses e que morreram em combate ou afogados cerca de 350 holandeses. Para Macau, desprevenida, a vitória foi considerada um milagre. Após a vitória, os moradores de Macau passaram a comemorar o dia 24 de Junho, dia da vitória, como o “Dia da Cidade”. É também neste dia que se comemora o São João Baptista, o Padroeiro da Cidade. Conta a lenda que foi graças ao seu manto foram desviados os tiros dos inimigos, salvando a Cidade dos invasores holandeses.
Em 1640, em Portugal, quando a classe média e aristocracia, descontentes com o domínio espanhol e com o reinado de Filipe IV de Espanha (III de Portugal), quiseram restaurar a independência, pediram a D. João para encabeçar a causa. D. João aceitou a responsabilidade e a 1 de Dezembro deu-se o golpe contra Filipe III, sendo coroado Rei de Portugal a 15 de Dezembro de 1640.
Muitos mensageiros espalharam pelo país a notícia, levando consigo cartas para as autoridades de cada terra se encarregarem de aclamarem o novo rei. D. João IV enviou também diplomatas às principais cortes europeias com o objectivo de conseguir o reconhecimento da independência.
Na China, as notícias chegam dois anos depois. Em 30 Outubro de 1642 são enviadas cartas para Portugal, da Santa Casa da Misericórdia para dar a D. João IV os parabéns da aclamação. Também há registo de, em Agosto de 1643, uma Certidão de D. Sebastião Lobo de Sylveira Capitão Geral de Macau falando da felicidade dos Padres da companhia, aclamando D. João IV.
Macau é um espaço de pluralidade religiosa onde convivem com o cristianismo as várias expressões da religiosidade chinesa: o budismo, o daoísmo e o confucionismo.
Os missionários jesuítas chegam à Ásia em 1542. Macau vai desempenhar um papel de centro difusor do cristianismo no Oriente. É a partir de Macau que partem as missões com destino ao Japão, à China e ao sueste asiático.
O Colégio de S. Paulo é a primeira universidade europeia na China, desenvolvendo cursos de artes, teologia, chinês, latim, matemática, astronomia, física, medicina, retórica e música. A impressão surge também ligada aos jesuítas e à difusão do cristianismo na China e no Japão. Em Macau imprime-se em três línguas: chinês, latim e português.
Fachada da Igreja de S. Paulo em Macau Manuel da Costa c. 1815 Litografia a preto sobre papel Lisboa, Arquivo Histórico Ultramarino
O cristianismo tem nesta parte do mundo uma forte dimensão cultural, tendo penetrado por esta via junto das elites chinesas.
Os primeiros tempos dos jesuítas na China foram essencialmente marcados pelo estudo da língua, pela observação atenta dos hábitos religiosos e sociais, pelo esforço de integração cultural e, sobretudo, por uma grande contenção nos gestos e nas palavras, a fim de não darem azo a qualquer suspeita de confronto susceptíveis de justificarem a sua expulsão do país. Mesmo assim muitas foram as injúrias, os desacatos e intrigas contra os membros da Companhia de Jesus levando a extremos, como por exemplo, ao martírio de alguns membros.
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A Biblioteca da Ajuda detém um acervo bastante importante, instaladas em 220 estantes, compreendendo 2800 prateleiras, num total de 3700 metros de prateleiras com um total de 105 000 espécimes manuscritos e impressos, como o Cancioneiro da Ajuda, o Livro de Traças de Carpintaria ou a obra Da fabrica que falece a cidade de Lisboa, de Francisco de Holanda.
Nos códices Jesuítas na Ásia as divisões, Série da Província do Japão, Série da Província da China, Série das Missões do Tonquim, orientam-nos no estudo dos vários espaços geográficos de missionização.
A origem do núcleo dos Jesuítas na Ásiaestá na chegada a Macau, em 1742, do Bispo D. Frei Hilário de Santa Rosa, acompanhado de dois franciscanos e quatro jesuítas, entre eles os Padres José Montanha S. J. e José de Jesus. À sua chegada esperava-os o Irmão João Álvares para os conduzir a Macau. Encontravam-se reunidos, pela primeira vez, os principais intervenientes de uma acção que iria frutificar na organização de um “corpo” histórico de extrema importância hoje em dia, existente na Biblioteca da Ajuda, na Biblioteca Nacional de Lisboa, e na Academia Real da História, em Madrid.
Em 1745 o Irmão João Álvares e o Padre José Montanha dirigiram os trabalhos de treslado directamente para a Procuratura da Província do Japão em Lisboa, no Colégio de Santo Antão.
O conteúdo dos treslados é diversificado: desde cartas anuas e notícias das missões, incluindo a epistolografia Xavieriana; tratados e pareceres teológicos-morais sobre os ritos sínicos, toda a série de notícias e actos das controvérsias com os Vigários Apostólicos e a Sagrada Congregação da Propaganda Fide, o longo martiriológico jesuítico, bem como a sucessão dos Bispos de Macau, China e Japão e superiores das respectivas Províncias e Vice-Províncias. Inventários e cargas do barco “negro” da viagem do Japão, bens do Colégio de Macau e da Procuratura da Província do Japão, enfim, um pouco da vida civil e religiosa de Macau. Por fim, as grandes obras de Fróis, Montanha, Valignano e Cardim, entre outros.
Da pesquisa historiográfica dos 61 códices dos Jesuítas na Ásia conseguimos ter uma ideia organizada sobre a sua penetração na Ásia, o embate cultural e a estratégia de fixação, os métodos missionários utilizados, os seus desejos, as suas convicções, os seus medos.
Através de um grande esforço de aproximação, do fomento do intercâmbio científico e de uma missionação efetiva, os missionários da Companhia de Jesus desempenharam um papel importante, a partir dos finais do século XVI e, em especial, durante o século XVII, no encontro das culturas europeia e chinesa.
Bibliografia
ARAÚJO, Horácio Peixoto de, Os Jesuítas no Império da China: o primeiro século (1582-1680), Macau: Instituto Português do Oriente, 2000.
GEADA, Maria da Conceição, Índice Onomástico da Colecção dos Jesuítas na Ásia, Lisboa, Biblioteca da Ajuda, 1976.
LEÃO, Francisco G. Cunha, Jesuítas na Ásia: catálogo e guia, Macau: Instituto Cultural de Macau: Instituto Português do Património Arquitectónico: Biblioteca da Ajuda, 1998.
LOUREIRO, Rui Manuel, Fidalgos, missionários e mandarins: Portugal e a China no século XVI, Lisboa: Fundação Oriente, 2000.
PEREIRA, Galiote, Primeiros escritos portugueses sobre a China, Lisboa: Alfa, D.L. 1989.
RODRIGUES, Francisco, A aclamação de D. João IV em Macau, Lisboa: [Tip. Porto Médico], 1944.
RODRIGUES, Francisco, Jesuítas portugueses astrónomos na China: 1583-1805, Macau : Instituto Cultural, 1990.
SANDE, Duarte de, Um tratado sobre o reino da China dos padres Duarte Sande e Alessandro Valignano (Macau, 1590) / introd., versão port. e notas de Rui Manuel Loureiro, Macau : Instituto Cultural, 1992.
SILVA, Armando Malheiro da, Arquivística: teoria e prática de uma ciência da informação, Porto: Afrontamento, imp. 1999.
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Como referir este artigo:
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VEIGA, Francisca Branco (2024), Biblioteca da Ajuda, Jesuítas na Ásia, Série da Província da China, Séculos XVI e XVII (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [03 de Fevereiro de 2024].
(Trabalho elaborado para a cadeira de Arquivística. Mestrado em Património Histórico de Matriz Cristã. Área de Comunicação Social. Universidade Católica de Lisboa. Lisboa, 2006.
Título do trabalho: CÓDICE 49-V-3. Série da Província da China)
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VEIGA, Francisca Branco (2024), Lisboa Percursora do Projeto Inaciano: O Colégio de Santo Antão-o-Velho (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [16 de Janeiro de 2024].
Palestra proferida para as Jornadas Europeias do Património 2012. “A Companhia de Jesus em Lisboa. Os jesuítas e a Santa Casa da Misericórdia: Desafios comuns na tradição cultural” (Museu de São Roque 28-09-2012)
Título da comunicação:
Lisboa percursora do Projeto inaciano: Colégio de Santo Antão-o-velhoe Noviciado da Cotovia
Dos Magos Anónimos aos Reis de Colónia: Tradição, Relíquias e Simbolismo da Epifania
ADORAÇÃO DOS MAGOS Domingos Sequeira 1828 Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
O dia dedicado à veneração dos Reis Magos inscreve-se numa tradição que, a partir do século VIII, consolidou a identificação de Melchior, Gaspar e Baltasar como figuras santas do imaginário cristão ocidental.
Segundo a tradição, as relíquias atribuídas aos Magos teriam sido inicialmente trasladadas para Constantinopla e, em seguida, confiadas ao bispo Eustórgio de Milão, que as levou para aquela cidade, onde passaram a ser veneradas. Em 1164, no contexto da política expansionista do Sacro Império Romano-Germânico, o arcebispo Rainald de Dassel transferiu essas relíquias de Milão para Colónia, ato que deu origem à construção de um monumental relicário e, posteriormente, à edificação da catedral gótica que viria a tornar-se um dos maiores centros de peregrinação da Europa medieval.
As relíquias dos Reis Magos continuam hoje expostas na catedral de Colónia, no célebre relicário dos Três Reis, mantendo vivo o culto em torno destas figuras ligadas ao relato da Epifania.
Segundo a tradição cristã, os Reis Magos ofereceram ao Menino Jesus três dons – ouro, incenso e mirra – aos quais a exegese atribuiu, desde cedo, um profundo significado simbólico.
O ouro passou a ser entendido como sinal da realeza de Cristo, sublinhando a sua dignidade régia; o incenso, utilizado no culto litúrgico, foi associado à sua divindade, remetendo para a adoração devida a Deus; já a mirra, resina aromática empregue em unguentos e ritos fúnebres, simboliza a dimensão humana e o sofrimento de Jesus, antecipando a sua paixão e morte.
Na Bíblia, o Dia de Reis aparece no Evangelho de São Mateus (Mt 2 1-12) (escrito entre 70 e 115 d.C.)
«Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia no tempo do rei Herodes, vieram do oriente uns magos a Jerusalém, perguntando:
Onde está aquele que nasceu Rei dos Judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos adorá-lo.
O rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e com ele toda Jerusalém;
e reunindo todos os principais sacerdotes e os escribas do povo, perguntava-lhes onde havia de nascer o Cristo.
Eles lhe disseram: Em Belém da Judéia; pois assim está escrito pelo profeta:
E tu Belém, terra de Judá, Não és de modo algum o menor entre os lugares principais de Judá; Porque de ti sairá um condutor, Que há de pastorear meu povo de Israel.
Então Herodes chamou secretamente os magos, e deles indagou com precisão o tempo em que a estrela tinha aparecido;
e enviando-os a Belém, disse-lhes: Ide informar-vos cuidadosamente acerca do menino; e quando o tiverdes achado, avisai-me, para eu também ir adorá-lo.
Os magos, depois de ouvirem o rei, partiram; e eis que a estrela, que viram no oriente, ia adiante deles, até que foi parar sobre o lugar onde estava o menino.
Ao avistarem a estrela ficaram extremamente jubilosos.
Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, adoraram-no; e abrindo os seus cofres, fizeram-lhe ofertas de ouro, incenso e mirra.
Sendo em sonhos avisados por Deus que não voltassem a Herodes, seguiram por outro caminho para a sua terra.
[…]»
O relato evangélico não indica quantos eram os Magos nem regista os seus nomes; o número três acabou por se firmar na tradição cristã a partir da variedade dos presentes oferecidos – ouro, incenso e mirra – e da respetiva interpretação simbólica. Também não há, no texto bíblico, qualquer identificação nominal destas figuras. A tradição dos nomes e perfis dos Magos foi sendo construída progressivamente, devendo-se muito, no Ocidente latino, ao monge beneditino inglês São Beda (c. 673‑735), que, na obra Excerpta et Collectanea, lhes conferiu identidade, origem e traços físicos. Beda associa cada um dos Magos a uma região do mundo antigo:
«Melchior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus. Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio. E Baltasar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz”» (Excerpta et Colletanea)
Esta descrição, amplamente retomada pela tradição posterior, fixou um imaginário visual e teológico que associa os Magos à universalidade dos povos.
A própria designação «magos» foi frequentemente interpretada como indício de que poderiam ter sido astrólogos ou astrónomos, atentos aos sinais celestes. O evangelho relata que «viram uma estrela» e, por isso, se puseram a caminho até à região onde nascera Jesus Cristo, deixando perceber a leitura religiosa de um fenómeno astral. A estrela, segundo o texto de Mateus, conduz primeiro os Magos a Herodes e só depois «parou sobre o lugar onde estava o menino», culminando na afirmação:
«E vendo a estrela, alegraram-se eles com grande e intenso júbilo» (Mt 2,10).
Os Reis Magos, figuras anónimas do Evangelho transformadas em ícones da universalidade cristã, continuam a iluminar o imaginário coletivo como símbolo eterno da busca humana pelo divino, guiada por estrelas de esperança e transcendência.
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VEIGA, Francisca Branco (2024), DIA DE REIS, 06 de Janeiro (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [05 de Janeiro de 2024].
A Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada em 1534 por um grupo de estudantes da Universidade de Paris, liderados pelo basco Inácio de Loyola, é conhecida principalmente pelo seu trabalho missionário e de educação.
Ao entrar em Portugal pela mão do rei D. João III, logo após a sua fundação, é, no reinado de D. José, expulsa de Portugal, levando ao encerramento da presença evangelizadora, missionária e educativa nos territórios portugueses (1759).
Retrato de D. João III de Portugal, no Museu de São Roque. É uma réplica dum quadro pelo Mestre Flamengo Anthonis Moro, pintado em 1522 (Museu do Prado, Madrid). Este quadro é atribuído a Cristóvão Lopes, filho de Gregório Lopes e seu sucessor enquanto pintor da corte em 1550.S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III André Reinoso, cerca de 1619 Igreja de S. Roque, Lisboa, Portugal
O século XIX vai ser para os jesuítas um século de exílios. Reentram em Portugal em 1829, no reinado de D. Miguel, e são novamente expulsos seis anos depois por D. Pedro, regente em nome de sua filha D. Maria II.
Johann Nepomuk Ender Viena, Áustria, 1827 Óleo sobre tela 256×180 cm Assinado e datado: “Giovanni Ender pinx, Vienne 1827”
Em 1858, será o Padre Rademaker a pessoa que irá fazer renascer os missionários jesuítas em Portugal, que a República volta a expulsar (outubro de 1910).
Carlos João Rademaker (1828—1885) Autor desconhecido
A partir de 1923, no governo do presidente António José de Almeida (6º presidente da Primeira República Portuguesa – 5 de outubro de 1919 a 5 de Outubro de 1923), reabrem algumas residências em Portugal, sendo, pelo decreto de 12 de maio de 1941, na sequência da Concordata de 1940, reconhecidos como corporação missionária, normalizando, deste modo, a sua situação jurídica.
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«INTER SANCTAM SEDEM ET REMPUBLICAM LUSITANAM
SOLLEMNES CONVENTIONES
CONCORDATA ENTRE A SANTA SÉ E A REPÚBLICA PORTUGUESA
Em nome da Santíssima Trindade
Sua Santidade o Sumo Pontífice Pio XII, e Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, dispostos a regular por mútuo acôrdo e de modo estável a situação jurídica da Igreja Católica em Portugal, para a paz e maior bem da Igreja e do Estado,
Resolveram concluir entre si uma solene Convenção que reconheça e garanta a liberdade da Igreja e salvaguarde os legítimos interesses da Nação Portuguesa, inclusivamente no que respeita às Missões Católicas e ao Padroado do Oriente.
Para tal efeito, Sua Santidade nomeou seu Plenipotenciário Sua Eminência Reverendíssima o Senhor Cardeal LUIGI MAGLIONE, Seu Secretário de Estado,
e o Senhor Presidente da República Portuguesa nomeou Seus Plenipotenciários :
Sua Excelência o Sr. General EDUARDO AUGUSTO MARQUES, antigo Ministro das Colónias, Presidente da Câmara Corporativa, Gran Cruz das Ordens militares de Cristo, de S. Bento d’Aviz e da Ordem do Império Colonial;
Sua Excelência o Sr. Doutor MARIO DE FIGUEIREDO, antigo Ministro da Justiça e dos Cultos, Professor e Director da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, Deputado e Gran Cruz da Ordem militar de S. Tiago da Espada;
Sua Excelência o Sr. Doutor VASCO FRANCISCO CAETANO DE QUEVEDO, Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário junto da Santa Sé, Gran Cruz da Ordem militar de Cristo e Cavaleiro de Gran Cruz da Ordem de S. Gregório Magno;
os quais, trocados os seus respectivos plenos poderes e achados em boa e devida forma, acordaram nos artigos seguintes :
Art. I
A República Portuguesa reconhece a personalidade jurídica da Igreja Católica. As relações amigáveis com a Santa Sé serão asseguradas na forma tradicional por que historicamente se exprimiam, mediante um Núncio Apostólico junto da República Portuguesa e um Embaixador da República junto da Santa Sé.
[…]
Assinatura da Concordata e do Acordo Missionário no Vaticano, 7 de Maio de 1940. À direita o Cardeal Luigi Maglione, representante da Santa Sé e à esquerda o General Eduardo Marques, antigo Ministro das Colónias portuguesas. [AHD- Colecção de Álbuns Fotográficos].
Quadro alusivo à estada da Companhia de Jesus em Portugal de 1540 à atualidade
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VEIGA, Francisca Branco (2023), Quadro cronológico relativo à estada da Companhia de Jesus em Portugal de 1540 à atualidade (blogue da autora Francisca Branco Veiga). Disponível em: https://franciscabrancoveiga.com/ [02 de Janeiro de 2024].